Drummond no Partido Comunista Brasileiro, uma experiência dolorida até no pescoço

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Na vida do poeta Drummond pouca controvérsia pública se registra, noves fora o poema da pedra que na verdade foi um escândalo provinciano dos parvos. Os demais são pequenas diferenças.

Houve também uma controvérsia com o amigo Luis Martins que discordou veemente de uma seleção, de responsabilidade do chefe de Gabinete do ministro Gustavo Capanema, de obras brasileiras a representar o Brasil nos EUA.

Mas o caso que “deu briga de mão” foi no Partido Comunista Brasileiro.

Cartaz de propaganda de Jorge Amado 1912/2001), eleito deputado federal em 1945 e cassado em 1947, quando Getúlio colocou o PCB na clandestinidade. Amado, comunista, foi o autor da lei, ainda em vigor, que assegura o culto religioso. No destaque, montagem com Jorge Amado e Drummond, ex-correligionários (Fotos: Raul Junior e Nelson Di Rogo/Dedoc)

A discórdia se deu com o camarada stalinista Arruda Câmara (1914-1979) pernambucano de Afogados da Ingazeira. E quem relata a pendenga é jornalista Paulo Francis, por duas vezes, em 1988 e 1990.

“Arruda Câmara sempre me tratou muito bem. Parecia o próprio Stalin, de quem copiava os bigodes. E foi o dono do PC anos a fio, porque Prestes, o secretário-geral verdadeiro, estava na prisão ou clandestinidade. Dizem que era um tirano com os militantes. Deu uma gravata em Carlos Drummond de Andrade, quando este se recusou a mudar um verso, para torná-lo aceitável ao “realismo socialista”. Drummond saiu do PC. [Bimbalham os sinos, 21/12/1988]

“Nos meus tempos, quem dirigia o partido era Arruda Câmara, que talvez fique só conhecido na história porque um dia deu uma gravata em Carlos Drummond de Andrade, quando queria obrigá-lo a trocar umas linhas de seu verso. Drummond tendo saído do PC em consequência e conseguido um emprego com seu bom amigo Capanema, no Ministério da Educação, Capanema bem de direita, e desmentindo Nelson Rodrigues, que dizia que mineiro só é solidário no câncer”. [Diário da Corte, 18/3/1990]

Leia a seguir mais um trecho de Maria Julieta entrevista Carlos Drummond de Andrade – gravação disponível no sítio do Instituto Moreira Sales/Rio.

A entrevista foi gravada no verão carioca de 22 de janeiro de 1984. (MCS)

A minha candidatura a deputado Federal por Minas

Minha política foi um fracasso. Houve uma ocasião que eu estava de namoro com o Partido Comunista. Eles tinham que lançar a primeira chapa de deputados em 45, o partido tinha reconquistado o direito a ser partido, que até hoje é negado.

Havia necessidade de fazer deputados por Minas e o partido não tinha quadros em Minas. Lembrou de mim para ser um dos deputados. Eu botei a mão na cabeça e disse: ‘pelo amor de Deus’, que aliás não é uma expressão muito comunista. Então eu recusei.

Porque senti que eu não teria o voto nem de minha família que era muito católica, muito conservadora. A minha mulher, acredito também, não votaria em mim. E sobretudo minha mãe e meus irmãos não votariam em mim.

Minha mãe sabendo disso pelos jornais ficou horrorizada. Mandou apelar para mim que eu não aceitasse. Então em meu lugar foi escolhido um candidato mais palpável, viável, tinha maior número de parentes, uma parentela grande, era muito relacionado, festivo, muito agradável. Era Aníbal Machado. Encantador!

– Imagina eu deputado?

– O que eu ia fazer?

– Nada!

Que foi que recebeu a mulher do soldado?

Bertolt Brecht (1898-1956) 

Tradução de Carlos Drummond de Andrade, por meio do texto francês de Jean Richard Bloch

Que foi que recebeu a mulher do soldado

de Praga, a velha capital?

De Praga recebeu os sapatos de salto alto.

Um amor de feitio, aqueles sapatos de salto alto!

Eis o que de praga ela recebeu.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

lá de cima, de Oslo, na Noruega?

De Oslo recebeu a gola de pele.

E como lhe fica bem a sua gola de pele!

Eis o que de Oslo, na Noruega, ela recebeu.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

da rica Amsterdão?

De Amsterdão recebeu o chapéu.

Era uma encomenda sua, aquele chapéu de palha

que ela recebeu da rica Amsterdão.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

de Bruxelas, no Brabante?

De Bruxelas recebeu umas rendas preciosas.

Fritz ficará orgulhoso ao vê-la, sob as rendas preciosas

que ela recebeu de Bruxelas.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

de Paris, a Cidade-Luz?

De Paris recebeu um vestido de seda.

Todo o quarteirão pasma ante o vestido de seda

que de Paris ela recebeu.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

De Bucarest, lá no sul?

De Bucarest recebeu uma camisa.

São tão ????, essas camisas de Transilvânia!

Eis o que ela recebeu de Bucarest.

Que foi que recebeu a mulher do soldado,

do longínquo país dos russos?

Da Rússia ela recebeu o seu véu de viúva,

de um pano que não acaba, esse véu de viúva!

Eis o que da Rússia ela recebeu.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

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