Do sal de quinino à cloroquina: pensamento mágico no Brasil

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Por Lilia Schwarcz*

NEXOA ciência evoluiu entre 1918 e 2020, mas a busca por receitas milagrosas continua a ter espaço, agora com a chancela do presidente da República

Em 1918, o Brasil foi invadido pela gripe espanhola. A peste, como era então chamada, vinha de longe; ao que tudo indica, havia contaminado um quartel militar nos EUA e depois rumou para a Europa, onde fez mais baixas do que o próprio conflito bélico que assaltava o continente desde 1914.
A doença não matou mais na Espanha; o país levou a pecha e o nome por mera circunstância histórica. Não havia entrado na Grande Guerra e, diferentemente dos países envolvidos no embate, não tinha preocupação em manter sigilo e a censura sobre a “estranha doença” que assolava as tropas de ambos os lados da contenda. Por isso mesmo ganhou, inadvertidamente, o nome da doença.

No Brasil ela chegou num navio, o Demerara, que foi deixando um rastro de contaminação por todos os lugares por onde passou: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos. Das regiões costeiras rumou para o interior atingindo em cheio São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Ganhou então velocidade e alcançou grandes e pequenas cidades, municípios e tribos, sem dó nem piedade. A espanhola era ligeira e cruel, matando as pessoas contaminadas em questão de dias.

Nunca se está preparado para uma pandemia. Mas nos idos de 1918 faltava de tudo, até porque, com a República, o serviço médico fora federalizado. E diante da inoperância e malemolência das autoridades sanitárias, recorreu-se, e muito, à medicina popular. No Rio se recomendava canja de galinha, em São Paulo a caipirinha e, em Porto Alegre, foi proibido o chimarrão.

A população apelou também para os famosos “destronca peito”, para as alfazemas, para o uso de limão, coco, sal de azedas (utilizado normalmente para a limpeza e desinfecção), cebola, vinho do Porto, fumo de rolo, infusões e para os xaropes milagrosos que prometiam curar tudo ao mesmo tempo. A cachaça e o caldo de galinha, para alegria de alguns adoentados, e da população em geral, também entraram na lista de produtos que prometiam combater a doença.

Enquanto isso, como as autoridades não se entendiam acerca dos tratamentos a serem dispensados, sobravam remédios e muita sabedoria popular. O produto mais empregado e valorado era o sal de quinino, entendido na época como um “santo remédio”.

O quinino, ou sulfato de quinina, era um alcaloide de gosto amargo e inodoro, em geral encontrado na forma de pó branco, que guardava funções antitérmicas e analgésicas. Medicamento normalmente utilizado para tratar arritmias cardíacas e a malária, o produto estava longe de ser inócuo e não poderia (ou deveria) ser tomado sem prescrição de um especialista médico.

Anúncio publicado em jornal de 1918 indica água tônica com quinino como remédio preventivo para a gripe espanhola

Água tônica com quinino anunciada como preventivo contra a gripe espanhola no jornal A Noite, 19 de outubro de 1918 (Reprodução: Acervo da Biblioteca Nacional)

A comunidade médica não tinha muita certeza acerca da real eficácia do produto. Além disso, os efeitos colaterais causados pelo quinino eram muitos e algumas vezes incontroláveis. Os mais comuns, sobretudo quando o medicamento era utilizado sem prescrição médica e de forma exagerada – eram a perda reversível da audição, náuseas e vômitos insistentes.

Em casos extremos ocorriam também distúrbios visuais, erupção cutânea, perda de audição, zumbido e desmaios. Quando tais efeitos apareciam era preciso descontinuar o remédio imediatamente; atitude que poucos tinham coragem de tomar diante do medo generalizado que a doença despertava.

Lendas urbanas criavam uma verdadeira fantasmagoria em torno do produto. Em São Paulo, onde o sal de quinino foi muito utilizado (e contrabandeado a preço de ouro), dizia-se que alguns indivíduos chegavam a desmaiar nas ruas, sendo levados pelos coveiros que os tomavam como mortos.

Estes relatavam terem visto os falecidos “ressuscitarem” milagrosamente, bem na hora em que seriam enterrados vivos. Exageros à parte, o certo é que a época estava mais para o milagre da “crença” do que para a certeza da “ciência”. Tanto que, na falta de especialistas, a população apelou para todo tipo de placebo e solução que prometesse salvação rápida.

Anúncio de tratamentos para a gripe espanhola publicado no jornal A Noite, 26 de outubro de 1918

Anúncio de tratamentos para a gripe espanhola publicado no jornal A Noite, 26 de outubro de 1918 (Reprodução:: Acervo da Biblioteca Nacional

O mais interessante é que o sal de quinino seria substituído, anos depois, por um conhecido nosso: a cloroquina. Ela fora descoberta em 1934 pelo pesquisador da Bayer Hans Andersag, e era igualmente utilizada para o tratamento da malária.Mesmo assim, advertia-se sobre os efeitos adversos da cloroquina, que, dizia-se, no contexto, causava problemas musculares, perda de apetite, diarreia, erupções cutâneas.

Isso sem esquecer das consequências mais graves como problemas na visão, danos musculares, crises epilépticas e baixa concentração de células sanguíneas. Mais importante: já naquela época, não se recomendava o uso do remédio para outros casos e moléstias.Não há coincidência ou acaso se compararmos o uso do sal de quinino e da cloroquina na pandemia de 1918 e na de 2020.

De maneira semelhante, a prática, desautorizada pelos médicos, era e é praticada aberta e livremente pela população.A diferença é que, em 2020, “a coisa piorou”: hoje em dia é o próprio presidente da República que autoriza, do alto de sua ignorância, e estimula que se tome a medicação.

Dois estudos publicados no dia 22 de julho pela revista Nature mostraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não são úteis no tratamento da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.No entanto, nessas horas, na maior parte das vezes a sabedoria de esquina parece valer mais do que a informação proveniente da ciência pois, enquanto uma promete milagres, a outra os desaconselha. Esse movimento tem muito de “eficácia simbólica”.

Em ensaio hoje clássico, Claude Lévi-Strauss analisa o poder de cura do xamã e explica que tal capacidade não estaria ligada aos cânticos ou poções que ele produz e distribui. Ela é antes fruto do consenso construído pela sociedade que deseja acreditar na cura – pelo doente que precisa dela e pelo próprio feiticeiro que a manipula – e reside aí sua eficácia. Ao controlar desejos universais da cura, o xamã aciona a busca do milagre e implementa a sua crença.

Segundo o etnólogo, ainda, enquanto o médico (ou o cientista) ouve o mito e o traduz em uma história que é sua; o xamã carrega o mito consigo e é o doente que o opera. Sem entrar nos meandros desse debate espinhoso, é melhor pensar na eficácia simbólica do sal de quinino e da cloroquina. Esses medicamentos ofereciam e oferecem solução rápida a doenças e moléstias cujo controle ainda está longe de ser realidade.

Assim foi em 1918 e também é assim em 2020. Mas existem diferenças importantes. A primeira delas é que agora temos um presidente que se comporta como garoto propaganda da cloroquina, associando seu posto elevado na hierarquia do Estado à promessa de cura.

A segunda, é que nos tempos do agora, o Exército é o grande responsável pela produção do produto. Por sinal, o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército já gastou mais de R$ 1,5 milhão para ampliar, em 100 vezes, sua produção de cloroquina — medicamento cujo uso em estudos para o tratamento da covid-19 foi suspenso pela Organização Mundial da Saúde.

O crescimento da produção entrou, porém, na mira do TCU (Tribunal de Contas da União), que investiga suspeita de superfaturamento nas compras do Exército, além da participação do presidente em suposta má aplicação de recursos públicos, uma vez que o medicamento nunca teve comprovação científica para tratar a covid-19.

O TCU também apura de quem partiu a ordem para o Laboratório do Exército produzir a cloroquina em larga escala. A suspeita é de que a decisão tenha partido de Bolsonaro e da cúpula militar do governo, sem o aval de técnicos do Ministério da Saúde, então comandado por Luiz Henrique Mandetta, que era contrário a ampliar o uso do medicamento no SUS.

Enfim, como se pode notar, história não funciona como linha ascendente. Nesse caso, retrocedemos: usamos o mesmo produto de 1918 — o sal de quinino hoje mais conhecido como cloroquina – mas temos um presidente negacionista e que joga abertamente contra a ciência. Em vez do dito do rei francês Luís 14 – “O Estado sou eu” —, o chefe do Executivo brasileiro vem apostando no “A ciência sou eu”. Não é!

PS: Essa coluna é pautada na pesquisa sobre a gripe espanhola no Brasil que estou desenvolvendo em parceria com Heloisa Starling e que deve ser publicada em setembro de 2020 no livro “A bailarina da morte”. Também foi produzido como parte da campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência. Ao longo do mês de julho, colunistas abordam temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios.

*Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, “Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas”. Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

No destaque, produção de sal cloroquinado na Amazônia, 1953 (Arquivo Rostan Soares/Casa Oswaldo Cruz?Fiocruz)

 

Compartilhe.

Sobre o Autor

Deixe um comentário