Do outro lado da linha, Drummond

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De: Antonio Maria

Para: Carlos Drummond de Andrade

Na década de 1980, a dupla Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se articulava para organizar e publica uma “certa antologia” que incluirira um texto de Antonio Maria. Apesar de o projeto não ter avançado, o cronista pernambucano, emocionado, se dirige ao poeta itabirano nesta carta-crônica.

Embora não seja de me alegrar à toa, eis-me contentíssimo, com o telefonema recebido esta manhã. Do outro lado da linha, Carlos Drummond de Andrade a me pedir uma crônica sobre o Rio, para certa Antologia, que ele e Manuel Bandeira estão preparando.

Claro, meu exultamento não tinha nada a ver com a possibilidade de me tornar antológico, mas era completo, no simples fato de Carlos Drummond, esse homem tão direito, descobrir meu telefone, e vencendo sua digníssima timidez, procurar-me com tanta bondade.

Sabe, poeta? Quando meu pessoal (jovens escritores, a secretária, Dona Verinha) chegou para trabalhar, fiz a pergunta, em tom da mais falsa e feliz naturalidade:

– Sabem quem me telefonou, hoje, de manhã? Carlos Drummond de Andrade.

E todos, com assombrada inveja do patrão que Deus lhes deu:

-Foi meeeeessssmo?

Meu caro Drummond, por mais incrível que pareça, jamais guardei o que escrevi. Simplesmente, porque não acredito no que escrevo. Minhas crônicas, suporto-as, enquanto as escrevo; detesto logo depois, quando as releio; esqueço-as, quando descem às oficinas. Faço bem, eu sei.  E, se a maioria fizesse assim, não haveria tanta besteira por aí, impressa em livro e consagrada em noites de autógrafos. Juro, que não sei onde estão minhas crônicas, desde as primeiras, aqui mesmo, no O Jornal, no Comício e no Diário Carioca. Não sei, nem me lembro delas. Só uma gostaria de ter e ver em livro – a que descreve meu encontro com você, de tarde, em Ipanema. Eu lhe disse, com uma simplicidade quase agressiva:

– Sou Antônio Maria e tinha muita vontade de lhe conhecer.

Você respondeu, sem nenhuma preocupação de me pôr à vontade (nem eu queria):

– Ah, o prazer foi meu.

Por que você não reedita essa crônica, Drummond? É uma crônica do Rio. E será mais ainda, se editada de um cenário bragueano: “Ao fundo, as ilhas Rasa e Cagarras”.

Quero poupar você de andar por aí, pelas redações, à procura do que escrevi. E poupar-me, em seu bom gosto de, após a procura, me dar toda razão quando acho que nada do que escrevi vale menção. Fo quase tudo feito cavilosamente, para a mulher vigente. Na verdade, eu não queria escrever. Queria a mulher.

Hoje, por exemplo, estou felicíssimo, porque amiga minha (que é sua também) incluiu-me em seus sonhos. O primeiro sonho lírico (venial) de sua vida, já pensou? Os outros foram eróticos. Mesmo assim, sonhando como ornamento lírico, estou convencido de que a vida é perfeitamente suportável.

Publicado em O Jornal, 20 set. 1964. Pode ser lida também no Portal da Crônica Brasileira.

Acervo: Instituto Moreira Salles

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