Disputas internas podem inviabilizar o Brasil com participação direta do presidente

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Rafael Jasovich* 

A notícia mais importante do domingo de Páscoa foi publicada pelo colunista Lauro Jardim, no Globo, que recebeu áudios em que o presidente Jair Bolsonaro incentiva seus aliados a atacar o vice-presidente Hamilton Mourão.

Já parecia óbvio e ululante, como diria Nelson Rodrigues, que os ataques do “guru” Olavo de Carvalho ao vice e também a outros militares não ocorriam sem o aval de Bolsonaro.

No entanto, os áudios agora fornecem uma prova material de que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) conspira contra seu vice – o que, de certa forma, contraria a lógica.

“Normal”, na tradição brasileira, é que vices conspirem contra seus chefes e o exemplo maior de traição na nossa história foi recentemente protagonizado por Michel Temer. Bolsonaro, no entanto, subverte a lógica.

Se não bastassem os ataques do “guru” da Virgínia, Bolsonaro também incentivou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) a pedir o impeachment de Mourão.

Ao decidir não puni-lo pela iniciativa, Bolsonaro também deixou claro que aprova suas ações. Não por acaso, o “pastor” Feliciano aproveitou o sábado de Aleluia para malhar seu Judas particular e foi ao twitter para rotular Mourão como “traidor” .

Há, no entanto, alguma evidência de que Mourão esteja mesmo traindo Bolsonaro? Até agora, não. O que existe, objetivamente, é uma tentativa da ala militar do governo de conter movimentos de Bolsonaro que representam uma traição à pátria.

Sim, porque embora diga “Brasil acima de tudo”, Bolsonaro bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e tenta promover uma política de ataque aos interesses nacionais. Mais do que isso, ele próprio já declarou que chegou para destruir – e não para construir absolutamente nada.

Bolsonaro ficou irritado com a foto de Mourão com FHC na universidade de Harvard, nos Estados Unidos e deu “piti” (Fotos: Reprodução)

Se dependesse unicamente de Bolsonaro, o Brasil já teria se metido em diversas enrascadas, que atenderiam apenas aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel.

Nosso chanceler trumpista Ernesto Araújo chegou a oferecer um corredor de passagem para tropas estadunidenses, numa eventual guerra contra a Venezuela. Graças a uma viagem de Mourão à Colômbia, no entanto, o risco de guerra no continente foi afastado.

Foram também os militares que impediram a insanidade da transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. A solução salomônica encontrada – de um escritório de negócios – foi ruim, mas menos grave do que a transferência da embaixada em si.

E foi também Mourão quem fez movimentos de aproximação com países árabes e com a China, que vêm sendo alvo de ataques pela política externa de Araújo – um chanceler que segue a cartilha de Washington.

O que Feliciano classifica como traição, portanto, é a defesa dos interesses econômicos da burguesia nacional, assunto que certamente passa longe das preocupações da bancada evangélica, que mobiliza fiéis pelo Brasil com a promessa de que Jesus Cristo retornará quando o povo de Israel se converter ao cristianismo – uma das maiores fake news já propagadas.

Aliás, no que depender dos israelenses, onde o cristianismo é uma religião inexpressiva, Jesus Cristo jamais retornará. E na sua guerra contra os militares de alta patente, Bolsonaro utiliza diversos instrumentos.

De um lado, reforça sua associação com o baixo oficialato. Notícia publicada neste domingo pela Folha de S. Paulo indica que o Brasil ampliou gastos com pessoal militar, mas reduziu investimentos em defesa – ou seja, mais salários e menos proteção.

Por outro lado, o “guru” Olavo, que já atacou tanto Mourão como o general Santos Cruz, diz que os militares devem se Chá, portanto, uma guerra não declarada em Brasília entre o bolsonarismo e as Forças Armadas.

Os generais imaginavam que conseguiriam cavalgar Bolsonaro, mas o presidente reage. Ocorre que nenhuma de suas ações terá êxito se ele não conseguir entregar o essencial: empregos, crescimento econômico e paz social.

E até agora nada indica que a política econômica de Paulo Guedes e a política externa de Ernesto  Araújo tenham qualquer capacidade de fazer o Brasil voltar a crescer.

Ou seja: por mais que conspire contra seu vice, Bolsonaro será fatalmente inviabilizado se não conseguir apresentar respostas concretas aos problemas da população que o elegeu. Contentar com os cargos que receberam na máquina pública.

A mensagem é clara: não ousem querer impedir o processo de entrega do Brasil aos Estados Unidos. Em paralelo, os filhos de Bolsonaro também mobilizam suas redes sociais contra os “traidores” de farda.

E assim, a soma de diferentes em guerra interna inviabilizam o Brasil.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

 

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