Dia Nacional da Consciência Negra é luta antirracista que deve ser permanente

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Quilombolas, presente!

A ideia de Zumbi, como de outras pessoas brilhantes, me fisga a cada dia duro, por demais duro aos outros naturalmente duros. Hoje é o dia da Consciência Negra e na cidade do Rio de Janeiro é feriado.

Seria um dia de festa não fosse a pandemia, mesmo com a oposição do prefeito Crivella, um beócio crente, que trabalha contra a festa da Senhora Yemanjá; de São Jorge, em Madureira e Copacabana, quando polícia e bandidos depõem as armas e caminham juntos na mesma fé ao santo guerreiro; a festa de Cosme e Damião, simplesmente doce e pueril.

O Rio tão alegre e informal está triste faz muito tempo. Agora é o medo da milícia que rouba o riso humorado, rouba a rua e a carioquice. A chapa está esquentando e reação violenta por parte do povo, só precisa de um sopro na ponta do fio para as chamas do fogo dançarem sobre sangue. Oxalá que venha!

Desejo que todas as pessoas, com sentido de Nação e valor da dignidade humana, possam ouvir o coração do afro-brasileiro, gente inteligente, linda, vigorosa e por privilégio do Brasil, é a maioria de sua população.

Nesta data, reverencio, saúdo e louvo o amigo Bitinho Norberto de Jesus, pioneiro do Movimento Negro Unificado de Itabira, pela luta antirracista.

Axé! às mina e mano pretos da perifa.

(m.c.s.)

Negros são afros?

Joel Rufino dos Santos*

Por que chamamos negros de afrodescendentes?

Palavras, como tudo, nascem, vivem e morrem. Aliás, é para isso que servem os historiadores: mostrar como um país, um deus, uma palavra se transformam em outros, parecidos, mas diferentes. De passagem, reconheçamos que os historiadores também nos divertem.

Hoje em dia, muitos se aborrecem quando chamamos de negros, crioulos, escuros, de cor etc. Exigem os afrodescendentes (ou afrobrasileiro). Outros ridicularizam o termo, se aborrecem com sua catadura politicamente correta.

A palavra afrodescendente tem menos de trinta anos. A geração anterior se chamava a si de negros, rejeitando os apelativos de cor, preto, escuro, moreno etc.

A mudança dessa preferência não foi aleatória, correspondeu a mudanças em outros setores da sociedade. A economia brasileira se tornou competitiva, surgiu um movimento negro, a África ganhou prestígio mundial, o mito da democracia racial brasileira virou pó etc.

Nesse meio tempo, a ideia de Brasil continuou parecida, mas ficou diferente. Essa nova ideia, no que respeita os negros (afrodescendentes), trocou o nome antigo pelo novo.

Negros politizados e mídia popularizaram o termo afrobrasileiro. A África, até há pouco tempo, não era referência popular no Brasil. Só lembrava Tarzan, Jane, Lothar.

Para a maioria dos negros brasileiros, sua ascendência africana nada representava, tal a ignorância sobre o continente africano. Hoje, não. Lembra, por exemplo, Nelson Mandela.

Em que somos africanos? Podemos, de verdade, usar a palavra afrodescendente para nos identificar?

A Unesco está relançando no Brasil a História Geral da África. Os mais conceituados africanistas nos mostram, nessa obra monumental, como as populações africanas mudaram desde a pré-história.

Descobrimos que há muitas Áfricas dentro da África; como há muitas Américas dentro da América; Ásias dentro da Ásia; e Europas dentro da Europa. Na África, há povos que nunca se conheceram, culturas que nunca se cruzaram.

A questão se repõe: somos afrodescendentes de quem?

No plano genético, os brasileiros descendem em boa parte de africanos. Mas não é simples, como parece. Primeiro, todos os seres humanos descendem, genericamente, de africanos. Segundo, todos os brasileiros descendem, em graus variáveis, de africanos.

Valores e hábitos africanos continuam no Brasil, entrelaçados, por vezes fundidos, a europeus, indígenas asiáticos. A civilização brasileira, isto é, a nossa maneira de ser, dá continuidade à africana, em outro ambiente (a América) e em outro tempo (os tempos modernos). Os brasileiros, e não só os negros, são, em certo sentido, neoafricanos.

Quanto à dinâmica histórica, Padre Vieira lembrou que sem Angola não haveria Brasil; e sem o tráfico, para não ir longe, o capitalismo brasileiro não teria deslanchado.

A palavra afrodescendente é, portanto, verossímil e aceitável. Mas há um problema. A África e o Brasil mudaram muito desde que existem. E se, ao invés de nos atermos a certos valores e hábitos, quisermos realçar o que mudou? Talvez, então, seja preferível a palavra da geração anterior: negros.

Só para os religiosos há uma palavra verdadeira. Para os historiadores há palavras, cada uma com sua verdade.

*Joel Rufino é historiador e escritor. (Revista Caros Amigos, abril de 2011)

Ilustração: Latuff/2006

 

 

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