Desemprego aumenta com ajuste fiscal neoliberal de Temer

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Rafael Jasovich*

A situação política e econômica brasileira atual é dramática para os trabalhadores. Não há dúvidas que vivemos um dos mais intensos momentos da história do país no que toca à nossa trajetória de crises e recessões. Interpretar essa realidade e suas consequênciasé uma tarefa árdua que exige uma competição desigual com os ideólogos liberais e a presença maciça na grande mídia, repetindo o mantra sagrado da necessidade de fazer ajuste fiscal. Mas, tem muito mais caroço nesse angu que a aparente necessidade de “botar a casa em ordem”.

A recessão econômica está instalada no Brasil formalmente desde o segundo trimestre de 2014, quando a economia, medida pelo PIB, começou a encolher. Desde então, foram acumulados 7,9% de variação negativa no PIB.

As eleições de 2014 expuseram duas grandes linhas de interpretação sobre a recessão brasileira: 1 – a situação internacional, com destaque para a diminuição do ritmo de crescimento chinês, seria a principal responsável, 2 – a condução da política econômica interna seria a causa da crise, com destaque para o déficit orçamentário.

Pergunta que precisa ser respondida é: por que esses setores, que apoiaram o golpe, agora apoiam o novo governo na implementação de medidas que aprofundam a recessão econômica que atravessamos? Desde Keynes ficou muito bem compreendido, sobretudo pelos capitalistas, que as falhas da economia de mercado devem ser compensadas pela atuação do governo.

As reformas neoliberais aprofundam as desigualdades sociais com o aumento do desemprego no país. Na foto em destaque, fila de desempregados no Sine Itabira (Fotos: Carlos Cruz e UOL)

A atuação dos governos nesses casos drásticos não é outra coisa que o aumento de gastos entre outras medidas de estímulo à economia, como a redução dos juros. As medidas como a PEC 241/2016, que limita todos os gastos do governo – menos com o pagamento da dívida aprofundam a recessão e são amplamente apoiadas pelos capitalistas de todos os setores.

Constatado que a lógica em curso vai na contramão das medidas que governos, inclusive os que não têm nada de esquerda, lançam para reativar a economia e diminuir o desemprego fica a hipótese que algo mais terrível que uma recessão econômica estaria ameaçando a classe dominante (detentores dos meios de produção, capital financeiro etc.) pois estão em uníssono apoiando o pacote recessivo. Estaria ela confusa no seu papel de classe ou haveria um inimigo ainda maior?

A situação de recessão é aquela em que os chamados fatores de produção estão ociosos, dentre esses fatores a mão de obra ocupa o lugar de maior destaque. O crescimento do desemprego no Brasil foi muito rápido nos últimos anos, passando de 6,5% em dezembro de 2014 para 11,8% em agosto de 2016, ou em números estimados de desempregados ocorreu um aumento de 6,4 milhões para 12 milhões de pessoas, segundo a PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua) medida pelo IBGE.

A recessão atinge principalmente jovens em busca do primeiro emprego

O grande capital não gosta da interferência do governo porque este retira da iniciativa privada a prerrogativa de gerar emprego e renda, nessa situação os déficits orçamentários – mesmo os que são feitos em benefício dos próprios empresários – são vistos com reserva.

Aqui entra o mantra repetido 24 horas por dia por especialistas e mídia tradicional de que as reformas propostas pelo governo golpista têm como objetivo recuperar a confiança na economia. Quem está desconfiado, do quê e o que isso significa? Os empresários são os desconfiados, desconfiados da perda de seu controle de gerar empregos e da perda de controle do rumo do déficit orçamentário.

Quando eles ficam desconfiados com relação ao futuro param de gastar, assim como todos nós, mas o gasto deles é o investimento privado de toda a economia, do qual também depende o emprego e a arrecadação fiscal do governo.

Quando os trabalhadores fazem greve deixam de entregar horas trabalhadas, quando os empresários fazem greve, deixam de investir. Essa é a crise de “confiança” de que tanto se fala. Em outras palavras, trata-se de uma espécie de greve de investimentos dos detentores dos meios de produção.

A crítica ao Bolsa Família que os detentores do poder econômico não tem coragem de atacar frontalmente, mas também não deixa de repetir “que é preciso ensinar a pescar e não dar o peixe”. A maioria dos que dizem isso nasceram em iates abarrotados de bons peixes ou acreditam ingenuamente na disseminação dessa ideologia que interessa ao dono da vara, já que o peixe em algum momento ainda é da natureza.

Os empresários não gostam das mudanças sociais e políticas que o baixo nível de desemprego proporciona. O pleno emprego, ou baixas taxas de desemprego, indisciplinam os trabalhadores, fomentam greves, aumentam os salários e a “autoconfiança e consciência de classe dos trabalhadores”. Mais importante que o lucro é a própria sobrevivência de classe: “seu instinto de classe lhes diz que um pleno emprego duradouro é inaceitável a partir do seu ponto de vista e que o desemprego é uma parte integrante do sistema capitalista “normal”.

Alguns eventos recentes no Brasil parecem confirmar a situação descrita um deles é o crescimento vertiginoso do número de greves. Há dez anos, em 2006, o número de greves registrado no Brasil foi de 316; em 2012 havia subido para 873 e, em 2013 atingiu o nível espetacular de 2.050 greves.

Desde então, as estimativas para 2014, 2015 e 2016 é que permanecessem nesse mesmo patamar de aproximadamente duas mil greves por ano. Os dados preliminares para 2016 já deram conta de 800 greves nos primeiros quatro meses. Todos esses dados e estimativas são do SAG (Sistema de Acompanhamento de Greves), elaborado e acompanhando pelo DIEESE.

A queda da renda média ainda é considerada pouco significativa para a classe dominante, portanto mais desemprego deverá ser criado a fim de derrubar ainda mais o rendimento médio de toda a massa salarial dos trabalhadores do país. E não há nada melhor que uma recessão para gerar esses bons frutos para toda a classe capitalista.

Temer ironicamente fez o compromisso de não tentar reeleição para os que detém o poder real colocar alguém de sua absoluta confiança. Mas nem precisaria ter feito esse compromisso pois, com a tarefa que recebeu dos que apoiaram o golpe e somado a seu mórbido carisma, dificilmente teria pernas para uma corrida presidencial em um país com o povo cada vez mais empobrecido.

A crise se deve principalmente a situação interna em que o descontentamento do grande capital com os mínimos avanços que os trabalhadores vinham obtendo, somou-se à desconfiança do governos petistas em aplicar as reformas para conter esses avanços. A nosso ver, ainda não é possível ver o fundo do poço da situação recessiva criada propositadamente, o que podemos ver é muita luta pela frente.

*Rafael Jasovich é jornalista, advogado, secretário e fundador da Associação Gremial de Advogados da Capital Federal, membro da Anistia Internacional

 

 

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