Desempregados narram dramas que vivem para sustentar seus familiares

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Walter Antônio “Poeira” Atanásio está há três anos desempregado. Ele revelou na Audiência Pública sobre desemprego na cidade, realizada nessa quarta-feira (2), na Câmara Municipal, o drama que tem vivido sem ter nem mesmo como alimentar, com recursos próprios, as suas três filhas. “Se não fosse a minha mulher, que está trabalhando, estaríamos todos passando fome”, disse ele

Walter “Poeira” diz que está desde o início do ano sem ganhar dinheiro com o seu trabalho (Fotos: Carlos Cruz)

Mecânico montador, ele aprendeu a profissão de serralheiro e montou uma pequena oficina no quintal de sua casa, onde faz “bico” para usufruir de uma pequena renda. Mas o negócio não prosperou como ele esperava. “Estou desde janeiro sem ganhar dinheiro. O meu carro está parado na garagem, pois há três anos não pago imposto.”

Como ele não tem o ensino do segundo grau, a dificuldade para conseguir emprego tem sido ainda maior. “Tenho muita experiência, mas isso não tem tido validade”, lamentou.

“Fiz exame para uma vaga de mecânico de guindaste, outra pessoa de fora foi ‘fichada’ em meu lugar. Estou com 59 anos e não tenho tempo para aposentar. Como vou fazer para viver e sustentar as minhas filhas”, disse ele, fazendo coro ao protesto dos demais desempregados presentes na audiência pública, todos revoltados com as contratações de trabalhadores de outras cidades para trabalhar em Itabira.

“Nasci debaixo da serra da Conceição, meu pai trabalhou na Vale. Por que um profissional como eu está há três anos sem trabalhar em uma cidade onde tem mais de 500 pessoas de fora trabalhando”, questionou. “Não é justo.”

De joelhos

Drama semelhante vive Geraldo Mendes Magalhães, operador de equipamentos pesados – e que há dois anos está desempregado. Pai de quatro filhos e três netos, ele revelou que nos últimos 60 dias participou de quatro processos seletivos para ver se conseguia um emprego.

Rodrigo Chaves dá a mão a Geraldo Magalhães para que se levante após ficar de joelhos rogando por um emprego

“Em todos os casos, preferiram contratar gente de outras cidades”, lamentou. “Fui a Mariana para ver se lá eu conseguia alguma coisa. Fui barrado por não ter título de eleitor e certidão de nascimento de lá.”

Diante da dramática situação em que vive, ele confessou que está sobrevivendo às custas de sua mulher, que é diarista e ganha R$ 80 pelo serviço.

“E não é todo dia que tem trabalho para ela. Eu me humilho aqui e imploro por um emprego”, disse ele, ajoelhando-se diante do gerente da Vale, Rodrigo Chaves.

“Fico sem palavras. Quem dera eu pudesse pegar a sua carteira (de trabalho) e assinar. Eu acredito que a situação no país está melhorando e você vai conseguir um emprego”, respondeu Rodrigo Chaves, dando-lhe a mão para que se levantasse.

Grito de socorro

A Audiência Pública foi coordenada pelo vereador Weverton “Nenzinho” Júlio de Freitas Limões (PMN), que a classificou como um “grito de socorro que está engasgado no peito de vários itabiranos.”

Weverton “Nenzinho” propôs a realização da audiência pública

Segundo ele, não existe bola de cristal para resolver a questão do desemprego na cidade, mas que algo precisa ser feito de imediato para resolver o drama que vive quem está desempregado.

“O que leva nossos jovens às drogas? Será que a crise financeira e o desemprego têm cooperado para o crescimento da criminalidade em Itabira”, indagou o vereador.

Ele também cobrou mais ações da Prefeitura para enfrentar o problema. “Por que São Gonçalo tem atraído tantos empresários, levando para lá empresas que estavam instaladas em Itabira”, questionou, referindo-se à Sotreq,

Empresa de manutenção de equipamentos pesados, a Sotreq até recentemente funcionava em uma área anexa ao estádio Israel Pinheiro. Hoje está instalada no Distrito Industrial da vizinha cidade. “Itabira precisa diversificar a sua economia. Com certeza, seria mais feliz se não dependesse apenas do minério.”

Paulo Soares disse que Vale e Prefeitura têm obrigação de gerar mais empregos

Reserva de mercado

O vereador e presidente do Sindicato Metabase, Paulo Soares (PRTB) foi também duro nas críticas, principalmente em relação à empresa Vale. De acordo com ele, a mineradora poderia exigir uma política mais eficaz de contratação de trabalhadores itabiranos por parte de suas empreiteiras.

“É de responsabilidade da Prefeitura e da Vale gerar empregos. A Vale tem um PIB (Produto Interno Bruto) de cerca de R$ 4,5 bilhões por ano gerado em Itabira. Como é que uma cidade com 120 mil habitantes, que movimenta todo esse dinheiro, está desse jeito, com tantos desempregados?”, indagou, com justificada cólera.

“Você vai em qualquer cidade da Europa, a história é outra. Aqui temos uma empresa rica e uma cidade com uma população tão pobre. Isso é inacreditável”, protestou.

Vale assegura que a maioria de seus empregados e contratados localmente é de Itabira

Segundo dados apresentados pelo gerente Rodrigo Chaves, do quadro permanente da Vale, 76% são nascidos em Itabira e outros 14% são de cidades vizinhas. Isso enquanto 93% residem na cidade, ainda que trabalhem para a empresa em outras localidades, como foi o seu caso até recentemente. “Temos, ainda, 822 itabiranos trabalhando na Vale em todo o país.”

Rodrigo Chaves se comprometeu ajustar os “filtros” para que não ocorram fraudes nas declarações de endereço

Quanto às empresas contratadas, ele também assegurou que a maioria de seus quadros de empregados é formada por itabiranos. “Nas empresas com contratos fixos, 96% dos empregados são residentes em Itabira. Já nos contratos temporários, 76% têm endereços na cidade”, assegurou. “Eu vi um relatório de uma empresa nacional dizendo que 34% de contratação de mão de obra local era fantástico. “

Chaves, porém, reconheceu que nos números apresentados por empresas contratadas podem ocorrer distorções. Foi o caso de uma empreiteira que apresentou dados dizendo que 100% de seus empregados eram de Itabira. “Essa empresa recebeu um cadastro com endereço em Itabira, mas quando fomos apurar, descobrimos três repúblicas montadas para burlar o sistema”, admitiu

Compromissos

“Um compromisso que faço aqui é de aprimorar esses filtros com o Sine (Sistema Nacional de Emprego), para tornar mais eficaz a contratação de itabiranos. Vamos cercar essa mania do brasileiro de dar um jeitinho”, disse ele, referindo-se a uma denúncia, feita anteriormente, de que muitos itabiranos têm vendido contas de água e luz para trabalhadores de outras cidades apresentarem endereços na cidade.

Uma das propostas apresentadas foi para que sejam exigidos também o título de eleitor e a certidão de nascimento. Foi sugerido ainda que a Vale inclua no contrato com as empreiteiras a exigência para que empreguem, prioritariamente, a mão de obra itabirana quando há disponibilidade no mercado local. “Vou consultar o jurídico da empresa para ver se isso é possível sem ferir a legislação”, comprometeu-se também.

Sobre essa sugestão, foi pedido para que se faça valer de imediato, inclusive para a empresa que vencer a licitação para o próximo alteamento da barragem do Itabiruçu, que é a próxima grande obra da Vale em Itabira.

De acordo com Rodrigo Chaves, a prioridade na contratação de mão de obra local já tem sido, há algum tempo, uma sugestão – e cobrança – da Vale às suas contratadas.

Segundo ele, no pico das obras de implantação do projeto Itabiritos, cerca de 6 mil trabalhadores itabiranos foram contratados. “Hoje, a Vale está do mesmo tamanho que há dez anos em termos de empregos diretos”, disse ele. A mineradora emprega em Itabira mais de 4 mil empregados diretos, fora os que são contratados para serviços terceirizados.

 

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