Denunciante da Guerra do Vietnã diz que EUA agem por vingança contra Assange

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Erick Gimenes

Brasil de Fato | Brasília (DF) |

Daniel Ellsberg afirmou que não havia outra maneira de a população saber dos crimes que não fossem os vazamentos

Daniel Ellsberg, um dos mais importantes denunciantes dos crimes cometidos pelos EUA durante a Guerra do Vietnã, defendeu nesta quarta-feira (16) o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, no julgamento que decide se o jornalista australiano será ou não extraditado para os Estados Unidos.  É o sétimo dia de audiências, em um tribunal do Reino Unido.

Testemunha de defesa de Assange, o ex-funcionário do Pentágono de 89 anos – que ficou famoso em 1971 por revelar milhares de páginas de documentos secretos contendo crimes militares americanos no conflito asiático – afirmou, em um depoimento por escrito, que a tentativa de condenar o ativista é parte de um esforço dos Estados Unidos para “esmagar” futuros denunciantes.

::Leia mais: Advogado de Assange expõe parcialidade do Departamento de Justiça estadunidense::

Ele comparou a situação do fundador do WikiLeaks com a dele – Ellsberg garante ter sido perseguido pelo governo Richard Nixon e pela agência de inteligência americana, a CIA, após expor documentos que demonstravam ilegalidades.

“Observo as semelhanças mais próximas com a posição que enfrentei, onde a exposição de ilegalidade e atos criminosos institucionalmente e por indivíduos era destinada a ser esmagada pela administração que executa essas ilegalidades”, disse Ellsberg, por escrito.

Para a testemunha, a prisão perpétua é exatamente o tipo de dissuasão que os EUA desejam estabelecer. “Tenho observado de perto as ações do governo dos EUA, seus militares e sua agência de inteligência, a CIA”, disse ele. “Também observei que aqueles que participaram da denúncia foram e continuam sendo ameaçados e criminalizados”, lamentou.

Ellsberg, que trabalhou no Departamento de Estado e no Pentágono, afirmou que Assange não terá condições de fornecer uma justificativa para suas ações se for extraditado para os EUA, da mesma forma que a ele foi negada a defesa do interesse público por seu vazamento dos documentos do Pentágono. Ele disse que Assange “não pode obter um julgamento justo pelo que fez sob essas acusações nos Estados Unidos”.

:: “Se Julian Assange é culpado, eu também sou”, afirma Roger Waters ::

“O público americano precisava saber com urgência o que estava sendo feito rotineiramente em seu nome, e não havia outra maneira de eles saberem do que por divulgação não autorizada”, disse ele em seu depoimento por escrito.

Pressionado por James Lewis, promotor que defende os Estados Unidos, sobre as consequências dos vazamentos do WikiLeaks, Ellsberg disse que não há “nenhuma evidência” de que as ações de Assange e do WikiLeaks levaram alguém a ser prejudicado. Ele também disse que Assange tomou muito cuidado para não expor intencionalmente ninguém ao perigo.

Ellsberg disse que é “extremamente cínico” para o governo dos EUA fingir preocupação quando passou grande parte dos últimos 19 anos mostrando “desprezo”.

Como Assange, Ellsberg enfrentou por décadas a perspectiva de prisão, depois de vazar mais de 7 mil páginas de documentos confidenciais para a imprensa, incluindo The New York Times e The Washington Post. Ele foi levado a julgamento por 12 acusações em conexão com violações da Lei de Espionagem, puníveis com até 115 anos, mas foi inocentado, em 1973, por má conduta do governo contra ele.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

No destaque, Assange está sendo julgado em tribunal do Reino Unido – Daniel Leal-Oivas / AFP

“Eu acuso”

De Émile Zola a Julian Assange. Em defesa da verdade

Por Sílvia Arana*

Julian Assange, como o escritor Émile Zola, poderia dizer que é somente um instrumento para “ativar a explosão da verdade e da justiça”.

(N.R.: artigo publicado pela Revista Movimento, em 14 de agosto de 2018)

“Senti desespero, ódio à estupidez e à má-fé, e tive tanta sede de verdade e de justiça que compreendi até que ponto os mais generosos impulsos podem levar a um pacífico cidadão ao martírio. Porque, na verdade, o espetáculo foi inaudito, superou em brutalidade, em desfaçatez, em declarações indignas, os piores instintos, as maiores baixezas jamais confessadas pela besta humana”. – Émile Zola (fragmento de “O juízo”, artigo sobre o Caso Dreyfus, Le Figaro, 5/12/1897).

Julian Assange, editor do WikiLeaks e refugiado político na embaixada do Equador em Londres há seis anos, corre grave perigo de ser entregue às autoridades britânicas, segundo tem denunciado Glen Greenwald. (N.R: já foi extraditado e está sendo julgado na Inglaterra).

O jornalista e co-fundador do site The Intercept diz contar com informação confidencial de fontes próximas ao presidente equatoriano. Entre outros numerosos e importantes trabalhos jornalísticos, Greenwald colaborou estreitamente com o denunciante de consciência Edward Snowden – e o Wikileaks – na difusão de documentos secretos sobre a espionagem ilegal massiva nos EUA.

Levando em conta seu provado compromisso com um jornalismo a serviço do interesse público, é muito preocupante sua denúncia de que, durante sua próxima estadia em Londres, o presidente do Equador entregará Assange.

Julian Assange foi o editor e jornalista mais influente dos últimos doze anos. WikiLeaks, a organização que fundou e dirige, publicou mais informação secreta que todos os demais meios da imprensa combinados. As revelações informaram ao público sobre as cláusulas de tratados comerciais, vigilância ilegal massiva, ataques contra civis, torturas e assassinatos cometidos pelos governos dos EUA e outros países.

Entre os dez milhões de documentos revelados por Wikileaks, destacam-se os “Registros das guerras do Iraque e Afeganistão” – duas séries confirmadas por centenas de milhares de informes militares dos EUA detalhando a morte indiscriminada de civis durante a invasão e ocupação de tais países.

Estes documentos foram proporcionados pela denunciante de consciente Chelsea Manning (encarcerada e torturada por isso). O mais impactante de tais documentos é possivelmente o vídeo “Assassinato colateral”, que mostra o ataque aéreo, desde dois helicópteros Apache estadunidenses, no qual morrem 12 civis iraquianos, incluindo dois empregados da agência informativa Reuters, em Bagdá em 12 de Julho de 2007.

A nível interno, WikiLeaks difundiu as provas aportadas por Snowden da espionagem ilegal e massiva de cidadãos estadunidenses realizada pela Agência de Segurança Nacional, assim como o funcionamento fraudulento do Partido Democrata, cujo Comitê Nacional prejudicou Bernie Sanders em benefício de Hillary Clinton nas primárias (eleições para eleger o candidato presidencial), entre outros temas.

WikiLeaks reportou as notícias que foram deliberadamente suprimidas pelos meios de comunicação dos EUA e de outras partes do mundo. E o establishment não perdoa seus detratores. A vendetta de Republicanos e Democratas contra Assange é uma rede cujo foco está nos EUA, e daí se bifurca o restante do mundo.

Recordemos que faz tão somente poucas semanas, nas vésperas da viagem do vice-presidente Pence ao Equador, dez senadores do Partido Democrata, liderados por Robert Menéndez do Comitê de Relações Exteriores do Senado, solicitaram isso publicamente que pressione Moreno para que o Equador retire o asilo a Julian Assange.

Julian Assange perdeu uma férrea defensora quando, em junho passado, deixou a Chancelaria equatoriana María Fernanda Espinosa – para ocupar o cargo de presidenta da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Espinosa tinha uma postura clara em defesa dos direitos humanos e do direito internacional.

Outro fator negativo é que, nesta conjuntura de negociação de um tratado comercial com os EUA, o governo equatoriano poderia ser mais vulnerável frente às pressões.

Se o Equador entregar Assange – parodiando o vergonhoso programa de “rendição” estadunidense mediante o qual se entrega a perseguidos políticos a regimes abusivos – possivelmente a maior resistência provenha de organizações de direitos humanos, de jovens e de livre acesso a internet, ao igual que de alguns setores do qual se chamava Alianza País antes da fratura.

As forças políticas opositoras de direita e a imprensa privada, liderada pelo jornal El Comercio, estão alinhados com a demanda estadunidense de “entregar Assange”, compartilhada a nível internacional pelos grandes meios e agências de imprensa – os mesmos que denunciam indignados “atentado contra a liberdade de imprensa” quando Trump nos chama de “criadores de fake news, jornalismo sensacionalista e caçadores de bruxas”, calam – e até celebram – quando um jornalista anti-establishment é perseguido.

Entretanto, a menos por ora, não poderão celebrar: em contradição com o qual denunciou Greenwald, o governo equatoriano nega que em seus planos figure a entrega de Assange. Num comunicado oficial emitido hoje 22 de julho, a Chancelaria afirma que:

“Nem o Chefe de Estado equatoriano nem sua comitiva abordarão em sua viagem ao Reino Unido e Espanha o relativo ao asilo do senhor Assange”. Acrescenta: “os propósitos da viagem concernem unicamente à participação do presidente Lenín Moreno na Cúpula Mundial de Descapacidades de Londres, o avanço da ampla agenda bilateral com a Espanha, e a promoção econômica e comercial do Equador em Madri e Edimburgo”.

Conclui dizendo: “O Estado equatoriano somente conversará e propiciará entendimentos sobre o asilo do senhor Assange, no marco do direito internacional, com os advogados do interessado e com o Governo britânico. De momento, pela complexidade do tema, não se tem à vista uma solução a curto ou longo prazo”.

Resta esperar que o governo equatoriano cumpra com sua palavra e com as leis internacionais de proteção ao refugiado político. (Como se viu posteriormente, o Equador não seguiu esse roteiro e entregou Assange à Inglaterra, aliado histórico das atrocidades dos Estados Unidos, n.r).

Pois entregar um refugiado político ao aliado mais próximo de seu inimigo – como o é o Reino Unido dos Estados Unidos – seria uma ação equiparável às “maiores baixezas jamais confessadas pela besta humana”, como denunciou Émile Zola sobre o Caso Dreyfus (França,1894-1906).

Por expor as redes de mentiras e conspirações do Exército francês e do governo desse país, Zola foi condenado à cárcere e ameaçado de morte. Para se pôr a salvo, fugiu para a Inglaterra.

Julian Assange, como o escritor Émile Zola, poderia dizer que é somente um instrumento para “ativar a explosão da verdade e da justiça. Movido por um só sentimento, o desejo que a luz se faça, e imploro isso em nome da humanidade…” (Émile Zola, J’accuse, 13 de janeiro de 1898, Paris).

Fonte: http://rebelion.org/noticia.php?id=245188

Compartilhe.

Sobre o Autor

Deixe um comentário