De como José Caetano Belisário virou Tobias depois de enfrentar onça e assombração

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(Primeira parte da reportagem. Leia a segunda e última parte aqui)

Por Carlos Cruz

(Primeira parte da reportagem. Leia mais no próximo sábado, 27/01/2018)

Que José Caetano Belisário, o Tobias, 86 anos, garrucheiro nascido nos Gomes, povoado de Santa Maria de Itabira, foi um dos primeiros a popularizar o samba e a criar o carnaval de rua em Itabira, não é novidade. Foi no fim dos anos 50 do século passado que ele trouxe de Nova Lima o seu famoso banjo, comprado quando trabalhava na mina de Morro Velho.

Tobias, em 1981 (Foto: Humberto Martins)

Com o velho banjo, que ele conserva ainda hoje, comandou a sua famosa charanga em Itabira, com a meninada do Capim Cheiroso, “todos pés no chão”. “Era tudo batido nas latas de querosene, de todos os tamanhos. Os únicos instrumentos de verdade eram o banjo e o apito que eu usava para fazer a marcação.”

Com a charanga do Tobias foi inaugurado o carnaval de rua na cidade – e ele só parou de batucar pelas ruas da cidade depois do suicídio de Daniel Grisolia, em 1970. Anos mais tarde, já na década de 1980, a charanga virou a escola de samba Gente Humilde de Itabira. “Durou pouco”, conta. “Não teve apoio”, lamenta.

Agora o que pouca gente sabe é que desde menino até os dias de hoje, Tobias se borra de medo de onça, cobra surucucu e de assombração. “É trauma de infância mesmo”, admite.

Ele conta que tinha mais ou menos 6 anos quando foi trabalhar em São Sebastião do Rio Preto, lá na fazenda do Zé Augusto, homem muito bravo, casado com a Nenê, filha de Maria Barbara, fazendeira do Baú, de Santa Maria.

“Zé Augusto cortava a gente no couro”, relembra ainda sentindo no lombo as dores da crueldade contra descendentes de escravos, no início do século passado. ”Ele me mandou buscar as vacas no pasto já tardinha. Como eu tinha muito medo dele, obedeci”, conta, lembrando que no local havia um angicão (árvore da Mata Atlântica), que “cinco homens lado a lado não conseguiam abraçar”.

Pois foi nesse angicão, voltando do pasto que o tempo virou breu e as vacas desembestaram morro abaixo. “Fiquei pra trás. Pensei: ‘tá na hora da onça beber água’. Foi quando apareceu a força divina e me salvou”, conta, lembrando que por sorte a onça não o encontrou na escuridão. “Na verdade até hoje eu não sei se foi onça ou assombração. Só sei que passei a noite toda lá morrendo de medo da onça voltar. E com medo também de voltar pra casa, para não apanhar de Zé Augusto.”

Tobias com a prole, após conceder entrevista ao Cometa, em fevereiro de 1981. À sua direita, a sua mulher Júlia Vieira. E à sua esquerda, sá Amélia, sua mãe. (Foto: Humberto Martins)

Nessa mesma noite o Zezé, como o Tobias era chamado na infância, decidiu fugir do patrão cruel, da onça, do “trem feio” que volta e meia o assombrava, da cobra surucucu que ele encontrou dormindo ao seu lado assim que o dia amanheceu, na moita de um bambuzal na barra do rio Preto com o rio Santo Antônio, onde ficava a fazenda de Zé Augusto.

Saiu fugido, na calada da noite, na garupa da égua do Zé Adão. A outra rota de fuga seria na canoa de José Longino, que levava gente e mercadorias pelo rio Preto, Santo Antonio, São Sebastião, Brejaúba. Preferiu a via terrestre, no breu da noite.

Em seu périplo pelo Mato Dentro, passou por Brejaúba até parar na fazenda Florença, perto da usina de Dona Rita, em Santa Maria. Só depois de muito sofrer, num tempo em que havia muito resquício de escravidão, ele enfim foi reencontrado pela sua mãe Amélia Pedro Belisário, a sá Amélia, filha de dona Agostinha, escrava alforriada que viveu mais de 100 anos.

Chegada com a tropa àItabira

Resgatado pela mãe, o menino Zezé voltou para o Baú, pra fazenda de Maria Barbara. Foi com a passagem da tropa de João Nico que comprava feijão em Joanésia, Sete Cachoeiras e em Ferros para vender em Itabira, que ele finalmente tomou coragem e veio conhecer a cidade que crescia com a Vale do Rio Doce.

Tobias conta, ainda assustado, como tinha medo – e ainda tem – de onça e de assombração

Aqui chegando, enquanto o feijão era vendido e o tropeiro cozinheiro-chefe preparava o jantar no rancho do José Aristeu, na rua de Baixo, o menino Zezé de Amélia decidi conhecer sozinho a cidade.

“Fui bater na rua grande (Tiradentes) e fui andando, andando. Quando voltei, a tropa já tinha retornado para a fazenda dos Meireles, onde morava o João Nico”, relembra.

Sozinho em Itabira, José Belisário dormiu em casas velhas abandonadas e também no meio do mato, novamente se assustando com a presença de assombrações em noites mal dormidas. Algum tempo após, vindo atrás do filho fujão, a sua mãe também mudou para Itabira com os quatro irmãos.

Depois veio atrás o seu pai, José da Silva, sanfoneiro dos bons lá da roça e que fez muito sucesso em Itabira, animando festas juninas no Atlético e também no Forró do Feijão Queimado, no antigo bairro Explosivo.

Foi nessa época, ainda rapazinho que José Belisário ganhou o apelido de Tobias, em referência a um outro Tobias que morava no bairro Abóboras, famoso por ser um cara briguento.

Capoeirista, Zezé de Amélia também gostava de confusão. E toda vez que se envolvia em uma briga, os amigos diziam que ele estava parecendo com o Tobias das Abóboras. “Foi quando a Vale chegou à Itabira que o apelido pegou”, conta como mais uma galhofa.

Começo musical

Antes de entrar para a campanha política de Daniel Grisolia (leia mais na segunda parte desta reportagem), Tobias já compunha os seus sambinhas. Ele aprendeu a tocar cavaquinho e banjo quando morou em Nova Lima, tendo como maior inspiração musical o príncipe do samba Roberto Silva (1920/2012). Ouça aqui: https://www.ouvirmusica.com.br/roberto-silva/.

Fim da primeira parte

Na segunda parte desta reportagem com Topbias, leias:

– A linguagem de macaco e o trabalho na mina Cauê, passando por Nova Lima

– A charanga do Tobias e a repressão do coronel Fonseca. Nasce a escola de Samba Gente Humilde de Itabira

– Ivan Eliziário, da rua Santana, joga ovo podre nos estudantes e vira samba

– Zé Lopão também deu samba, depois que quiseram tirar o padre de Itabira

– Daniel ganha eleição de balaiada após o estrondoso sucesso do samba/jingle Eleitor de Cuia, do sambista

– Morre Daniel, Tobias cai no ostracismo. Mas ele segue em frente sem nunca entrar em um hospital

 

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Sobre o Autor

10 Comentários

  1. Muito bom as histórias dos personagens de Itabira e região. A cidade precisa da história para ter vida! Parabéns ao Villa de Utopia por belíssimas entrevistas!

  2. cristina silveira on

    Saúdo e louvo o Blog Vila da Utopia!
    O inverno austral ainda não chegou aqui, apenas o vento frio sopra arrepios na pele. De volta para rua Benjamin Constant, no meio do caminho tinha uma roda de samba de moradores de rua, todos encachaçados alegremente para aguentar o desabrigo das ruas. Mais alguns passos, em frente ao prédio onde viveu o resplendoroso Pedro Nava vejo o compositor Hamilton, do Harmonia Enlouquece, breve papo de birutério e afeto.
    Em casa, um café forte-resinoso-quente-cheiroso, um cigarro e abrir o blog Vila de Utopia do jornalista Carlos, o moreno das Itabira. E dou de cara com o cumprade Tobias. Sim cumpadre, fui vizinha do Tobias, morei no Cascalho e a ele e a dona Amélia recorria nas necessidades; naquela casa de velhas, maduros jovens e crianças – verdadeira Casa do Samba, de gente humana, cordial e ancestral. Devia ser tombada pela prefeitura.
    E o Osnir, o pandeiro, cadê?
    Considero essencial que o blog tenha um cafofo para a memória. Faz pouco reli a entrevista do dr. Mauro Alvarenga concedida ao Cometa Itabirano e considerei uma das melhores entrevistas do jornal hibernado. Entrevista preparada com apuro transparece harmoniosa; o dr. Mauro à vontade em sua narrativa de velho com farol atrás diante de jovens que ele conhecia as vísceras.
    Na data da entrevista do dr. Mauro, a FOME – distrofia alimentar –, a miséria, a ausência do SAAE, da Cemig, da Cisne em bairros emergentes como Água Fresca, Vila Betânia, João XXIII, Santa Rute, Pedreira do Instituto, Rio de Peixe, era real.
    Na data da entrevista, os homens de ferro cavavam do cauê, o Ferro, o Ouro, triunfos só para a dona de fato da cidade. Na prefeitura o médico Jairo M. Alves, do PMDB, por força da lei teve de optar em receber o salário da prefeitura ou da Companhia, escolheu o salário maior. A Câmara era rasteira e não deixou de ser até hoje.
    E ali naquela entrevista o dr. Mauro mandando a letra com a simplicidade de quem examina como um burro e raciocina como sábio. Letra simples, coisinha pouca$ para as políticas públicas de saúde: Alimentação e Medicina Sanitarista.
    São memórias da cidade, contadas e registradas.
    Axé Tobias!, por não nos fazer esquecer.
    Axé Vila da Utopia!, por registrar os fatos e a versão dos fatos.

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