De como Itabira deixou de ser sede da Vale, conforme reivindicou uma comitiva itabirana em visita ao Catete, no Rio, em 1955

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A reportagem histórica, transcrita abaixo do Correio da Manhã, edição de quarta-feira, 13 de julho de 1955, foi garimpada no Arquivo Nacional, no Rio, pela arquivista, memorialista e jornalista Cristina Silveira, que tem, sucessivamente, brindado o leitor deste site com achados históricos.

Nessa reportagem é relatada a visita de uma comitiva itabirana ao palácio do Catete para reivindicar o cumprimento do que consta do estatuto de criação da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), determinando a transferência de sua sede do Rio para Itabira. Fica evidente, pelo resultado não alcançado, o quanto a Cidadezinha Qualquer, como sempre, tem sido a grande perdedora da história.

A transferência, mesmo tendo sido também prometida por Café Filho, nunca se concretizou. Já a determinação do mesmo estatuto para que Estado e município isentassem a recém-criada mineradora de impostos, como forma de incentivo para que pudesse crescer e trazer divisas para o país, essa foi cumprida na íntegra.

Somente a partir de 1966, com a instituição do Imposto Único sobre Minerais (IUM), que vigorou até a sua extinção com a Constituição Federal de 1988, Itabira passa a receber um tributo pelo minério de ferro extraído de seu subsolo, mesmo assim ficando com o menor quinhão definido para o rateio do imposto.

Na visita da equipe do jornal O Cometa a Carlos Drummond de Andrade, em 14 de fevereiro de 1981, o poeta fez menção dessa ida da comitiva itabirana ao Catete.

Em carta ao jornal itabirano, publicada na edição seguinte à cobertura dessa visita, Drummond corrigiu a informação de que teria “lutado pela implantação em nossa terra, da usina siderúrgica instalada em Volta Redonda”. E acrescentou:

“O que fiz, isso em outra ocasião, foi esforçar-me, pelas colunas do ‘Correio da Manhã’, no sentido de obter que a Cia. Vale do Rio Doce cumprisse os seus estatutos, transferindo para Itabira a sua sede, arranchada docemente no Rio de Janeiro. Nessa campanha, por sinal, a artilharia pesada de argumentos, de que me vali, foi fornecida por um valoroso conterrâneo, o José Hindemburgo Gonçalves. Nada conseguimos. É tão comum Itabira perder suas causas e seus direitos!”, registrou o jornalista e poeta Carlos Drummond de Andrade.

A não transferência da sede da Vale para Itabira foi mais uma perda incomparável, pelo que poderia ter significado tendo aqui residindo a alta direção da então estatal, criando infraestrutura mais moderna, modificando a realidade socioeconômica e cultural da Cidadezinha Qualquer.  

Não se tem notícia de que o então presidente Café Filho (1954-55), vice de Vargas que assumiu o governo com o seu suicídio por 14 meses, tenha cumprido a promessa de visitar Itabira para, do alto do Cauê. conhecer a realidade local. Assim como não cumpriu a promessa de obrigar a então estatal CVRD transferir a sua sede do Rio para Itabira.

É bem possível que a reportagem do Correio da Manhã, com a cobertura da visita itabirana ao Catete, tenha sido redigida por Carlos Drummond de Andrade. O poeta acompanhou a comitiva e escrevia para o jornal carioca. (Carlos Cruz)

Itabiranos no Catete

O sr. Café Filho resolveu ir ver, do Cauê, porque não se mudou ainda a Cia. Vale do Rio Doce

Cópia da pagina com a reportagem do Correio da Manhã sobre a visita da comitiva itabirana, ao Catete, então sede do governo federal, no Rio (Fotos e imagem: acervo Cristina Silveira)

Na manhã de ontem, vinte e tantos itabiranos natos, um honorário, o sr. Milton Campos – e alguns outros amigos de Itabira conversaram no Catete com o sr. Café Filho sôbre a questão que operou a “união municipal” naquele recanto de Minas: a mudança da sede da Companhia Vale do Rio Doce.

A comissão constituída do vice-prefeito, vereadores de todos os partidos, membros de associação municipalista local e itabiranos residentes no Rio, foi convidar o presidente da República para visitar Itabira, que deseja agradecer-lhe a solução dada ao problema. Ao mesmo tempo, pediu-lhe que fizesse executar essa solução, retardada por estudos muito lentos e que, talvez praticamente a anulem, se não for tomada uma providência decisiva.

Foi orador o sr. José Hindemburgo Gonçalves, que com muita objetividade, citando algarismos exatos, expôs o estado atual da questão. Há um estatuto da Vale do Rio Doce estabelecendo que a sua sede é nesse mesmo vale; há um parecer do gabinete militar, no sentido de se dar cumprimento à medida; há o despacho do sr. Café Filho, aprovando o parecer – mas a sede não se muda, e o município se exaure à mingua de recursos, enquanto com o ferro dali extraído vai dar saldo à estrada de ferro que o transporta, progresso ao porto de mar que o exporta, e divisas ao Brasil. Sendo o maior produtor de dólares entre todos os municípios brasileiros, Itabira é, entretanto, dos mais abandonados.

TODOS MATUTOS

O sr. Hindemburgo Gonçalves continuou:

– Todos nós que aqui estamos, sr. Presidente, homens do interior que somos, simples matutos, excluindo V. Exc. do plural…

– Pode incluir, pode incluir, interrompeu sorrindo o presidente.

E o orador prosseguiu dizendo que tôdas as classes sociais de Itabira ansiavam pela efetivação rápida da mudança de sede do Rio para o interior, mas parece que é muito forte o apêgo de certas pessoas ao asfalto carioca.

O sr. Café Filho, em resposta, disse que já antes de ser convidado a visitar Itabira resolvera ir lá para ver de perto as condições da cidade e examinar as razões dadas pela Cia. para explicar a demora da mudança. Essas razões também não o tinham convencido muito, e êle queria ver as coisas ao vivo. Mandara o seu gabinete militar chamar ao Catete o presidente da Cia., e o general Bina Machado, ali presente, transmitiria as informações colhidas.

O chefe da Casa Militar esclareceu aos presentes que os estudos feitos pela Cia. desaconselhavam a mudança para Belo Horizonte (de resto, a própria câmara municipal da capital mineira se pronunciara em sentido favorável a Itabira, como assinalou o sr. Hindemburgo). Seria feita a transferência para Itabira, tornando-se necessário, entretanto, encontrar alojamento a proceder as obras de saneamento reclamadas pelo acréscimo de população na cidade.

BANCO VAMPIRO

O engenheiro Jayr Pinto, um dos “amigos de Itabira” presentes, de improviso, assinalou que o problema da Vale do Rio Doce é idêntico a tantos outros que colocam o interior do Brasil em posição de sacrifício diante da capital do país. Já tivera ocasião de mostrar como o Banco do Brasil, por exemplo, suga a economia dos Estados e territórios, sem dar-lhes nada em troca. Uma centralização monstruosa, do interesse de 13 mil pessoas que não querem deixar o Rio, impede a criação de bancos regionais de crédito, que atendam in loco às necessidades da produção e do comércio.

No caso da Vale do Rio Doce, havia a ponderar que se faltam algumas condições materiais a Itabira para acolher os serviços centrais, é porque em 13 anos de funcionamento a empresa jamais cogitou de criar essas condições. Não é justo que pela comodidade pessoal de alguns a mudança deixe de ser feita. Se não querem ir, deixem seus cargos para serem ocupados por quem se disponha à vida do interior.

No diálogo que então se travou, o sr. Café Filho mostrou estar ao par das dificuldades surgida e manifestou o seu propósito de removê-las. Despedindo-se da comissão, prometeu estar em Itabira logo depois do Congresso Eucarístico. Assim verá, do alto do Cauê, a realidade itabirana.

Entre os presentes à audiência, viam-se os deputados Daniel de Carvalho e Feliciano Pena, o embaixador Antônio Camilo de Oliveira, secretário geral do Ministério das Relações Exteriores, o engenheiro Amintas Jaques de Morais, fundador da companhia de que resultou a Vale do Rio Doce, e que hoje se dedica à extração e aproveitamento de metais não ferrosos, o engenheiro Jayr Pôrto, da Cia. Fiduciaria do Rio Doce e o jornalista Carlos Drummond de Andrade.

Explica-se a presença do sr. Milton Campos como itabirano honorário: uma sua irmã viveu por muitos anos em Itabira, ali nasceram seus sobrinhos e, no governo de Minas o atual presidente da U.D.N sempre foi muito atento aos interesses do município.

Deixou de comparecer o deputado Israel Pinheiro, ex-presidente da Vale do Rio Doce, que alegou, como motivo, estar afastado politicamente do sr. Café Filho. Entretanto, a reivindicação dos itabiranos é feita inteiramente à margem dos partidos, e reuniu todas as correntes itabiranas.

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1 comentário

  1. Cristina Silveira, A Velha Vermelha on

    Primeiramente, Lula Livre!!!

    Caro editor, rasgaste tantos penhores a mim que tô à vontade pra pedir aumento de jeton que tu me paga por artigo…

    Carlosmeuquerido, muito boa a apresentação de você para o artigo de Carlos Drummond de Andrade, sempre na defesa de Itabira, assim como você no Cometa e agora na Vila.

    “O que fiz, isso em outra ocasião, foi esforçar-me, pelas colunas do ‘Correio da Manhã”, estes artigos serão publicados aqui na Vila, acho que são 11 em que o itabirano dá visão do “problema do ferro” para Itabira. Também copiei artigos em que ele dá visão de outras cidades mineradoras; trabalhou muito, no IPHAM, para tombamento do Pico do Itabirito, e aqui tem um episódio típico do menino antigo: ele foi convidado para um pique-nique no Itabirito, junto de Rodrigo de Melo Franco, mas é claro que recusou. Não sei o que alegou, mas a um convite para representar o Brasil em Milão (IT) respondeu que nunca tinha ido a S.Paulo, como então poderia ir a Milão. Somente o itabirismo compreende o Carlito.

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