Da velha cidade

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Antônio Crispim*

Em frente ao cinema Pathé, eu espiava os cartazes de fitas para sempre silenciosas. Lá dentro, as últimas criaturas não sincronizadas de Belo Horizonte procuravam esquecer as conquistas da técnica e a voz horrorosa de Annita Page. Os artistas eram antigos, a fábrica antiga, antigos eu e o cinema, e um velho aparelho telefônico pendia – sem voz, como o filme da velha, velha parede.

Em uma velha cidade… Senti-me outra vez no Belo Horizonte de 1915, 1920, idades mitológicas, de que não há memória entre os homens e as mulheres de hoje. Os artistas chamavam-se Clara Kimball Young, Geraldine Farrar, William S. Hart. Às sextas-feiras havia sessão Fox no Odeon, e as três meninas da rua Goiás compareciam de branco, de vermelho, de amarelo e de namorado (hoje elas aparecem, mas sem cor, e docemente, como os espectros).

O mundo era pequeno e limitava-se ao norte pelo Café Estrela, na rua da Bahia, e a leste pela casa Oscar Marques, na avenida Afonso Pena. Podia-se correr o Parque Municipal sobre essa coisa ingênua e primitiva, uma bicicleta. Passeava-se pela cidade como se ia para o cemitério, depois de morto: de carro puxado a burros.

Belmiro Braga era um bom poeta. O coronel Drexler, um grande general. A praça da Liberdade era um assombro (o jardim plantado para o rei Alberto ver!) e todas as mulheres se vestiam no atelier da madame Penélope, trinta vezes fechado e trinta vezes reaberto.

As mocinhas do bairro dos Funcionários amavam apenas um rapaz por ano, mas amavam tragicamente, e uma revista, “A Vida de Minas”, publicava clichês de bebês, nuelos, chupando o dedo sobre a colcha de ramagens do fotógrafo Belém, bebês que hoje são os frequentadores do footing na avenida Paraúna e as jogadoras de golfinho.

Havia quem usasse bigodes, mas sem ser por tédio ou desespero de vida, como hoje: o bigode era respeitável, representava uma caderneta de banco, um lote no Calafate. E os sorvetes daquele tempo? E as longas líricas voltas do bonde Ceará, o bonde que não tinha ponto final, que era o bonde ideal, projetado no infinito e com lotação bastante para conter os amores, sofrimentos e recalques da cidade?

Nisto passaram por mim as três meninas desbotadas – último reflexo, último fragmento de um mundo que viveu! – e eu tirei-lhes o chapéu, respeitosa, respeitosa e comovidamente, como diante do Arquivo Público Mineiro.

*Antônio Crispim é pseudônimo de Carlos Drummond de Andrade. Crônica originalmente publicada na década de 1930 no suplemento “Minas Gerais”, do qual o poeta itabirano foi redator. E foi republicada na coletânea Crônicas (1930-1934), editada pela Secretaria de Estado da Cultura, em 1987.

 

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