Curral do Del Rey, a Guerra dos Emboabas e os cristãos-novos

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Mauro Andrade Moura

Bem ao centro do Quadrilátero Ferrífero temos algumas das principais cidades do início da colonização de Minas Gerais, nos primórdios dos anos 1700, com o advento da descoberta do ouro.

Chefe Bandeirante. Óleo sobre madeira de Henrique Bernardelli, (Acervo do Museu Mariano Procópio. No destaque , a Partida dos Bandeirantes. quadro de Clóvis Graciano (acervo: Câmara Municipal de São Paulo)

Fernão Dias Paes Leme saiu em busca do Sabarabuçu, terra decantada pelos índios como o lugar das grandes minas de pedras preciosas, nomeadamente as esmeraldas e do sonhado ouro pelos portugueses e colonizadores.

Saiu o grande bandeirante das esmeraldas acompanhado pelos filhos Garcia Roiz Paes e José Dias Paes, além do genro Manoel de Borba Gato, o irrequieto, e entre idas e vindas foram descortinando o território do sertão das minas.

Fato desconcertante da vida, Fernão Dias sacrificou o filho natural José Dias Paes por o mesmo capitanear um motim contra o poder paterno. O grande bandeirante nunca encontrou as sonhadas esmeraldas, ficando inebriado com o brilhoso verde das turmalinas, tendo falecido de febre amarela ou malária em Sumidouro e hoje temos a cidade de Esmeralda em sua memória. Se seguisse um pouco mais para o Centro-Leste, as teria encontrado em Itabira.

Maria Beting, a grande esposa do nosso bandeirante, desfez-se de suas joias para financiar as expedições do marido. Em sua homenagem, temos hoje a cidade de Betim.

Turmalina encontrada pelos bandeirantes achando que era esmeralda

Seu filho, auxiliar de sempre do pai, o Garcia Roiz Paes, nos proporcionou o Caminho Novo do Ouro. Ele mudou o trajeto de Paraty para a cidade do Rio de Janeiro, encurtando o Caminho Velho em vários quilômetros e reduzindo em muitos dias a viagem. O Caminho Novo do Ouro findava em sua data mineral na cidade de Conceição do Mato Dentro. Grande e oportuno feito para a criação de nosso estado de Minas Gerais.

Manoel de Borba Gato, após o falecimento do sogro, andou em voltas com um emissário do rei português, perdido em muitas voltas infrutíferas acompanhando o Rodrigo Castel Branco. Certo dia, findo o pouco de sua curta paciência, mandou o tal beber um pouco mais de água na base de uma cachoeira.

Devido ao fato e o risco de prisão, Manoel de Borba Gato evadiu-se para o sertão mineiro por vários anos, advindo daí o lugarejo que leva o seu nome na cidade de Ferros, o povoado de Borba Gato.

Retornando ao centro do Quadrilátero Ferrífero, Borba Gato encontra rica lavra de ouro de aluvião. Foi relembrando o conto indígena que denominou o lugar de Sabarabuçu, hoje simplesmente Sabará.

Emboabas

Escultura de Fernão Dias Paes Lemes (domínio público)

Após isso, veio o terror da Guerra dos Emboabas, quando Borba Gato e demais bandeirantes paulistas disputaram o direito de lavrar os rios e cursos d’água contra os emboabas, capitaneados por Manoel Nunes Viana.

Amador Bueno da Veiga vem de São Paulo em apoio aos companheiros bandeirantes, saindo-se vencedor de uma das mais terríveis batalhas. Deste triste e sangrento episódio, temos hoje em Tiradentes/São João Del Rey o rio das Mortes. Nome de triste lembrança com a dura batalha.

Da Guerra dos Emboabas tivemos a criação da província de Minas Gerais, fazendo a demarcação entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Próximo a Sabará e Santa Luzia, nesses tempos da colonização da região, é destinada uma sesmaria a Francisco Homem Del Rey. Sesmaria essa denominada Taquaraçu de Cima, que servia de paragem aos tropeiros, aqueles mesmos que seguiam a Norte ou Sul pelo Caminho Novo do Ouro.

Composta de seus currais e também da capela da Boa Viagem, a Sesmaria Taquaraçu de Cima provia os mineradores de alimentos exatamente por estar bem ao centro da área geográfica de maior população de Minas Gerais.

Nota-se que Francisco Homem Del Rey era filho de Amador Bueno da Veiga, aquele mesmo que apoiou o Tenente-general Manoel Borba Gato em suas batalhas na Guerra dos Emboabas. Considerando este fato, presume-se que Borba Gato deliberou em favor do filho do parceiro de guerra a Sesmaria Taquaraçu de Cima.

Amador Bueno da Veiga também disputou com Garcia Roiz Paes junto ao Rei a abertura do Caminho Novo do Ouro. Ficando cedido o empreendimento, como dito acima, ao Garcia Roiz Paes.

Curral Del Rey

Processo matrimonial de Francisco Homem Del Rey e Luzia Angélica Bitancourt.

No livro Os Cristãos-novos no Arraial de Curral Del Rey, autor Luís Góes, temos a seguinte passagem a respeito de Borba Gato e as sesmarias:

Borba Gato possuiu muitas sesmarias, as mais bem localizadas com as minas de ouro. Em volta de Sabará, seu grande feudo, Borba Gato também obteve muitas terras, inclusive onde foi criado um curral pelo seu preposto, FRANCISCO HOMEM DEL REY, que acabou se tornando Arraial do Curral del Rey.

No decorrer dos séculos, nome dito, mal dito e resumido, passamos a pronunciar o Curral do Del Rey como meramente Curral Del Rey.

Neste antigo e simples curral, temos hoje a grande cidade e capital de Minas Gerais, Belo Horizonte.

Fato preponderante a ser dito a respeito da Guerra dos Emboabas: Manoel de Borba Gato, Amador Bueno da Veiga e Garcia Roiz Paes, bandeirantes paulistas, eram netos de cristãos-novos, Já o oponente Manoel Nunes Viana e seu parceiro Bento do Amaral Coutinho, bem como seu seguidor Felipe dos Santos, portugueses, eram criptojudeus. Portanto, todos descendentes dos judeus sefaraditas portugueses e espanhóis.

 

 

 

 

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6 Comentários

  1. Bom dia Mauro,
    você está fazendo um trabalho pela memória de Minas, Itabira e região insuperável
    Espero que o poder público e as pessoas que tem acesso a informação reconheçam.
    Mesmos sem reconhecimento, continue por prazer, vale a pena!
    Um abraço.

    • Mauro Andrade Moura on

      Olá, Luiz.

      Conto sempre com seu apoio e complementos do seu arquivo para que possamos deixar melhor a informação da nossa história.
      Grato pela leitura,
      Mauro

  2. Mauro Andrade Moura on

    Bom dia, Luiz.

    Há uns dois anos disse ao diretor do Museu da Inquisição em BH que eles deveriam procurar os alunos da faculdade de história para os mesmos ampliarem as pesquisas e divulgarem os passos.
    Eu particularmente não tenho como fazer isto, mas aquela instituição tem meios de pleitear fundos públicos para este fim.

    Daí, pensei, vou compilando o que tenho e quem sabe sirva de tema para quem vem chegando?

    Vou reafirmar isto com o Marcelo Guimarães que é o diretor do Museu.

    Dia desses vou publicar um a respeito do inconfidente José Aciolly Bitancourt (pode perceber que descendo de uma irmã dele) que é das histórias mais interessantes, porém, creio eu, os jovens pesquisadores andam muito desmotivados e buscam somente as histórias mais recentes.

    Agradecido pela leitura de sempre,
    Mauro

  3. Pingback: Judeus e cristãos-novos na criação e colonização do Sul do Brasil

  4. Nelson de Castro Senra on

    Mauro, excelente texto, dá gosto ler suas narrativas. Você escreve muito bem. A História cresce em valor por sua pena, hoje seria mais correto dizer por seu teclado. Tudo fica mais vivo. A leitura fica agradável e cativante. Gostei muito. Obrigado por partilhar. Nelson

    • Mauro Andrade Moura on

      Olá, Nelson.

      Vou-me esforçando sempre em poder trazer à lume novos fatos, documentos ou complementos à nossa história.
      Grato pela leitura,
      Mauro

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