Cultura itabirana: recriação e originalidade sob a égide da economia criativa

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Cecília M. Viana Camilo de Oliveira*

Em Itabira, como nas demais regiões, a cultura está sempre em movimento e para ser frequentemente recriada é imprescindível que o grupo de atores sociais reflita sobre ela, relembre, debata e a propague para que seus significados e seus simbolismos sejam os transmissores de saberes e de habilidades para as novas gerações.

É inerente que os valores e as práticas culturais contribuem para o desenvolvimento de uma localidade, pois são eles que definem as suas particularidades e seus bens e serviços.  É a cultura que gera identidade, ou seja, ela nos diferencia e é ela que cria instrumentos para que a sociedade se conheça e ao mesmo tempo se reconheça no mundo.

As especificidades culturais, em cada município, convidam o administrador público e/ou privado a conhecer, a desenvolver habilidades e a estudar o contexto a ser trabalhado para efetivar ações capazes de relacionarem tradição e renovação, a singularidade e as distintas conversões das práticas culturais.

Propor mudanças é ter sensibilidade para abarcar novas dinâmicas na elaboração de projetos, ou seja, levar em consideração a sociedade heterogênea que foi e é desafiada permanentemente em seu percurso histórico.

Portanto, é importante que o gestor público perceba as diferenças. Para que as ações afirmativas sobre a diversidade cultural floresçam é preciso captar e valorizar os enigmas que o outro representa. Trabalhar com a permeabilidade do repertório cultural e suas múltiplas manifestações é lidar com o intangível.

No contexto da efetivação da Economia Criativa é significante propor a articulação entre os diferentes setores do poder público e privado, instituições acadêmicas, sociedade civil e por que não organismo, os internacionais.

O Plano Nacional de Cultura, criado em 2010 pela Lei 12.343/2010, apreende a economia criativa como um dos meios de executar o desenvolvimento socioeconômico sustentável. Os setores criativos, objeto das políticas de economia criativa, são definidos pelo Ministério da Cultura como sendo:

“Todos aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de valor simbólico, elemento central da formação do preço, e que resulta em produção de riqueza cultural e econômica”. (BRASIL, 2011, p.21).

Esta proposta do Ministério da Cultura congrega dentre outras atividades a literatura, o artesanato, o turismo, o design, a tecnologia de ponta, o patrimônio material e imaterial, setores que possuem como subsídios a criatividade, o talento e a habilidade individual.

Neste contexto da lei a criatividade abrange a reinvenção, a habilidade de procurar respostas para as demandas locais e apoiar projetos bem articulados no espaço sócio cultural a ser trabalhado.

Em Itabira podemos detectar e explorar o talento individual e coletivo em elementos que se destacam ou não como o patrimônio natural, material e imaterial, as obras de artistas, de cientistas e de literatos, as expressões populares e seus simbolismos, a culinária, os rituais profanos e os sagrados, o modo de ver e fazer dos outsiders que se inseriram na comunidade em decorrência da exploração mineral e que geraram novos desdobramentos na sua  identidade, bem como a cultura rural, anônima e coletiva.

O cotidiano vivenciado pelos diversos segmentos sociais, sejam eles majoritários e/ou marginalizados, no decorrer da história se fazem decisivos para revelar a memória e a originalidade do que é ser itabirano na pós modernidade. As práticas e valores tradicionais citados são as recriações do fazer humano em um mundo caracterizado por um fluxo de informações vertiginosas.

A obra de Carlos Drummond de Andrade, um dos singulares representantes da literatura modernista constitui um meio de divulgação da literatura brasileira e de fortalecimento da identidade itabirana. Sua obra simbólica é uma senha de reconhecimento do espírito de uma cidade, da coexistência da vida comum e da rigidez mineral das ruas.

Os traçados do Museu do Território Caminhos Drummondianos convidam o administrador público a revitalizar e a qualificar os entornos urbanos de Itabira e ao mesmo tempo propiciam aos turistas a possibilidade de criarem suas próprias trajetórias no espaço que remete ao imaginário.

Como afirma Certeau (1994), a vida daqueles que usufruem o espaço urbano ergue sentidos ao que foi omitido pelo projeto urbanístico. As pessoas agem e imprimem no espaço a marca da intenção humana. As experiências a serem vivenciadas pelos turistas podem lhes fornecer entretenimento e também lhes aludir a imagem de status, do consumo de raridades e do valor de troca.

Os olhares daquele que se desloca para o município em busca da essência da cidade são capazes de proporcionar, novos saberes, interações e benefícios para a comunidade receptora. O empenho do gestor público em formular políticas na área da ciência e da cultura compõem uma peça estratégica para a conquista da credibilidade junto a sociedade.

O aprimoramento dos planos museológicos, a efetivação de um Arquivo Público e as propostas de valorização e da preservação do patrimônio, respeitando os critérios técnicos, constituem terrenos a serem explorados pelos pesquisadores e leigos de distintas localidades que pleiteiam ampliar seus conhecimentos e/ou fundamentar suas pesquisas científicas. Estes rearranjos na esfera cultural dariam origem a novos produtos e a serviços diferenciados, a novas formas de consumo, a geração de emprego e outros.

Atualmente o município de Itabira se depara com a perspectiva de perder sua principal fonte geradora de renda com o desmantelamento da indústria extrativa mineral.  O itabirano deve defrontar-se consigo mesmo diante do “o que foi e se esgotou”.

A saída da Vale apresenta-se no momento como um “veneno” por consequentemente provocar o declínio econômico e social da cidade, mas de certo modo esse temor pode se transformar em um “remédio” por provocar o cidadão e levá-lo a se redescobrir na esfera produtiva e a se conscientizar da letargia que vigora na cidade diante da submissão econômica a uma única indústria.

Perante esse contexto é relevante assegurar novas alternativas econômicas e sociais para o município. Uma das possibilidades viáveis é implementar atividades que empreguem as suas próprias raízes culturais e garantam a inclusão social aos bens culturais.

Para atingir esta finalidade o poder público deve realizar um mapeamento e um cadastramento das múltiplas formas de manifestações culturais e das cadeias produtivas existentes para obter dados e indicadores a serem avaliados qualitativamente e quantitativamente, este último quando for pertinente.

É indispensável o diálogo intercultural, planejar, capacitar os gestores e agentes culturais para que as ideias não se tornem apenas projetos, alocar recursos financeiros, físicos e tecnológicos, e sobretudo criar e inovar para trabalhar o intangível. Estas ações na esfera cultural se conotariam como uma manifestação da educação enquanto arte e consciência.

 Referências:

VALIATI, Leandro; MOLLER, Gustavo. (Orgs). Economia criativa, cultura e políticas públicas. Porto Alegre: Ed.UFRGS/CEGOV, 2016.

BARROS, J. M.; OLIVEIRA JUNIOR, José (Org). Pensar e agir com a cultura: desafios da gestão cultural. Belo Horizonte: Observatório da Diversidade Cultural, 2011.

CERTEAU, Michel de. Caminhadas pela cidade. In: CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1994. p.169-191.

MINISTÉRIO DA CULTURA. Plano da Secretaria de Economia Criativa: políticas, diretrizes e ações 2011-2014. Brasília: Minc, 2011. Disponível em: http://www2.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/09/Plano-da-Secretaria-da-Economia-Criativa.pdf. Acesso em: 18 nov. 2020.

*Cecília M. Viana Camilo de Oliveira é historiadora e mestre em Ciências Sociais.

No destaque, congada no Morro Redondo, em Ipoema: manifestação religiosa, folclórica e cultural que resiste ao tempo (Fotos: Stael Azevedo)

 

 

 

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1 comentário

  1. Muito bem formatado o texto , muito lúcido e sem intenções alto afirmativas de quem o produziu . Não se deve ser e nem de atrever fingir ser um intelectual que se alto nomeia o antropológo cultural e com isso dita a todos o que é ser bom ou ruim . Com soberba e interesses disfarçados e as vezes um desperdício de palavras difíceis e poucos usuais para provocar o popular e tentar chamar a atencao dos tais pensadores e outros que se dizem mais . A cultura esta em tudo , e toda sua expressão deve ser respeitada e se não exaltada pelo menos respeitada . Cada qual é cada qual , cada gosto é cada gosto , . A diversificação cultural brasileira é muito extensa e rica , assim como somos uma miscigenação ( apesar de muitos se acharem puro sangue inglês ) a nossa cultura em suas mais variadas expressões também o é . Não é valorizar nada quando se monopoliza e discrimina o que não é do meu gosto , isso é coisa de pretensiosos não de quem vê o humano e sua de uma forma mais democrática e sem vícios.

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