Crise política nacional tem trégua de 48 horas

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Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato

BDM

O ministro Celso de Mello (STF) deu 48 horas para que a Procuradoria Geral da República (PGR), a Advocacia Geral da União (AGU) e a defesa de Sérgio Moro se manifestem sobre o levantamento do sigilo do vídeo que movimentou Brasília, nesta terça-feira. Sem novidades, o dia poderá ser menos nervoso hoje.

Outra informação importante é que os ministros militares deixaram Moro na mão. Em seus depoimentos não confirmaram a tentativa de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, repetindo a versão já antecipada por Bolsonaro, no final da tarde, de que estava preocupado com a segurança de seus familiares.

Vários trechos do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, citado pelo ex-ministro da Justiça como prova das acusações de que o presidente pressionava para interferir na Polícia Federal (PF), já vazaram em detalhes.

Na versão dos investigadores, da defesa de Sérgio Moro e do próprio ex-ministro, que assistiram à exibição do vídeo ontem, ele confirma integralmente as denúncias contra o presidente e é considerado “devastador”.

Na reunião, Bolsonaro associou as trocas na PF à necessidade de proteger os seus filhos, afirmando: “Não vou esperar f… alguém da minha família, troco todo mundo da segurança, troco o chefe, troco o ministro”.

Na rampa do Planalto, quando saiu para falar a jornalistas, o presidente estava com a linha de defesa pronta. Bolsonaro insistiu que não havia citado [na reunião]as palavras “polícia federal” e “superintendente”.

“Vocês vão se surpreender com o vídeo, essas versões que a mídia está dando são fake news”, disse ele, explicando que havia se referido à segurança pessoal de sua família, “que me preocupa desde a facada”.

A narrativa não fecha, porque a segurança pessoal do presidente e de sua família está a cargo não da Polícia Federal, onde houve as demissões, mas do GSI (general Heleno) e da Abin (Alexandre Ramagem).

Se a preocupação era “proteger familiares e amigos”, não tiraria Ramagem da Abin para nomeá-lo à PF.

Crível ou não, é a história que os ministros militares também contaram em seus depoimentos.

O general Augusto Heleno chegou a dizer que não se lembrava de ter alertado Bolsonaro de que relatórios de inteligência da PF não poderiam ser acessados, como Moro relatou em seu testemunho.

Considerou, ainda, “natural” que Bolsonaro quisesse “optar por uma pessoa próxima para comandar a PF”. Na mesma direção, os generais Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos negaram interferência do presidente na PF.

Não parece haver dúvidas de que essa é uma versão que tenta abafar a crise política. Resta saber se prosperará no plano judicial, onde o Planalto conta com a boa vontade do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Nomeado por Bolsonaro, Aras tem planos de ocupar uma vaga no STF, e, por isso, muita gente aposta que ele não deverá oferecer denúncia contra o presidente, mas optará pelo arquivamento das investigações.

Tudo depende, no entanto, da evolução do caso e do impacto político do vídeo, que ainda deverá ser liberado, total ou parcialmente, e é a prova viva que dará o contexto das declarações do presidente.

A nova aliança com o Centrão foi preventiva, para evitar um eventual processo de impeachment ou garantir os votos para barrar a autorização da Câmara de um pedido da PGR para processar Bolsonaro.

O apoio desses partidos, no entanto, tende a oscilar de acordo com a repercussão da opinião pública ou das proporções que a crise tomar. Por enquanto, Bolsonaro ainda mantém uma base eleitoral relevante.

Pesquisa CNT/MDA mostrou piora da avaliação do governo e aumento da desaprovação ao presidente, com avaliação negativa subindo de 31% para 43,4%, mas a positiva, mesmo caindo, ainda soma 32% (de 34,5%).

Nem Rodrigo Maia está disposto a se lançar à aventura de tirar Bolsonaro. O presidente da Câmara respondeu ontem ao STF sobre a ação que cobra análise dos pedidos, afirmando que “o impeachment é solução extrema”.

HOJE – Prestam depoimentos nesta quarta-feira a deputada Carla Zambelli, Alexandre

Saraiva e Carlos Henrique Oliveira. Na quinta-feira, o superintendente da PF de

Minas, Rodrigo Teixeira, fala sobre o inquérito da facada em Bolsonaro.

Mais de 800 mortes

Com 881 mortes confirmadas pela covid-19 em 24 horas, a pandemia no Brasil assume proporções equivalentes aos piores casos na Europa e nos EUA, com 12.400 mortes no total.

Em São Paulo, epicentro do coronavírus, o prefeito Bruno Covas não descarta adotar o lockdown, com a taxa de isolamento abaixo de 50% (49%), 2.405 mortes na cidade e o sistema de Saúde perto do colapso.

A prefeitura está contratando 100 leitos de UTI na rede privada, ao custo de R$ 2.100 a diária por paciente.

No Rio, o Hospital Estadual Anchieta, de referência da covid-19, disse que não pode receber novos doentes.

Enquanto isso, Bolsonaro ameaça agir contra governadores que não cumprirem seu decreto de abrir salões de beleza, barbearias e academias de ginástica, afirmando que poderá acionar a AGU e o Ministério da Justiça.

Nas redes sociais, o presidente disse que “contrariar o decreto é o pior caminho para aflorar o autoritarismo”.

Bolsonaro entrega laudo

A AGU se antecipou à decisão do ministro Ricardo Lewandowski, sorteado relator do recurso no STF, e entregou ontem à noite os laudos “negativos” do presidente para a covid-19.

Bolsonaro segura o veto 

No Estadão, o presidente segura a assinatura do veto ao reajuste de salários dos servidores para permitir o aumento para policiais civis e militares do DF, a pedido do governador Ibaneis Rocha.

Segundo fontes da área econômica, outros governadores também estão usando esse intervalo antes do veto para conceder benefícios ao funcionalismo. Bolsonaro tem até 27 de maio para sancionar a lei.

Agenda 

O Ministério da Economia vai revisar hoje a projeção do PIB do ano de crescimento de 0,02% para queda de 4% a 5%, segundo a Folha, na tentativa de se alinhar às apostas do mercado (na Focus, está em -4,11%).

Às 9h, o fechamento do comércio e isolamento social antecipam queda histórica das vendas no varejo em março. Pelo conceito restrito, o dado prevê recuar 4,70% na mediana de pesquisa Broadcast.

O intervalo das expectativas varia de uma queda de 16% até uma alta de 0,80%. Já o tombo das vendas em veículos em março deve levar o varejo ampliado à retração recorde de -14,35% (piso de -22,5% e teto de -7,8%).

No câmbio, às 12h, o BC oferta até R$ 4 bi em compromissadas de 6 meses. Às 14h30, sai o fluxo semanal.

Muita calma nesta hora

Receios de que Nova Yorque possa ter cantado vitória antes do tempo sobre a reabertura econômica foram acentuados ontem pelo depoimento ao Congresso do conselheiro de saúde da Casa Branca.

Principal consultor da força-tarefa contra a covid-19, Anthony Fauci alertou para “sofrimento desnecessário e mortes”, caso haja retomada precoce da economia. Ainda a NBC informou repique de novas infecções nos EUA.

O noticiário se soma ao anticlímax do risco de segunda onda na Ásia e à informação de que a Alemanha quase triplicou o número de novos casos nas últimas 24h, deixando dúvidas se os EUA não estão abrindo rápido demais.

Dose de pessimismo adicional em Wall Street, ontem, veio de relatos de que senadores republicanos podem avançar na apresentação de um projeto de lei que inclui sanções contra a China por violações de direitos humanos.

A ofensiva coincide com o momento de resgate das tensões comerciais entre Washington e Pequim.

Em tempo

Banco Central da Noruega informou que excluiu de investimentos do fundo soberano a VALE, por responsabilidade em estragos ambientais, e a ELETROBRAS, por desestruturação de grupos indígenas.

Imagem: ADRIANO MACHADO/UOL

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