Crise política em alta com denúncia de Marinho

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Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato

BDM

A crise política escalou mais alguns degraus no fim de semana, com as denúncias de Paulo Marinho na Folha, que complicam as acusações de interferência de Bolsonaro na PF. A PGR já mandou ouvir o empresário e o chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro sobre o suposto vazamento da Operação Furna da Onça, que pegou Queiroz, e o STF já recebeu petição para ampliar o inquérito.

Ainda hoje, Celso de Mello deve decidir sobre a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, citada por Moro como prova da pressão do presidente.

O empresário Paulo Marinho foi um dos mais importantes e próximos apoiadores de Bolsonaro em 2018. Não só cedeu sua casa no Rio como QG da campanha eleitoral, como é suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado.

Rompeu com Bolsonaro quando o presidente demitiu o amigo e “irmão” Gustavo Bebianno, apenas dois meses depois da posse, e, neste domingo, fez denúncias muito graves em entrevista à jornalista Monica Bergamo.

Marinho contou em detalhes um relato de Flávio Bolsonaro feito em 13/12/18, a ele e a mais dois advogados, sobre ter sido avisado antes da Operação Furna da Onça, que chegou ao assessor Fabrício Queiroz.

Segundo o empresário, Flávio estava absolutamente transtornado no encontro, buscava um advogado criminal para se defender e revelou que foi procurado em outubro por “um delegado da PF simpatizante de Bolsonaro”.

Esse delegado, que não se sabe quem é, contou que ia ser deflagrada a Operação Furna da Onça, que ia atingir em cheio a Assembleia do Rio e pegar algumas pessoas do gabinete de Flávio, inclusive Queiroz.

Aconselhou Flávio a demitir Fabrício Queiroz e sua filha [Nathalia], o que foi feito no mesmo dia. Ambos foram exonerados no dia 15/10/2018, após o senador ter consultado o pai, o então candidato Jair Bolsonaro.

O delegado contou, ainda, que a PF ia segurar a Operação “para não prejudicar o segundo turno”.

As revelações de Flávio foram testemunhadas pelos advogados Christiano Fragoso, indicado por Marinho para defender o filho do presidente, e Victor Alves, que trabalha até hoje no gabinete do senador em Brasília.

A Operação Furna da Onça, deflagrada no dia 8/11/2018, após a eleição de Bolsonaro, foi um desdobramento da Operação Cadeia Velha, de novembro/2017, chefiada pelo delegado Alexandre Ramagem.

Ramagem passou a integrar a equipe de segurança do presidente Bolsonaro no final de 2018 e a sua nomeação para substituir Maurício Valeixo como diretor-geral da PF foi o motivo da saída de Sergio Moro do governo.

No Twitter, o ex-ministro Moro disse esperar que “os fatos revelados com coragem por Paulo Marinho sejam totalmente esclarecidos”. Também Marinho disse no Twitter que pediu proteção policial ao governador Witzel.

Flávio divulgou nota acusando Paulo Marinho de ter se deixado tomar pela ambição e de querer a sua vaga no Senado. “Preferiu virar as costas a quem lhe estendeu a mão. Trocou a família Bolsonaro por Doria e Witzel”.

PGR  

Já este domingo, a Procuradoria-Geral da República enviou ofício à Polícia Federal solicitando depoimento do empresário Paulo Marinho no inquérito que apura suposta interferência de Bolsonaro no órgão.

A PGR também pediu à PF para ouvir na mesma investigação Miguel Ângelo Braga Grillo, chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro desde 2007, e que conversou com o delegado que teria vazado a Operação Furna da Onça.

Além de Miguel Ângelo Braga, participaram do encontro com o delegado da PF em meados de outubro/2018 o advogado Victor Alves e Val Meliga, ambos ligados a Flávio; ela, irmã de dois milicianos presos.

Segundo relato do próprio Flávio a Marinho, a conversa ocorreu na porta da sede da PF/RJ, na Praça Mauá.

PF

Em nota, a Polícia Federal disse ter instaurado nova apuração sobre o suposto vazamento da Furna da Onça.

STF

É elevada a possibilidade de que as denúncias de Paulo Marinho sejam incorporadas ao inquérito no STF, que investiga as acusações de tentativa de interferência do presidente Bolsonaro na Polícia Federal.

Celso de Mello, relator do inquérito no STF, também já recebeu o primeiro pedido para “diligências urgentes” de Paulo Marinho, Flávio Bolsonaro e Alexandre Ramagem, do deputado Marcelo Calero (Cidadania-RJ).

Riscos para Bolsonaro

A entrevista de Paulo Marinho, mais do que as acusações de Sérgio Moro, oferece denúncias e pistas concretas sobre o interesse de o presidente interferir na PF para proteger seu filho Flávio.

Mas, ainda que a PGR abra nova investigação, no âmbito do inquérito instalado no STF, o presidente não poderá ser processado por nenhum crime envolvendo fatos anteriores ao exercício do seu mandato.

Há, no entanto, riscos políticos para Bolsonaro se a investigação confirmar as denúncias de Paulo Marinho, em especial, se causar estragos na base de apoio que o Planalto está costurando com os líderes do Centrão.

Celular de Bebiano 

Na entrevista à Folha, Paulo Marinho cita ainda o celular de Bebianno, que está com “alguém nos EUA” [não sabe com quem], com muitas mensagens de áudio enviadas por Bolsonaro.

Manifestação

Bolsonaro cancelou o pronunciamento em cadeia de rádio e televisão que faria na noite de sábado, mas, no domingo, voltou a participar da já tradicional manifestação em frente ao Planalto.

Desta vez, ele levou vários ministros, inclusive dois militares, os generais Augusto Heleno e Eduardo Ramos.

O presidente desceu a rampa, aproximou-se dos apoiadores, pegou três crianças no colo e disse que não havia no local “nenhuma faixa contestando o estado democrático de direito”. As fotos mostraram que havia.

Uma das faixas pedia “cloroquina já”; mas sobre as 16 mil mortes pela covid-19, nenhuma palavra. Espera-se, ainda, a nomeação do novo ministro da Saúde, após a demissão de Nelson Teich, na última 6ªF.

Veto

Outra expectativa é para o veto de Bolsonaro ao reajuste dos salários dos servidores, que foi prometido a Guedes, no projeto de auxílio aos Estados e municípios. O presidente tem até o dia 27 para sancionar.

Na semana passada, Bolsonaro disse que discutiria em videoconferência com os governadores e Rodrigo Maia.

Além do DF, o Congresso aprovou reajuste para militares de Roraima, Rondônia e Amapá, ativos e inativos, que ingressaram na carreira quando esses Estados eram territórios pertencentes à União.

Mato Grosso e Paraíba também aprovaram reajustes e gratificações, enquanto em outros Estados aumenta a pressão por aumentos, antes do congelamento, que deve durar todo o ano de 2021, na manchete do Estadão.

O mercado teme que tudo possa ficar ainda pior se o presidente fizer novas desfeitas a Guedes, nem tanto porque põe muita fé no otimismo do ministro, mas porque, se ele sair, o risco fiscal pode ficar fora de controle.

Imagem: Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz na campanha eleitoral (Reprodução)

 

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