Covid-19: Sobre vacinas e falácias

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[EcoDebate] O Dicionário Houaiss define “falácia” como enunciado ou raciocínio falso que entretanto simula a veracidade. Na lógica argumentativa, diz-se que um argumento é falacioso quando ele simula associações a partir de elementos externos ao tema em questão.

São particularmente comuns as falácias ad hominem, que ocorrem quando alguém tenta desqualificar uma proposição com uma crítica ao autor, e não ao argumento. Também são frequentes as situações inversas, ad verecundiam (também conhecida como magister dixit), nas quais a veracidade de um argumento é deduzida da respeitabilidade do seu proponente.

São dignas de nota ainda as falácias ad baculum (ou apelo à força), nas quais a veracidade é deduzida do poder (ou da veemência) do argumentador. Por fim, e bem relevante ao nosso momento atual, há o raciocínio post hoc ergo propter hoc (“depois disso, logo, causado por isso”).

Todo esse latim vem a calhar com a atual discussão sobre vacinas. Há alguns dias uma repórter me questionou a que ensaio clínico de vacinas anti-COVID-19 eu me submeteria. Minha resposta foi clara: neste momento, me submeteria a testes de qualquer uma.

Que fique clara ao leitor minha posição: todas as vacinas (embora fundamentalmente diferentes em seus componentes e racional imunológico) são promissoras. Mas há quem diga (tornando-se subitamente fã da ciência que, terraplanisticamente, tem agredido) que não aceitaria vacinas “daquele país”.

Vale aqui lembrar a história das vacinas, que filósofos da ciência como Alex Broadent (Universidade de Joanesburgo) e Jacob Stegenga (Universidade de Cambridge) apontam como um exemplo de apropriação benéfica do folclore popular pela medicina.

A varíola era uma doença que causava grande número de mortes e danos estéticos permanentes (alguém lembrará que Marcela, que amou Braz Cubas durante quinze meses e onze contos de réis foi desfigurada pela então chamada “bexiga”?).

Chineses (sim, chineses) e turcos, cientes de que a varíola era menos grave em crianças e conferia imunidade permanente, inoculavam pessoas em tenra idade com fluidos de bolhas da doença, procedimento levado à Inglaterra (sim, Inglaterra) pela Lady Montagu.

Ora, esse procedimento foi substituído por outro mais inócuo quando Edward Jenner percebeu que utilizar o vírus da varíola bovina (vaccinia) era tão eficaz quanto o anterior e muito menos arriscado.

Substituiu-se a “variolação” pela “vacinação”, que é uma das estratégias sanitárias mais bem sucedidas da história humana.

Na Idade Média, enquanto a Europa se coagulava em feudos, e grande parte da sabedoria ficou guardada em mosteiros, florescia uma medicina altamente racional no mundo islâmico. O ocidente soube, posteriormente, beneficiar-se de seus ensinamentos.

À medida em que nos aproximamos dos 100 mil mortos por COVID-19 no Brasil, depositamos enorme esperança no rápido desenvolvimento (e, tão importante quanto, ampla disponibilidade) de uma vacina.

Instituições sérias do nosso país, como o Instituto Butantan e a Universidade Federal de São Paulo, estão heroicamente envolvidas em pesquisas para determinar eficácia da imunização.

Não é momento para argumentos ad hominem (anti-chineses) ou ad veracundiam (pró-“Oxford”). Certamente devemos repudiar qualquer ad baculum (a ciência não pode se submeter ao poder). Finalmente, proponho um “experimento mental”.

Alguém está doente e veste uma camisa laranja. Após alguns dias, cura-se. O que teve a roupa a ver com isso? É triste ouvir de médicos o post hoc ergo propter hoc ser aplicado à cloroquina (que, até o momento, parece tão eficaz contra COVID-19 quanto o chá de erva cidreira).

O que chamamos de “medicina científica” tem até hoje se beneficiado de um diálogo com certos conceitos tradicionais, como já foi dito no caso da varíola.

Essa doença foi erradicada, fim que muito desejamos para a COVID-19. Vacinas são bem-vindas. Elas não têm (ou não devem ter) cor, ideologia ou partido. Contêm, isso sim, moléculas.

E que venham todas, sejam de DNA, vírus quiméricos, microrganismos inativados ou antígenos produzidos em engenharia genética.

Que nessa saudável corrida científica vença aquela que nos trará melhor eficácia, segurança e (nunca é demais insistir) que permita rápida fabricação de bilhões de doses.

Tentemos deixar as vacinas longe de quaisquer manipulações partidárias e ideológicas. Dar uma chance à racionalidade é, também, dar uma chance à vida.

* Carlos Magno Fortaleza, é Vice-Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia e professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/08/2020

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