Coronavírus, Meio Ambiente e Humanidade: o que temos a (re)aprender?

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 Wendell Andrade*

Em tempos de Saúde e Economia disputando o Oscar de Melhor Argumento numa “Holiúde” refém da polarização, Meio Ambiente segue há anos-luz de qualquer protagonismo e também muito distante de ser ator coadjuvante. No máximo, um figurante… De luxo.

Nem as proporções que a epid… ops, pandemia, do “Novo Coronavírus” está tomando a cada dia têm sido suficientes para fazer com que os olhares do mundo – imprensa, autoridades, grandes corporações, cidadãos comuns – se voltem ao Meio Ambiente como um reconhecimento de que a catástrofe dos dias atuais é, antes de tudo, uma crise da relação homem-ambiente, e da apropriação que o primeiro lança sobre o segundo, como se dele não fosse parte constituinte.

Mesmo em meio a tanta desinformação e linha cruzada neste momento crítico, o exemplo de que essa relação promove desequilíbrios de toda ordem não poderia ser outro senão a disseminação de uma nova variante de vírus (da família viral denominada Coronavírus), provavelmente gerada a partir do manejo inadequado de animais selvagens (dizem, o morcego e o pangolim), na China.

Agora vamos para um olhar mais amplo, além do caso chinês e observe ao redor. Faça uma avaliação rápida consigo e constate: qualquer assunto relacionado à área ambiental, pelo menos no Brasil, é sempre tratado com muito menos atenção do que se deve. Isso quando não recebe os requintes do esquecimento, do desprezo ou até pior: da chacota.

E por “assunto ambiental” não precisa cometer aquela mistura de romantismo e bucolismo e pensar em florestas e pássaros a cantar, não. Abra a janela de casa e olhe, por exemplo, o lixo ali na rua.

A mera expressão “Meio Ambiente” não tem sido nem de longe capaz de entrar na acirrada competição entre as duas palavras do momento: “Saúde” e “Economia”. Nem como se acessória fosse, que dirá como essencial…

Nicholas Cage e John Travolta duelam em "A Outra Face", filme de 1997. Mais ou menos como "Saúde" e "Economia" nos discursos do Brasil polarizado de hoje. O spoiler que dá pra adiantar? Todos perdem.
Nicholas Cage e John Travolta duelam em “A Outra Face”, filme de 1997. Mais ou menos como “Saúde” e “Economia” nos discursos do Brasil polarizado de hoje. O spoiler que dá pra adiantar? Todos perdem.

Mas afinal: qual é a base, a pedra fundamental sobre a qual “Saúde” e “Economia” se escoram para se manter e desenvolver? Sim, é justamente o tema escanteado.

Isso me remete quase que em automático para o ano de 2010, quando nos idos da época de mestrado, um professor sempre nos alertava de que vivemos uma “Crise Invisível”, que já se fazia presente (não esqueça que a fala é de 10 anos atrás!), mas ainda não a enxergávamos porque tínhamos conosco a viseira da abundância. Abundância de recursos naturais. Diversidade. Plena disposição. O “Eu, consumidor, tenho tudo o que eu quero, na hora em que eu quero, na quantidade em que eu quero, para fazer o que eu quiser”.

Ele não falava em tom profético, pois já tínhamos crise naquele tempo. Acrescentava dizendo algo como “enquanto esse modelo de apropriação que a gente imprime sobre o meio ambiente for visto como algo inofensivo, que não traz prejuízo visível e imediato a nós, as grandes forças não se alertarão para a crise, na intensidade e no senso de urgência capazes de mudar a nave de rota”.

O professor ainda é vivo. Sua fala também. E a crise? Ahh, essa está mais viva do que nunca.

A pergunta-chave é: De quanto mais de desgraça precisaremos até nos darmos conta, como Humanidade, de que o descolamento do Homem em relação à Natureza – como se ele não fosse parte indissociável dela – e toda a degradação ambiental que decorre desse pensamento, é EXATAMENTE o que gera o desequilíbrio em escala suficiente para favorecer a ocorrência de catástrofes?

Tenho sempre tomado cuidado ao falar de Meio Ambiente, fico parecendo monotemático, sei que nem sempre as pessoas querem ler, parece assunto de “ecochato” que vive em bolha… Eu sei, sei de tudo isso, mas insisto num raciocínio sempre, acreditando que precisamos de uma “virada de chave”: eu, você, nós SOMOS AMBIENTE, nós somos parte integrante dele. Não estamos à parte, e sim somos parte!

Enquanto Humanidade, nós não nos servimos do meio natural assim, pura e simplesmente, sem nenhuma consequência – mesmo que imperceptível de imediato – a esse comportamento atrelada.

Isso não é achismo, é ciência. James Lovelock e sua “Teoria Gaia”, Fritjof Capra e sua “Teia da Vida”, Carl Sagan… Vários autores sustentam que as consequências de um modelo predatório baseado em recursos finitos afetarão diferentes pontos do Sistema Vivo, em graus e modos também diferentes, até que esse mesmo sistema, se o comportamento não mudar, colapse.

"Pálido Ponto Azul, livro de Carl Sagan, de 1994. Alerta para a limitação dos recursos naturais que nos mantém e a necessidade de um novo olhar sobre nossa relação com o Planeta". Ah, talvez seja importante saber: Sagan é cientista, não achista.
“Pálido Ponto Azul, livro de Carl Sagan, de 1994. Alerta para a limitação dos recursos naturais que nos mantém e a necessidade de um novo olhar sobre nossa relação com o Planeta”. Ah, talvez seja importante saber: Sagan é cientista, não achista.

Nessa hora, não há imprensa especializada que não sucumba à enxurrada de (des)informações que recebemos todos os dias. Este texto aqui, por exemplo: provavelmente perderá para um texto de alguém sobre a Anitta, ou o último capítulo da novela, e o mais paradoxal: perderá para programa de TV que atende pela irônica expressão reality show. Como se o show da realidade não estivesse aqui fora, passando na nossa frente, sem sequer conseguirmos enxergar…

Muitas perguntas ainda restam em aberto por aqui. Por exemplo: nossa ancestralidade já enxergava que temos, como Humanidade, uma relação muito estreita e umbilical com a natureza. Ainda que não usassem a expressão “Resiliência”, sabiam exatamente que o impacto derivado de uma ação humana precisa ocorrer em intensidade e frequência menores do que a capacidade de aquele ambiente se recompor, até que um novo impacto (ação) pudesse então ocorrer. O que aconteceu no meio do caminho que nos separou dessa lógica? Onde foi que nos rebelamos contra o sentido mais elementar da existência, que é sermos todos partes de um único sistema vivo? Onde foi que deixamos de perceber que uma das Leis Físicas (Ação e Reação) é também verdade na relação Homem-Ambiente?

A fala clássica do Cacique Seattle, em 1855, expressa em Carta ao então Presidente dos Estados Unidos, representa bem essa compreensão:

– “O homem não tece a teia da vida: É antes um dos seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”;

– “Onde está o matagal? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o fim do viver e o início do sobreviver“.

Não faltam alertas à nossa consciência e ao senso de urgência, que até aqui segue gritando mais baixo que o poder avassalador do Grande Capital, que tudo compra, com exceção do equilíbrio ambiental.

Fazer o exercício de enxergar a existência de tudo como um grande Sistema Vivo é um caminho sensato, na contramão da “Era da Insensatez” em que vivemos, porque sobretudo essa visão nos aproxima do que mais nos falta: senso de coletividade.

Meio Ambiente não pode ser reduzido a uma discussão cheia de romantismos utópicos, alegorias e um sem-fim de idealismos.

É preciso o olhar prático! Discutir-se o ambiental pelo Humano! Pôr na mesa (e nas políticas públicas) as soluções que a Ciência Aplicada já nos mostra.

Quer seja para o lixo na porta da sua casa, quer seja para a alteração da temperatura média do planeta.

É para chamar a atenção ao real!

Vai do saco de lixo cujo conteúdo, além de não reciclarmos, lançamos em local inadequado, até decisões de Nações sobre questões de política econômica que impactarão no esgarçamento ainda maior da relação homem-ambiente.

O alastramento do novo Coronavírus e a consequente pandemia de COVID-19 que enfrentamos nos revela quão mal nós – Humanidade – nos gerimos enquanto Sistema. Desconsideramos o impacto que 8 bilhões de pessoas podem causar num sistema de partes muitas vezes sensíveis, que existe orquestrado por dezenas de milhares de variáveis, cujas quais insistimos em perturbar e desregular, sem o menor pudor, em uma escala que sequer se sustenta.

Uma hora, os “boletos” iriam chegar. E notícia ruim: eles não pararão de chegar.

Até quando vamos viver desconsiderando as bases científicas que demonstram “por A mais B” que vivemos numa grande teia, onde tudo o que um faz, importa (e muito!) na vida do outro?

O Coronavírus reflete apenas o “cenário” do momento nesse filme em que o ser humano, muitas vezes sem perceber, já atua há pelo menos um século e meio como vilão. Vilão de si próprio.

Caminhões militares transportam mortos, na Itália. Março de 2020. Ao que consta, não somente não há leitos suficientes para cuidar dos infectados, como também não há cemitérios em escala para dar conta do momento crítico.
Caminhões militares transportam mortos, na Itália. Março de 2020. Ao que consta, não somente não há leitos suficientes para cuidar dos infectados, como também não há cemitérios em escala para dar conta do momento crítico.

Essa semana, no Brasil, tivemos movimentos perigosos de autoridades, que ligaram um sinal preocupante: propuseram redirecionar recursos voltados à recuperação e à conservação ambiental para a aplicação imediata em Saúde. A exemplo de Wilson Witzel, no RJ, que encaminhou projeto de Lei à ALERJ para reconfigurar o Fundo Mata Atlântica.

 Trecho da mensagem do Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, à Assembleia Legislativa. Sangrar primeiro de "onde menos importa" parece ser a lógica. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Parte II, 26-mar-2020. Disponível em: www.ioerj.com.br. 
Trecho da mensagem do Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, à Assembleia Legislativa. Sangrar primeiro de “onde menos importa” parece ser a lógica. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Parte II, 26-mar-2020. Disponível em: www.ioerj.com.br. 

Muito embora se compreenda a emergência que a situação impõe, movimentos políticos dessa natureza revelam desapreço à visão sistêmica, de olhar o todo, obrigação primária de qualquer governo. Por que “sangrar” primeiro dos fundos ambientais? Não há realmente outras possibilidades antes destas? Cadê movimentação quanto ao Fundo Partidário? E o Grande Capital, com o que vai arcar para se manter de pé?

É o sintoma mais claro de que Meio Ambiente continua sendo visto desatrelado de Saúde Pública. E também de Economia. É a admissão tácita – e absolutamente equivocada – de que são temas desconectados.

Desinvestir em Meio Ambiente é automaticamente desinvestir em Saúde Pública.

Enquanto isso, no Brasil, o filme/série do(a) qual participamos segue com seus protagonistas “Saúde” e “Economia” em máxima evidência, a despeito de toda a importância de “certos personagens”…

Não há e não haverá Saúde Pública sem patrimônio ambiental, que precisa estar em condições mínimas de oferecer os serviços ecossistêmicos (alimento, ar, água, chuvas, ciclagem de nutrientes, conforto térmico, beleza cênica) de que precisamos, todos, pra seguir em frente.

Não há e não haverá prosperidade econômica sem percepção de que recursos naturais são finitos, uma vez que são a base produtiva de todo o sistema econômico atual. Em se mantendo o atual rumo, muito menos haverá gente para fazer girar a “Grande Roda” da Economia.

Mais do que hora de olharmos com atenção para os “meros figurantes”.

plot-twist virá.

Wendell Andrade* | MSc. Gestão de Rec. Naturais e Desenv. Local na Amazônia (UFPA)

*Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no Blog do Dell Andrade

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/04/2020

No destaque, Itália é um dos países mais atingidos pelo novo coronavírus – Comune di Venezia/Fotos públicas

 

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