Consultores analisam situações de risco das barragens no vale do rio de Peixe, em Itabira

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Um importante artigo técnico-científico apresentado no XXX Seminário Nacional de Grandes Barragens, ocorrido nos dias 12 a 14 de maio de 2015, em Foz do Iguaçu, Paraná, onde está situada a hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo, faz sérias advertências sobre a segurança das barragens existentes no vale do rio de Peixe, em Itabira (MG).

O artigo tem o título Itabira e o Vale do Ribeirão do Peixe – uma proposta de metodologia automatizada para mitigação de riscos. E é assinado  pelos consultores Antônio Carlos Felício Lambertini, da empresa Geologia de Engenharia (Geoservice) e Carla Schimidt, daM.Sc. in Sustainable Forestry and Land Use Management (Obedrdiek).

Os autores,  por exemplo, mesmo reconhecendo que as barragens avaliadas tenham sido construídas com alteamento a jusante, o que as tornam mais seguras, assinalam vários riscos à sua segurança – e que exigem monitoramento permanente para que se façam as correções necessárias.

“O risco associado a este tipo de barragem (de rejeito) é sensivelmente superior a barramentos de qualquer outra atividade. A proximidade destes barramentos com a área urbana do vale a jusante exige uma reavaliação estatística das deteriorações físicas ocorridas, bem como a instalação de métodos mais ágeis de avaliação do comportamento destas barragens”, escreveram os autores.

O artigo propõe uma metodologia para automatizar a captura e processamento das informações sobre o comportamento dos barramentos.  Os autores descrevem as barragens do Rio de Peixe, Itabiruçu, Conceição (que erroneamente chamam de Santana), Cambucal I e II.

Há no artigo alguns erros perceptíveis por quem conhece essa realidade em Itabira, como por exemplo, a indicação de que a barragem de Santana está localizada na bacia do ribeirão do Peixe, quando na verdade encontra-se na bacia do rio Tanque (córrego do Jirau). Mas pela descrição apresentada, observa-se que os autores só erraram no nome, pois descrevem a barragem de Conceição.

As advertências dos consultores precisam ser conhecidas. Leia abaixo a descrição da barragem do Itabiruçu, que já dispõe de licença ambiental para que se faça mais um alteamento de sua estrutura. Que a Vale se manifeste com urgência sobre as questões de segurança e o monitoramento de riscos apresentados no artigo, assim como apresente as medidas mitigadoras.

Barragem de Itabiruçu

“Na cabeceira do rio do Peixe, a cerca de três quilômetros a montante da Barragem Santana, encontra-se a barragem de Itabiruçu onde são contidos os rejeitos gerados pela Mina Conceição, com uma capacidade de reservação de 230 hm3 .

Esta barragem, cuja crista atualmente encontra-se aproximadamente na El. 835m, foi construída no início dos anos 1980 com uma altura de aproximadamente 50 metros. Seu projeto original já previa um alteamento por jusante de outros 20 metros.

Este alteamento por jusante, conforme previsto em projeto, deu-se na primeira década dos anos 2000. O controle do nível do reservatório se dá através de um vertedouro tulipa seguido de uma galeria extravasora em concreto com cerca de 500 metros de comprimento.

A galeria extravasora do vertedouro tulipa foi instalada numa região com grande probabilidade de ocorrência de solo residual de alta compressibilidade de modo que a galeria pode ter sofrido um deslocamento, muito provavelmente, maior que a capacidade de deformação do solo do maciço, o que eventualmente pode ter ocasionado o surgimento de grandes vazios que se estabilizam temporariamente, porém, com o alteamento da crista da barragem podem ocorrer vazamentos de água sob pressão pelas juntas da galeria chegando a provocar rompimentos hidráulicos prejudiciais ao maciço, com consequências irreversíveis e, em alguns casos, desastrosas.

Em sua ombreira esquerda, o barramento conta com um vertedouro de superfície do tipo crista livre e rápido com um desnível de 70 metros. A bacia de dissipação no final do rápido encontra-se a pouco mais de 100 metros da rodovia BR 434, com a direção da descarga em sentido oposto ao fluxo do córrego.

Em sua margem esquerda, ao longo do reservatório e logo a jusante, encontram-se as pilhas de deposição de rejeitos denominadas Canga superior e inferior. Estas pilhas iniciadas em 1980 já apresentaram sérios problemas de estabilidade quando, em 1995, época em que a pilha atingia uma altura de aproximadamente 50m, começou a serem observadas surgências a jusante e em áreas adjacentes ao talvegue.

Esta surgência provocou o rompimento do dreno de fundo tendo como consequência a exposição de camadas drenantes e a saída descontrolada de água. Para atenuar esse problema, construiu-se uma bacia de retenção com barramento em dique com bombeamento das águas para o exterior.

A geologia da região de implantação dos barramentos apresenta solos residuais, depósitos aluvionares, saprolitos e xistos muito fraturados. Este terreno, embora não ideal, possui características de suporte aceitáveis à obra além de uma condição de equilíbrio estável, desde que mantidas as hipóteses de projeto.

Após a conclusão da primeira fase de implantação do barramento, com o início da deposição do rejeito no espaldar de montante da barragem, originam-se tensões de tração que são absorvidas pelo próprio maciço, conforme previsto em projeto.

Entretanto, com a implantação dos alteamentos posteriores no espaldar de jusante do barramento, há uma nova configuração temporária de carregamento durante a construção, solicitando ainda mais o maciço à tração.

Esta tração é muito difícil de ser combatida, podendo originar consequências severas como rachaduras ou mesmo deslocamentos angulares e verticais do maciço com a consequente perda da continuidade estrutural prevista em projeto. Esta situação é considerada de Perigo Extremo pela legislação.

A condição de fundação das ombreiras também pode comprometer o bom desempenho das estruturas uma vez que podem originar recalques superiores aos previstos em projeto, com o consequente decréscimo das pressões de contato e aumento do risco de ocorrência de fraturas hidráulicas, classificadas pela legislação como Perigosa.

Além da situação acima à época da construção do barramento são feitos cortes que podem descobrir uma eventual fratura abaixo do nível do reservatório. Esta fratura, muitas vezes com permeabilidade consideravelmente maior que a do maciço, após o enchimento do reservatório pode permitir um aumento da velocidade do fluxo d´água na fundação da estrutura provocando a erosão do solo atrás ou abaixo da estrutura descalçando-a e levando-a a ruína em casos extremos. Da mesma forma a legislação de segurança de barragens classifica este fato como Perigoso.”

Explicações urgentes

Clube do sindicato Metabase, na barragem do rio de Peixe (Fotos: Esdras Vinicius)

Diante das últimas trágicas e criminosos rupturas de barragens (Fundão, em Mariana, e Córrego do Feijão, em Brumadinho), torna-se imprescindível que autoridades e sociedade itabirana cobrem explicações e ações urgentes da Vale para mitigar os riscos.

E que expliquem, por exemplo, como foram corrigidos cada um dos itens apontados nos artigos dos consultores  Antônio Carlos Felício Lambertini e Carla Schimidt. São várias situações existentes nas barragens avaliadas, classificadas pela legislação de segurança como perigosas.

Não é o caso de alarmar a população, mas de advertir para que cobrem um posicionamento das autoridades e que a Vale venha a público se explicar e apresentar as medidas implementadas para garantir a estabilidade dessas barragens . O direito à informação é irrevogável. E essa precisa fluir de forma ampla e generalizada.

Há muito que ser explicado e corrigido. O que é inadmissível é a população permanecer exposta ao risco, ainda que mínimo, sabe-se lá. E ficar sem saber o que ocorre com essas estruturas que estão à montante da cidade. Se situações de riscos existem, precisam ser urgentemente corrigidas com medidas mitigadoras.

As barragens da Vale eram até então consideradas seguras, todas auditadas e certificadas internacionalmente. A realidade demonstrou que isso não existe. Todas estão sujeitas a rupturas com consequências drásticas para o meio ambiente e para a vida humana.

Aguarda-se, pois, urgente posicionamento da Vale. Que nada fique obscuro – e que se faça o que tem de ser feito. Se for o caso, ainda que isso possa acarretar prejuízos ao planejamento estratégico da mineradora em Itabira, que se suspenda o alteamento da barragem do Itabiruçu.

“O reconhecimento da probabilidade, mesmo que minimamente remota, de ocorrência destes fatos contribui para a melhoria da segurança”, escreveram os autores do artigo técnico-científico.  Que se faça a gestão de riscos como recomendado no artigo – e que tudo seja informado à sociedade itabirana.

Saiba mais

Leia o artigo completo aqui:

http://www.cbdb.org.br/xxxsngb/download/trabalhos_tecnicos/tema113/ITABIRA%20E%20O%20VALE%20DO%20RIBEIR%C3%83O%20DO%20PEIXE%20-%20UMA%20PROPOSTA%20DE%20METODOLOGIA%20AUTOMATIZADA%20PARA%20MITIGA%C3%87%C3%83O%20DOS%20RISCOS.pdf

ou aqui:

http://ptdocz.com/doc/1009026/itabira-e-o-vale-do-ribeir%C3%A3o-do-peixe

 

Sobre o Autor

13 Comentários

  1. Cristina Silveira, Sem Esperanza em

    Em 1980 o Jornal O Cometa fez denúncia da bandalha no Rio de Peixe. Mas quem se importou? Foi tão somente o Altamir Barros, autor da matéria.

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