Vida Literária – Confidências do itabirano

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José Condé*

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Alguém afirmou um dia ser Itabira o lugar onde havia mais ferro no mundo. Desde essa época a cidade ficou vivendo em função dessa revelação. Todavia, como outras da velha paisagem mineira, Itabira permaneceu a mesma com o seu doce ar colonial e suas casas sonolentas povoadas de fantasmas.

O antigo sonho de grandeza, porém, conserva-se o mesmo. Dir-se-ia o fundamento da vida do seu povo bom e simples – gente presa ainda ao passado, reservada como é do gosto mineiro, sóbria até na maneira de sonhar.

Foi isso decerto que levou o poeta dizer:

Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
 

Casa onde Drummond nasceu, na rua da Direita, hoje Guarda-Mór Custódio. No destaque, Drummond em família com Maria Julieta e Dolores (fotos e ilustrações: Suplemento Literário do Estadão, 1982 e acervo Cristina Silveira)

Sabeis, naturalmente, de quem vos falo. Pois Itabira não é somente a terra do minério, mas também a terra de Carlos Drummond de Andrade. Seu pai foi o último de uma geração fazendeiros à moda antiga, de senhores austeros para quem a vida era antes de tudo um estado de luta permanente. É difícil, pois, imaginar o jovem Carlos Drummond: magro de ar doentio, de uma tristeza que vinha daquelas ruas tristes, daquelas “noites brancas sem mulheres e sem horizontes”.

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Retornando àquele tempo vamos encontrá-lo feito caixeiro de uma casa comercial, espécie de empório onde se vendiam desde fazendas e carreteis de linha, até toucinho, sabão e vela de sebo. Carlos Drummond concluíra havia pouco o curso escolar e como tivesse uma constituição fraca, não permitiu a sua mãe que ele continuasse os estudos em Belo Horizonte.

Assim, para não ficar à toa, tornou-se caixeiro, embora não recebesse ordenado. Isso foi durante a guerra de 1914-1915. E detalhe curioso: era dos dois únicos germanófilos da cidade. Em vez de trabalhar, discutia; discutiu até o dia em que os alemães afundaram navios brasileiros.

Consequentemente sentiu-se cansado de ser germanófilo e entediado de ser caixeiro. Abandou o “emprego” e como pagamento por 8 meses de trabalho no balcão, recebeu de presente um par de calças zebradas – suas primeiras calças compridas.

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Começa então a primeira aventura no mundo das letras. Existia em Itabira um “Grêmio Literário e Dramático Artur Azevedo”, responsável pelas belas letras local. Havia um limite de idade para se ingressar nele. Como não tivesse a idade mínima exigida – quatorze anos – Carlos Drummond provocou uma reforma dos estatutos e pouco depois era admitido naquela associação.

Seu discurso de posse encheu de orgulho o coração do velho fazendeiro, seu pai. Aliás, havia na sua família um ambiente generoso e compreensivo para as coisas do espírito. Os primeiros passos de Carlos Drummond na literatura foram conduzidos por seu irmão Altivo, que escrevia poemas e crônicas. Este, estudando no Rio, costumava enviar ao futuro poeta revistas e livros, de Fialho de Almeida, Oscar Wilde e Antonio Patrício.

Certa vez, indo passar as férias em Itabira, Altivo (que segundo a moda do tempo assinava-se Altyvo) fundou um jornalzinho que viveu apenas um número. Intitulava-se “Maio” e era impresso com tinta roxa e verde.

Nesse jornalzinho de Itabira, no longínquo ano de 1918, vamos encontrar pela primeira vez um trabalho impresso de Carlos Drummond de Andrade. Vale a pena transcrevê-lo, pois assinala a estreia do poeta em letra de forma. Tinha ele, 15 anos. Título da composição: Onda. E reparem o estranhíssimo pseudônimo que arranjou: WIMPL.

Uma onda veio, mansamente, espreguiçar-se na praia, numa carícia dolente…

Parecia o corpo de uma mulher…

Era imensamente triste. Foi rolando sobre a areia, rolando…

Perto havia uma árvore onde folhas secas punham olheiras… a onda beijou-a longamente, um beijo de gaze, de espumas…

A árvore, então, derramou duas lágrimas verdes que a onda levou…

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Daí até a estreia em livro, as coisas se passam mais ou menos rapidamente. Vai estudar no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte; depois mais dois anos no Colégio Anchieta, em Friburgo, de onde é expulso.

Novamente em Belo Horizonte, a partir de 1922, a poesia é a sua preocupação de todas as horas. São seus companheiros nesse tempo: Abgar Renault, Milton Campos, Gustavo Capanema, Emílio Moura, Mário Casassanta, Pedro Nava, Martins de Almeida e mais tarde Cyro dos Anjos.

Durante a tarde se reúnem na Livraria Alves; de noite no Café Estrela, cujo dono, de nome Semeão, costuma emprestar-lhes dinheiro para irem ao cinema. Estamos na época do modernismo.

Os poemas de Carlos Drummond dão uma nota de escândalo nos jornais em que vêm publicados. Segue-se então o primeiro livro, “Alguma Poesia”, aparecido em 1930. Foi impresso nas oficinas da Imprensa Oficial de Belo Horizonte, onde trabalhava o poeta. Editado por conta própria, Carlos Drummond levou quase um ano para pagar as prestações.

O resto é muito conhecido. Estão dentro da sua poesia.

O Rio. O passado agora longe. As lembranças.

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói!

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Concluída a fase de reminiscências, a nossa conversa tomou outro rumo. Alí estava o poeta, magro, de gestos comedidos, falando pouco, embora nos revelando algumas cenas da sua vida até agora desconhecidas do público e acreditamos mesmo que de alguns de seus amigos mais íntimos.

Detalhe curioso. Poucos intelectuais brasileiros têm sido mais elogiados e mais atacados do que este poeta. E, no entanto, de nenhum outro se conhece tão pouco a respeito de sua vida íntima.

Há alguns anos uma de nossas revistas de cultura dedicou-lhe um número especial. Foram escritos mais de trinta artigos sobre a sua poesia. Nenhum, porém, que apontasse ao menos um aspecto da sua infância que servisse de indicação a um provável e futuro biógrafo. A não ser esta observação pessoal: Carlos Drummond de Andrade podia ter uma alcunha, como os cavalheiros dos velhos tempos. Dava-lhe o de “o esquisitão”.

– Não, não sou um esquisito – me disse ele – Sou um tímido.

Já haviam passado mais de duas horas e a nossa conversa continuava naquela noite chuvosa de sábado. As palavras do poeta se multiplicavam abordando desde as suas reminiscências até as predileções em literatura, cinema ou viagens.

– Gostaria muito de viajar – me diz. Infelizmente amo demasiadamente a minha tranquilidade de espirito. Acredito que jamais viajarei, pois acho horrível esse negócio de tratar de passaporte e conhecer novas criaturas. E isso de tal maneira que um passeio de barca mesmo a Niterói me é extremamente penoso.

Carlos Drummond gosta de cinema, aliás é um desses saudosistas ainda cheio de ternura por Greta Garbo e Joan Crawford.

– Não dou muita confiança às artistazinhas de hoje.

Drummond em 1979 (Foto: Suplemento Literário do Estado de São Paulo)

Também gosta de música. Ravel e Beethoven são meus compositores preferidos. Em matéria de poesia, suas predileções se voltam para Apollinaire, Baudelaire e o nosso Manuel Bandeira, a quem admira totalmente.

– Foi o poeta que deu ao modernismo a melhor lição de poesia – diz Drummond referindo-se a Bandeira. Mário de Andrade, embora grande, só será compreendido daqui a muitos anos.

– Alguma tentativa de romance? Indagamos.

– Não, nunca pretendi e nem pretendo escrever romance. Estou preocupado no momento em preparar um volume de contos.

E assim ficou encerrada a palestra. Com as confidencias do itabirano, trazíamos também a presença de uma natureza humana apaixonada e rica, mas voltada para a própria vida do que para as pobres vaidades literárias.

Sua poesia revolucionária, para os ingênuos era apenas uma maneira de atrair a atenção pública, é a poderosa mensagem de uma criatura à procura de si mesma. A mensagem sincera e ardente de um dos mestres da sua geração e um dos nossos maiores poetas.

[Correio da Manhã, 5 de setembro de 1948. Biblioteca Nacional-Rio, pesq.mcs1375]

*José Ferreira Condé (1917-1971), jornalista e escritor brasileiro.

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