Conexões: Cultura, Educação e Mineração

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“Se o homem conhecesse a extensão dos recursos

que nele germinam, ficaria deslumbrado.

Não mais temeria o futuro, tampouco se julgaria fraco.

Compreenderia sua força e acreditaria na possibilidade de

ele próprio alterar seu presente e seu futuro. O poder da vontade é ilimitado.
O homem consciente de si mesmo e de seus recursos latentes

sente crescer suas forças na razão de seus esforços.
Sabe que tudo o que de bem e bom desejar há de, mais cedo ou mais tarde, realizar-se

(Leon Denis)

Por Myriam Celme Lage Assis*

Há tempo a diversificação econômica de Itabira é discutida entre diversos órgãos e pessoas. Várias ideias, propostas e estudos são apresentados para os diversos segmentos econômicos como o agronegócio, turismo, comércio, serviços e indústria.

Mas em todos eles não se percebe a valorização da história e da cultura de Itabira.

Cia Itabirana de Teatro canta Drummond e a Cidadezinha Qualquer (Fotos: Carlos Cruz)

A Cultura engloba ideias, valores, identidade, imaginário, crenças, conhecimentos, linguagens, artes, hábitos e costumes a partir do convívio social. Por sermos sociais, interagimos, vivemos em comunidade e comunicamos com pessoas. Com a evolução tecnológica, incorporamos elementos de outras culturas através da troca cultural. Portanto, coexistimos com as culturas herdadas e com as culturas adquiridas.

Estamos sempre em transformação. Hoje somos diferentes do que fomos há dez anos. E, por sermos diferentes, precisamos entender e respeitar as diversidades culturais, no tempo e no espaço, para promover o desenvolvimento economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente adequado e saudável, com responsabilidades compartilhadas.

Drummonzinhos e a poesia necessária

As culturas de Itabira, de seus distritos e das comunidades rurais são riquíssimas. Vejamos primeiro pela nossa história, nosso passado. Ao passear por Itabira percebemos o que temos de patrimônio, material e imaterial, casarões, artesanato, música, teatro, poesias. Um passeio pelos distritos e comunidades rurais, deslumbramos com suas riquezas sociais e naturais, agronegócio, gastronomia, modo de vida, religiosidade.

Ou um passeio pelas redes sociais, onde encontramos fotografias de pessoas, de famílias, seus usos, costumes, o lazer, a educação, os empreendimentos econômicos, as expressões artísticas, as bandas, os bailes, os esportes, a religiosidade e o pensamento crítico. Além desse passeio, uma boa prosa, uma conversa com pessoas ou um evento que expõe essa história e nos mostram como é Itabira e como foi a sua evolução.

Temos Drummond, hoje salvaguardado pelo Memorial e Museu de Território Caminhos Drummondianos, Casa de Drummond, Drumonzinhos, Cia Itabirana de Teatro e por artistas, escritores, jornalistas. As relações pessoais e profissionais de Drummond com grandes nomes da literatura, intelectuais, leva Itabira a Belo Horizonte, ao Rio de Janeiro, a todo Brasil e ao mundo. Sua obra, seus pensamentos locais e globais, seus questionamentos, críticas e sua visão de futuro são presentes e eternos. Na minha visão, Drummond nunca deixou Itabira.

História

Mas, como me incomoda ver a desvalorização, a abreviação dessas riquezas. Como me incomoda estarem invisíveis para tantas pessoas, para as que nasceram aqui, as que residem ou já moraram e para as que ainda virão. Quando não vivemos essas riquezas culturais esquecemos a nossa identidade e nossa raiz.

Usina Ribeirão de São José: abandono histórico

Não vivemos no passado. Eu sei que vivemos no presente e (pre)ocupamos com o futuro. Mas, a valorização do passado nos faz agir no momento presente para prospectar o futuro.

Por isso, conecto cultura com a mineração. Afinal, Itabira tem também a mineração. Ao estudar o desempenho de sistemas sociais, econômicos e ambientais, percebo que as relações de Itabira e sua cultura com este recurso/mineração são complexas, conflituosas, mas integradas. Afinal, fazem parte do nosso presente.

Daí a importância da educação, instituição fundamental para questionarmos sobre:

Primórdios da mineração, antigo bairro Campestre (Foto: acervo de Eustáquio Trindade)

  • Como foi o surgimento de Itabira? Quem foram os primeiros habitantes do local? Quais culturas estavam presentes no local antes das expedições em busca da riqueza mineral?
  • Quem mais veio para cá? Ingleses, alemães, franceses, americanos? E os africanos? Por que vieram? Eles ficaram?
  • Quando, como e por que aconteceu o crescimento da cidade?
  • Quais os momentos e as decisões políticas que levaram a esse crescimento?
  • Ele foi planejado? Quais os impactos positivos e negativos? Era o que a sociedade, o coletivo queria?
  • Qual o legado deixado por todos envolvidos nessa história?
  • Quais evoluções culturais e tecnológicas aconteceram?
  • O medo de que Itabira virasse uma cidade fantasma surgiu nessa época? E hoje ainda existe? Por quê?
  • E hoje, quais são as “bandeiras”, as expedições das riquezas de e para Itabira? Quais os seus interesses?
  • Qual a importância de Itabira para Minas Gerais e para o Brasil, ontem, hoje e no futuro?

E por que questionar tudo isso? Para refletir, comunicar e agir enquanto cidadão. Para evidenciar o nosso valor, o nosso diferencial, buscar soluções para os nossos problemas. A educação determina o comportamento de desvendar intenções, de fortalecer a capacidade de resolver problemas coletivos e de não temer o futuro, pois com a tomada de consciência nos tornamos fortes.

Mineração

Não há como retornar os recursos minerais que já saíram de Itabira, nem as nossas altas serras, nem patrimônios destruídos. Mas, o passado traz saudades e isso deve ser respeitado. É para minimizar a saudade que restauramos, resgatamos e preservamos o que temos hoje.

Mineração provoca impactos positivos e negativos na cidade

Itabira é uma cidade que conta a história da mineração e do crescimento econômico de Minas Gerais e do Brasil. Essa história deve ser contada através de diversos conhecimentos, sejam eles das ciências exatas, humanas, sociais aplicadas ou das ciências da natureza. A cidade é um museu vivo da mineração.

Sabemos o quanto a mineração, executada pelo sistema tradicional ou com inovações, impacta muito negativamente e pouco positivamente os municípios. Também sabemos como a má gestão pública dos recursos financeiros originados dos royalties do minério não contribui para o desenvolvimento sustentável dos municípios. Vejam as notícias atuais sobre nossa cidade, Conceição do Mato Dentro, Paracatu, Mariana e outros municípios mineradores.

Hoje, é visível que a mineração e a gestão pública estão distantes do conceito de sustentabilidade, não há marketing que consiga cegar essa realidade. Existem, por parte das empresas e de governos, fragmentos de ações de responsabilidade social, ambiental e econômica. Mas não são, efetivamente, “ações e atividades humanas que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos, sem comprometer o futuro das próximas gerações”.

Muito ainda pode e deve ser feito para alcançarmos o desenvolvimento sustentável. Muito pode ser feito para evitar, prevenir que ocorra em outras regiões o que ocorreu e ocorre em Itabira. O que ocorreu em Mariana, o que está ocorrendo em Paracatu, no Amapá/Amazonas – e em outras tantas cidades do Brasil e do Mundo.

A imagem do setor de mineração está crítica anto que o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) colocou em pauta, recentemente, a questão de melhorar a imagem e a importância da mineração para a sociedade moderna.

Meninos de Minas: tambores mineiros de exportação

Sou consciente dos benefícios e da dependência que temos dos bens materiais e das oportunidades de trabalho. Temos diversos produtos originados de diversos minerais. Sei de pessoas que crescem profissionalmente nesse setor em vários estados e em várias empresas de mineração.

Converso com pessoas que adquiriram casas, estudaram seus filhos através do seu trabalho nesse setor. Mas conheço também pessoas que perderam suas casas, o seu território, a sua paisagem, o seu modo de vida por causa desse setor. O conflito existe e sempre existirá.

Por isso existe tanta resistência na conexão entre cultura e mineração. De um lado os que ganham e, do outro, os que perdem.

É difícil alcançar a sustentabilidade real. Na verdade, qualquer empreendimento humano causará impactos sociais, econômicos e ambientais, positivos e negativos. Mas nossas ações hoje devem contribuir para o bem-estar e melhoria da qualidade de vida das comunidades que estão no entorno dos diversos empreendimentos. Temos que ter consciência e ações ambientais responsáveis, sustentáveis. Ao visitarmos uma cachoeira, por exemplo, não podemos deixar o nosso lixo lá.

Nessa era do conhecimento, a inteligência humana tem que ser aplicada em prol da sociedade, da coletividade. Não cabe mais a visão e ação individualista, pessoal ou de um só grupo. Devemos buscar soluções realmente sustentáveis para prevenir os impactos negativos de nossas ações.

É preciso desenvolver outros sistemas. E que não seja somente econômico, mas também social, cultural, educativo e ambiental. Que venham novos sistemas com tecnologias inovadoras, com propriedade intelectual para atuar na mobilidade, na produção, na logística, no turismo, no agronegócio, no comércio, na indústria e na prestação de serviços com visão de preservação, de prevenção.

É preciso desenvolver estruturas institucionais inovadoras para conectar pessoas, seus conhecimentos e suas inovações. É preciso reaprender a discordar, a dialogar e interagir. Estruturas baseadas em Redes Sociais Inteligentes buscam valorizar a originalidade, os processos colaborativos e os aspectos intangíveis de valor, como a cultura e a diversidade.

Turismo

O turismo conecta a cultura, a educação e a mineração porque é uma atividade de experiência e perpassa por todos os segmentos econômicos. Através da educação e do turismo, Itabira terá visibilidade local a curto prazo; regional a médio prazo e nacional e internacional a longo prazo.

Morro Redondo, em Ipoema: turismo (Foto: Valério Adélio)

Proponho investir em uma diversificação sustentável, primeiramente com o que temos hoje, com base no que foi construído e desconstruído no município de Itabira.

Pessoas envolvidas e com perfil cooperativo das áreas de educação, cultura, mineração e de sustentabilidade podem resgatar a história e a evolução de Itabira, contextualizar com o tempo e o espaço. Conhecer as pessoas, as técnicas e as ferramentas utilizadas, os impactos positivos e negativos no município através de pesquisas em artigos e livros já publicados, mas também em fotos, vídeo e pela história oral.

Com esse levantamento é possível mapear a originalidade do município, seus ícones, seus símbolos, inovações e suas referências socioculturais. Depois, é preciso mostrar toda essa riqueza para os moradores e aos que chegam em Itabira e nos distritos, mas com ideias de recuperação, preservação e do seu uso consciente.  Aqui já teremos muita gente envolvida e já desenvolvido o devido respeito por Itabira.

Com o envolvimento da comunidade, já conhecedora de sua história e de sua cultura, é possível realizar programas, projetos, planos de ações de melhoria do patrimônio cultural material e imaterial, da prevenção de impactos ambientais, do uso do solo e da água, dos recursos necessários e fontes disponíveis para sua execução.

Tenho a visão do turismo, criativo ou de experiência e de base comunitária, como mais adequada por ter menor impacto negativo no local, por que aplica o método ação, reflexão, ação. Nesse tipo de turismo, a localidade tem controle sobre a o perfil e quantidade de pessoas que irá receber, o que elas querem e esperam. E, assim, ofertar melhores serviços de qualidade e segurança para o turista –e principalmente para a comunidade. Com a comunidade satisfeita, o turismo acontece. O retorno financeiro é consequência.

O local determina os produtos e serviços turísticos. O tipo de turista que se quer receber, possibilita criar circuitos culturais, ecológicos, científicos e tecnológicos, eventos, roteiros, com formação de consciência do mundo. E proporciona a mudança de atitude e regate de valores. Por exemplo:

Casarão abandonado: tristeza itabirana

  • 1 Centro histórico: casarões e espaços públicos com uso para mostra de imagens sobre a história e cultura de Itabira, apresentações de bandas, concertos, bailes, jantares de confraternização, artistas locais.
  • 2 Conhecer Drummond e sua obra: o museu de território, o memorial, as histórias e os contos, teatros, filmes, as suas relações humanas, debates esclarecedores de estudiosos sobre a sua literatura e a sua vida.
  • 3 Nossas Riquezas Naturais: visitas guiadas e pedagógicas ao Parque da Mata do Limoeiro, dramatização da vida do Tropeiro, festival da gastronomia rural, turismo de aventura, esportes radicais, sempre com a visão de sustentabilidade.
  • 4 Criação e visitas a espaços interativos sobre a evolução da mineração em Itabira, os impactos negativos, suas soluções e ações preventivas, jornadas científicas sobre geologia, sobre as pesquisas e inovações com o objetivo de solucionar os impactos socioambientais.

A criação é infinita quando Itabira deixa de ser invisível, quando deixa de ser um município servidor do crescimento econômico de uns, de Minas e do Brasil. E, voltado para si, mas pensando globalmente, passa a ser o município que controla e difunde a sua consciência sociocultural..

 

*Myriam Celme Lage Assis é professora e pesquisadora na área de gestão de empresas e do turismo

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. cristinica de cervantes on

    sou moradora da rua positivista Benjamin Constant na Glória onde o senhor X Batista botou sua dinheirama suspeita. Não bastasse o Eike, outro Batista do Eliezer está dominando o último quarteirão da rua, tem aqui uma ONG, educação infantil, que se chama Capacete. Pois bem, Capacete tem uma biblioteca em que a maioria dos livros é em alemão Diz o Sociólogo Chico Oliveira que o brasileiro é um povo cruel como o povo alemão – dá certo igual com igual. Pois é assim que se faz com a riqueza do país e o povo não sabe o que é Soberania Nacional. É um país das bananeiras com um povo ignorante que não sabe que é ignorante e se entende detentor da verdade rala, pobre. Vergonhaço, brasileiro é vergonhaço.

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