Comunicado da Vale que suspende a disposição de rejeitos em Itabiruçu tranquiliza mercado, mas deixa Itabira mais apreensiva

1
Compartilhe.

Ao comunicar que suspendeu a disposição de rejeitos na barragem Itabiruçu, que agora, juntamente com a barragem de Santana, se juntam à barragem do Pontal que passam a seguir o que dispõe o protocolo de emergência em nível 1, a empresa Vale teve o cuidado de primeiramente informar ao mercado financeiro que tomou essas medidas.

O comunicado ao mercado foi assinado pelo diretor executivo de Relações com Investidores, Luciano Siani, tendo sido enviado depois de 17h, após o encerramento do pregão da IBX-Bovespa.

No pregão dessa segunda-feira (21), a ação da mineradora fechou em alta, refletindo a recuperação do mercado chinês e sem repercutir a decisão tomada em relação ao Complexo Minerador de Itabira, fechando a R$ 47,21.

Já nesta terça-feira, o viés de alta continua, o que demonstra que o comunicado do diretor de Relações com os Investidores surtiu o efeito esperado.

“A Vale reafirma seu guidance (expectativa) de vendas de minério de ferro e pelotas de 307-332 milhões de toneladas. No entanto, em função da paralisação de Itabiruçu e pela revisão do seu plano de vendas, espera que estas se situem entre o limite inferior e o centro da faixa”, foi o que assegurou Luciano Siani no comunicado à bolsa de valores.

Para a imprensa, o mesmo comunicado foi divulgado um pouco mais tarde, chegando para este site Vila de Utopia às 17h24. Reafirma que o impacto econômico da suspensão da disposição de rejeitos na barragem Itabiruçu, que recebe material não aproveitado das duas usinas Conceição, fica limitado a este ano, com queda de produção de 1,2 milhões de toneladas (Mt).

Diz ainda que “o plano de produção para 2020 já previa a paralisação momentânea” da operação da barragem Itabiruçu.

Preocupação

Ou seja, para o mercado não há o que se preocupar. Já para a população de Itabira, diretamente afetada até mesmo pelo aumento do receio do que de fato pode estar ocorrendo nessa estrutura, a nota da mineradora foi evasiva, sem explicar o que de fato vem acontecendo.

Apenas informa que suspendeu temporariamente a disposição de rejeitos, enquanto realiza “avaliações sobre as características geotécnicas da barragem”.

Informa, sem entrar em detalhes, que durante a paralisação, por iniciativa da própria empresa, será adotado o protocolo de emergência em nível 1, que, de acordo com a Agência Nacional de Mineração, e com o respaldo da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC), não haverá a necessidade de remoção da população que vive abaixo da estrutura, na chamada zona de autossalvamento (ZAS), ou do “salve-se quem puder” em caso de rompimento da estrutura.

Itabiruçu teve a sua Declaração de Condição de Estabilidade (“DCE”) emitida em 30 de setembro de 2019, permanecendo válida mesmo após ser adotado o protocolo de emergência em nível 1, assegura a mineradora.

“A decisão de paralisar as atividades dessa barragem derivou de avaliação da própria Vale, acordada com órgãos de fiscalização externos, sobre a necessidade de realizar estudos complementares sobre suas caraterísticas geotécnicas.”

Mas a empresa não informa à comunidade itabirana que estudos geotécnicos são esses, assim como não diz os motivos que levaram a empresa a aprofundar esses estudos. Apenas afirma que os estudos serão realizados por empresa contratada pela Vale, durante o prazo de 30 dias.

Para o mercado, o comunicado informa que o impacto da paralisação na produção deste ano será pequeno, de apenas de cerca de 1,2 Mt. “Deste modo o plano de retomada da produção paralisada de aproximadamente 50 Mt permanece inalterado, conforme apresentado no Relatório de Produção e Vendas do 3T19 (terceiro trimestre deste ano).” É o tal do “guidance”.

Insegurança

Portanto, para o mercado não há o que se preocupar. Entretanto, essa mesma tranquilidade não foi passada à população de Itabira, que segue apreensiva quanto à segurança dessas estruturas.

Em resposta a este site, por meio de sua assessoria de imprensa, a Vale apenas informa que durante a suspensão temporária e preventiva da operação da barragem Itabiruçu, os rejeitos das usinas Conceição serão dispostos na barragem Conceição, respeitando as limitações de capacidade da estrutura.

E que em relação à barragem Pontal, que já há algum tempo não mais recebe rejeitos, o material não aproveitado advindo da usina Cauê está sendo direcionado para a cava da mina homônima. Dessa forma, não estão previstas férias coletivas.

A empresa, porém, nada informa sobre o que vem a ser esses estudos aprofundados sobre as características geotécnicas da barragem, que está sendo alteada para receber até 313 milhões de toneladas de rejeitos e água, conforme consta em relatório encaminhado à Superintendência de Projetos Prioritários/Supri, obtido por este site.

Leia mais aqui: http://www.viladeutopia.com.br/itabirucu-ja-comporta-2229-mm%c2%b3-de-rejeitos-e-agua-registra-a-supri-volume-so-deveria-ser-alcancado-com-o-alteamento/.

Como também até hoje a Vale não deu resposta convincente sobre as denúncias encaminhadas ao CREA-SP e à Procuradoria Geral da República sobre os problemas estruturais, descritos em estudo pelo engenheiro Antônio Carlos Felício Lambertini, publicado na íntegra por este site: http://www.viladeutopia.com.br/consultores-analisam-situacoes-de-risco-das-barragens-no-vale-do-rio-de-peixe-em-itabira/.

A empresa apenas se limitou a dizer que essas falhas foram corrigidas anteriormente ao início dessa etapa de alteamento. “O alteamento da barragem está sendo feito com a técnica mais avançada de engenharia, com um projeto bem feito e operação responsável”,  reafirmou o gerente da Vale, Rodrigo Chave, em palestra também na Câmara Municipal, em 19 de fevereiro.

“O alteamento é a jusante, diferente das barragens que romperam e das que serão descomissionadas (fechadas com controle ambiental). O alteamento irá aumentar a vida útil da barragem e haverá acréscimo em seu fator de segurança”, assegurou.

Pontal

Pontal teve nível de estabilidade alterado para o nível 1 devida a instabilidade dos diques e do cordão Nova Vista (Fotos: Carlos Cruz)

Também em palestra na Câmara Municipal, a promotora Giuliana Talamoni Fonoff, que abriu quatro ações civis públicas contra a mineradora, manifestou a preocupação com a segurança da barragem do Pontal.

A barragem já teve antecedente perigoso com o rompimento do dique 2, entre os dias 20 e 21 de abril de 2000, conforme foi apurado por este site e tornado público na reportagem: http://www.viladeutopia.com.br/joao-batista-morador-do-bela-vista-divide-parede-e-meia-com-pontal-e-teme-pelo-pior/ .

Segundo relatório apresentado pela empresa Tüv Süd, a mesma que atestou a “estabilidade” da barragem que se rompeu em Brumadinho, o dique Minervino e o cordão Nova Vista também apresentam instabilidades.

A empresa de auditoria relatou, ainda, que qualquer interferência no local pode gerar ruptura da barragem. Em decorrência, todas as obras de reforço das estruturas internas, alteadas a montante, foram suspensas – e só devem ser retornadas após o período chuvoso.

“No início, a Vale nos informou que se o dique 2 romper novamente, não causaria instabilidade à estrutura da barragem, que consegue suportar o volume. Com a avaliação da Aecom (empresa de consultoria independente contratada pela mineradora a pedido do Ministério Público), com técnica mais conservadora, chegou-se à  conclusão de que se o dique 2 romper, a água passa por cima da barragem do Pontal com onda de até sete metros.”

A promotora adiantou ainda que a auditoria ainda não concluiu se essa onda de água, e não de rejeitos, ameaçaria a estrutura da barragem, o que poderia provocar o seu rompimento.

“O dique tem de ser reforçado, mas com segurança. Se isso não for suficiente para garantir a segurança, moradores abaixo da barragem terão de ser removidos. Mas o importante é que se façam os reforços, para que isso não tenha de ocorrer.”

Segundo a promotora, “todas as demais estruturas do Pontal estão com os níveis de estabilidade certificados. Não estamos com situações de perigo em Itabira”, garantiu a representante do Ministério Público.

No Pontal existem vários diques que foram construídos com o próprio rejeito e que foram alteados à montante, que é considerado modelo construtivo menos seguro. “Com o período chuvoso a preocupação é maior”, salientou a representante do Ministério Público.

Santana

A barragem de Santana também teve a sua condição de estabilidade alterada para o nível 1, sem necessidade de remover moradores

A Vale também não informou o que levou a alterar a condição de estabilidade da barragem Santana para o nível 1. A barragem já foi utilizada no passado para conter rejeitos, mas atualmente serve apenas como reservatório de água para suprir a demanda da usina Cauê.

Com o início do período chuvoso, como ocorre todos os anos, aumenta a preocupação dos moradores de Santa Maria, cidade que está abaixo da estrutura, a cerca de 12 quilômetros.

E não é para menos, ainda mais agora com essa mudança de nível das condições de estabilidade.

Segundo informou a Vale em março de 2018 a este site, na estiagem a vazão de água a jusante da barragem é de 1,2 mil metros cúbicos por hora (m³/h). Mas com as chuvas, essa vazão chega a até 4,2 mil m³/h de água passando pelo vertedouro – um instrumento de controle da estabilidade da barragem. Leia mais aqui: http://www.viladeutopia.com.br/chuvas-fortes-deixam-santa-maria-insegura-mas-a-vale-garante-santana-e-100-segura/

“A barragem acaba servindo como ‘amortecedora’ de chuvas intensas, atrasando naturalmente a sua liberação para o rio, o que auxilia no controle da cheia.” Ainda segundo a empresa, o vertedouro tanto controla a vazão máxima no período chuvoso, como também a água que segue pelo rio na estiagem.

No comunicado de agora a mineradora não informa os motivos que levaram a alterar a condição de estabilidade de Santana para o nível 1, sem necessidade de remover os moradores de Santa Maria e de comunidades rurais.

Além disso, a Vale e a Defesa Civil de Minas Gerais ainda não agendaram o simulado de autossalvamento, que é obrigatório, para a população saber como deve proceder no caso de ruptura da barragem.

Sobre o Autor

1 comentário

  1. Cristina Silveira, A Velha sem Esperança em

    “para o mercado não há o que se preocupar. Já para a população de Itabira, diretamente afetada até mesmo pelo aumento do receio do que de fato pode estar ocorrendo nessa estrutura, a nota da mineradora foi evasiva, sem explicar o que de fato está ocorrendo.”
    Caro jornalista, me responda: por que a Vale da Morte deve se preocupar com a vida em Itabira? Itabira vendeu sua alma à Vale, portanto não tem o que reclamar, não tem DIREITOS.
    EU ODEIO A VALE DA MORTE!

Deixe um comentário