Comerciante itabirano pede intervenção militar sem medo de atentar contra a democracia

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O comerciante Geraldo “Piragiby” Menezes Cruz estendeu uma faixa na proximidade de seu estabelecimento, na rua São José, Centro, pedindo intervenção militar para limpar a corrupção que assola o país. Com isso, ele faz coro aos grupos de direita que vêm se manifestando livremente nas redes sociais pedindo o fim do Estado Democrático de Direito, o que certamente ocorrerá caso o golpe militar saia vitorioso.

Geraldo “Piragiby” pede intervenção militar e não vê contradição em ser parlamentarista: “Temer já teria caído.” (Fotos: Carlos Cruz e acervo do Estadão)

Juristas renomados têm alertado para o fato de que pedir intervenção militar pode ser tipificado como crime, conforme está no artigo 5º da Constituição Federal, que garante o direito à vida e assegura a liberdade.

Entretanto, esse mesmo artigo, em seu inciso XLIV, diz constituir “crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.

O pedido de intervenção atenta também contra a Lei de Segurança Nacional (LSN), mecanismo jurídico que foi fartamente utilizado pela ditadura ao confundir, propositadamente, interesses pessoais dos generais com a segurança da Nação. Essa lei foi reformulada em 1983, na transição da ditadura para a democracia, para assegurar a ordem e impedir que se instigue a “animosidade entre as Forças Armadas e as classes sociais ou as instituições civis”.

Ameaças à democracia

Tanque do exército aponta o canhão para o apartamento do presidente deposto João Goulart, no golpe militar de 1º de abril de 1964

A ideia maluca de pedir intervenção militar, uma ameaça que vem crescendo contra a incipiente democracia brasileira, surgiu com o general Antônio Hamilton Martins Mourão, que está na ativa como secretário de economia e finanças do Exército.

Assim como o general, Piragiby não vê crime na conduta. Para isso, ele se apega à liberdade de expressão, assegurada pela mesma Constituição que os intervencionistas pretendem suprimir.

Outro princípio constitucional que com certeza deixaria de existir com a intervenção é o direito à vida, como se observou com o extermínio de opositores pelo regime militar, que prendia e arrebentava no período que ficou conhecido como “anos de chumbo”, estendendo-se de 1964 a 1986.

“Participo de vários grupos nas redes sociais que pedem intervenção militar como forma de acabar com a corrupção no país. Nesses grupos participam generais do Exército. Eles estão dispostos a reassumir o poder para consertar o país. A intervenção ocorreria por pouco tempo, só o necessário para tirar o Temer, os seus ministros e os deputados corruptos do poder e até que ocorram as eleições de outubro”, prega Piragiby, que viveu a sua juventude sob a ditadura militar, mas se esquece que o golpe de 1º de abril de 1964 tinha o mesmo pretexto de acabar com a corrupção e com a ameaça comunista.

Segundo ele, se o país seguir como está, caminha inevitavelmente para virar uma Venezuela, diz, repetindo os mesmos argumentos do passado pré-1964, apenas substituindo a ameaça comunista pelo espectro da bolivarização do país. Bolivarismo, para os grupos de direita, virou sinônimo de comunismo, uma referência aos países da América Latina cuja política libertária é inspirada na figura de Simón Bolívar (1783-1830), político e militar venezuelano que liderou o processo de libertação da América espanhola.

“Temos que varrer a corrupção que começou no governo Lula”, prega Piragiby, para depois tentar corrigir. “Começou antes, com os governos civis”, emenda, esquecendo-se também dos casos de corrupção nos sucessivos governos militares, o que era pouco divulgado em decorrência da censura imposta aos veículos de comunicação. Casos esses de corrupção que foram revelados agora com os documentos encaminhados, entre 2014 e 2015, pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama à ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Eleições e parlamentarismo

O ex-presidente general Figueiredo com o ex-presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos. Figueiredo preferia o cheiro de cavalo ao do povo

Filiado ao Partido Social Cristão PSC), que diz ter fundado em Itabira, Piragiby acredita que a intervenção militar não impediria a realização das eleições em 7 de outubro para presidente, vice, senadores, governadores e deputados.

Ele não tem medo de os militares cancelarem as eleições e editarem medidas de exceção para perpetuarem no poder, como ocorreu com o golpe de 1964.

“Ainda não tenho candidato a presidente, mas vou escolher alguém que acabe com a corrupção e com a bagunça que vive o país, onde não há mais respeito às pessoas de bem, à família, à moral”, afirma, assegurando não ser ainda eleitor de Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

“É um bom nome, mas pode aparecer outros”, aguarda. “O Brasil clama por mudanças e por um líder que ponha ordem na bagunça, que acabe com a mamata dos políticos. Temos que ser todos caminhoneiros e peitar esse governo corrupto e desacreditado que inferniza as nossas vidas com corrupção e desmandos políticos. Estamos cansados de bancar altos salários dos políticos com o dinheiro dos impostos que pagamos”, reafirma, fazendo coro ao mantra de parte da classe média que pediu o impeachment da ex-presidente e que agora está indignada com os descalabros do presidente Michel Temer (MDB).

“Hoje os tempos são outros e a democracia será mantida mesmo com os militares no poder. O povo está consciente e sabe a força que tem nas redes sociais. Os militares com quem tenho dialogado nas redes sociais também estão conscientes e defendem que a intervenção deve ocorrer por pouco tempo, até colocar ordem na balburdia que virou o país”, repete, sem temer, e sem trocadilho, que retornem com os “anos de chumbo”, para prender, torturar e matar todos aqueles que se opõem ao poder autoritário. “Na verdade, eu sou parlamentarista. No parlamentarismo há muito tempo esse governo já teria caído”, prega Geraldo “Piragiby”.

 

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6 Comentários

  1. robinson ayres em

    O fascismo é como a tuberculose. A pessoa tem uma aparência saudável e, de repente, começa a expelir sangue, diz Umberto Eco.

  2. Estes fascistoides estão em todo lugar. São barulhentos. Mas são minoria. E na maioria das vezes, nem sabem o que estão falando. São manipulados sempre. Duram pouco. Como os que apoiaram o impeachment da Dilma. Se acabaram. Este aí é, com certeza, um deles. Tem mais: vai perder freguesia.

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