Comendo o pó que a Vale lança em Itabira

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Mauro Andrade Moura

Não bastasse a perda continuada de nossas riquezas naturais, ficamos sujeitos ao desmazelo da mineradora com a comunidade. Chegou a Itabira por imposição do ditador Vargas nos auspícios do desenvolvimento econômico da região, face à guerra contra o nazismo e o fascismo. Era a instalação da hoje famigerada mineradora Vale.

Foi aqui chegar para liquidar com os cursos d’água. Destruiu e desmantelou as bases vigentes de uma economia diversificada – Itabira chegou a ser comparada com Juiz de Fora, considerada a Manchester mineira, tamanho era o grau da diversificação de sua economia.

Com todo o seu poder de empresa que já nasceu grande, sob o beneplácito do poder estatal, mudou e liquidou com cursos d’água. Com isso, como mais um crime ambiental entre tantos, sentenciou o fim das fábricas existentes no município, a forja do Girau e as tecelagens da Gabiroba e Pedreira.

Itabira é uma pobre cidade rica. Mineração não trouxe o progresso esperado e desmantelou a economia diversificada existente anteriormente (Fotos: Mauro Moura)

1942, um ano para nunca se esquecer e com tudo que foi posto a perder. Passados 75 anos da implantação da mineração de grande porte em nossa cidade, o que ficou? Muito pouco, a Prefeitura pode ser rica, mas a população é pobre. A cidade convive com toda a desfaçatez que o poderio econômico promove.

Geração de emprego deficitária e com baixa qualificação da mão de obra, basicamente ainda garimpeira, com salários cada dia mais achatados face o desejo de auferirem grandes somas de lucros, a mais-valia absoluta. A distribuição ou repartição social da renda é impensável no atual processo de gestão econômica desta mineradora.

Incerteza da permanência desse empreendimento na cidade devia ser preocupação permanente. Como já disse Drummond, a cidade não avança e os seus cidadãos cruzam os braços e deixam a vida passar devagar, enquanto o maior trem do mundo leva a riqueza itabirana, para longe, sem que se reconheça – e se pague – pela dívida histórica que é impagável tanto pelo valor, como pelo calote que a cidade está acostumada a levar.

Obviamente e basicamente o minério só dá uma safra, mesmo que agora a empresa esteja estudando meios de extrair mais um pouco de minério de ferro nos chamados rejeitos minerais, aqueles mesmos que vazaram em Fundão e provocaram a grande tragédia humana e ambiental de nosso povo.

No limiar da mineração, e do período seco, não fossem suficientes todos os males já citados, temos, cidadãos itabiranos de todos os bairros, de conviver com o excesso da poeira que vem da mineração e que é lançada na proporção das toneladas de minério que das minas são detonadas, para cair sem dó sobre a cidade.

Já a poeira vinda da mina esbanja em quantidade, sujeira e doenças respiratórias. Vale é uma vizinha sem educação, que suja toda a cidade. E o Codema nada faz

Tudo aqui na urbe cai sem controle, sem estudos conclusivos e necessários sobre os males que ocasiona à saúde do itabirano, e sob o beneplácito dos órgãos ambientais, principalmente do Codema e da ex-Secretaria de Meio Ambiente, hoje apêndice do Desenvolvimento Urbano, e que nada fazem, nem mesmo divulgam o que recebe on line da Companhia (leia mais aqui). Afinal, tudo faz parte do tenebroso modelo de extração do minério de ferro.

Por esse modelo, que prevê o máximo de lucro, a extração do minério de ferro tem de ser feita no ritmo acelerado ao extremo e no mínimo tempo. Afinal de contas, o lucro tem sempre de ser certeiro.

Para extrair o minério de ferro no menor tempo, despreza-se as demais riquezas existentes em uma lavra mineral. A argila é menosprezada, mistura-se tudo, agrega-se também o filito, alguma mancha de manganês e outros minerais de menor quantidade que são todos botados fora, indistintamente.

Fica essa conversa mole de o minério dar uma safra só, o que é certo, mesmo que se agreguem novas tecnologias para beneficiar minérios mais pobres, tudo é parte de uma, apenas uma safra. Mas ao desprezar todos os minerais agregados, a natureza não perdoa e cobra caro pelo mau uso do que nos foi proporcionado.

Nestes dias de secura, enquanto a chuva não vem, temos de conviver com os excessos da mineradora e só nos resta comer pó. E se o minério vai exaurir, por herança atávica, a meleca itabirana será eterna por séculos e mais séculos. Essa, sim, a meleca itabirana, sobreviverá à mineração.

 

 

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5 Comentários

  1. cristina silveira on

    E agora José. Este poema tem história…
    Meu querido camarada, 75 anos é quase sem 100, é certo que data é marca pra história, mas na vida real é um tempo que se constrói renomes e patrimônio, então é muito tempo. Um século de espoliação, de céu sujo. Até quando?
    Ontem Mauro, o grupo de artistas denominado 342 Agora sobre a batuta da produtora Paula Lavine foram pra Candelária-Cinelância manifestar Fora Temer (mote que já se tornou intolerável, eu não brado mais Fora Temer). A palavra de ordem era “Inadmissível” com a presença do grupo de maracatu Baque Mulheres que encheu a praça de alegria. Tudo arrumadinho, produção profissional. Artistas e o povo do Leme ao Leblon, Presentes. Mas a pequena burguesia também foi escorraçada da praça do povo de maneira mais suave do que das outras manifestações, foram apenas duas bombas de gás e não houve resistência, embora muitos jovens exibissem cartazes “Vem pra Luta Armada” a evasão foi rápida nos carros com motorista particular.
    Estamos perdidos, sem perspectiva histórica de democracia e civilidade, teremos mais 75 anos de trabalho escravo e outras indecências mais. E a pequena burguesia rosna ignorâncias, desinformação e arrogância contra OS VERMELHOS. Nojo desta gente que é capacho das elites e se torna medíocre adormecida em berço esplendido. Que vão catar coquinho enquanto nós vamos pra rua garantir um pouco de dignidade pra no futuro os filhos e netos dessa gente cheirosinha, branquinha e ignorante até a medula, possa comparar as ações deste presente que é o futuro deles. Imagine o Michelzin repassando a história do papai?
    É isso ai caro camarada continue usando as palavras, como fez o Aníbal em toda a sua vida, contra os arbítrios da poderosa Mãe do Povo itabirano e Vale do Aço. E VIVA A REVOLUÇÃO!!!
    Cadê o Mapa Poético que você deveria publicar?
    beijoca

  2. Cristina Silveira on

    mauro, pardon pelos erros dos verbos no espaço anterior. Pode dar nota Zero.
    Agora me lembrei que Itabira ou é blindada ou ignorada: Getúlio Vargas esteve em Governador Valadares e não a Itabira – a ex-presidente vargas. E agora a Caravana Lula Pelo Brasil – quando o povo é presente, o Lula vai a Valadares mas não vai dar um pulinho em Itabira. Por que será? blindagem ou falta de povo curioso? Não emendo a minha opinião porque eu seria esculachada e hoje tenho dor de cabeça. Que Horas São?
    Viva Você Mauro, Viva Eu e o Rabo do Tatu…

  3. Margarida Castro on

    Mauro,

    Texto amargo e cinzento da sua, nossa Itabira. E agora que as reservas de ferro estão esgotadas,qual a aposta da cidade na formação de mão de obra para a área tecnológica?

  4. Cristina Silveira on

    Pois é Margarida, o povo não quer pensar, vive alienada diante a TV, ouvindo mentiras da Globo, da Band e indecências no SBT. Eu, quando vejo TV, pasmem amigos meus, vejo a TV Aparecida; a santa pretinha tão brasileira. Os governos do PT, depois da descoberta do pré-sal, maior reserva de petróleo do século 21, fez a lei de partilha para garantir ao futuro não só de exportação de commodities, mas de saber, de conhecimento e tecnologia, mas os golpistas tomaram conta e agora tentam vender os conteúdos nacionais como se fosse bijuteria. É um escracho de país. Vergonhaço

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