Com a estiagem, queimadas e poeira degradam a qualidade do ar, aumentando as doenças respiratórias em Itabira

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O tempo não está para céu de brigadeiro neste período de estiagem que se arrasta desde abril e que pode se estender para além de meados de outubro. É quando a umidade relativa do ar cai para cerca de 10%, sendo que a condição aceitável é entre 40% e 60% – e as queimadas e incêndios florestais proliferam por onde há mato seco.

A estiagem deste ano, segundo o tenente Marlon Pinho Medeiros de Aguiar, comandante do 6º Pelotão do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, com sede em Itabira, já se assemelha com a de 2017, considerada a mais prolongada e severa dos últimos 100 anos. “Já no ano passado, a estiagem foi mais branda, começou a chover em agosto”, ele recorda.

Na sexta-feira (13), a fumaça tomou conta de Itabira, como na região do bairro Gabiroba. No bairro Pará (no destaque), um incêndio em área da Vale por pouco atingia residências no Capim Cheiroso (Fotos: Carlos Cruz)

Para este ano, a previsão é de que o período chuvoso só terá início a partir de meados de outubro. E o prognóstico do que pode ocorrer nos próximos dias, em relação às condições do tempo e à qualidade do ar, não é otimista. É que as queimadas e os incêndios florestais seguem num crescendo na medida em que o tempo e o mato ficam mais secos.

“Estamos hoje vivendo o ápice da estiagem”, considera o tenente Medeiros. Os números de atendimentos realizados pelo Corpo de Bombeiros confirmam o prognóstico sombrio para o tempo na região abrangida pelo 6º Pelotão, que atende 18 cidades, com efetivo de 33 militares.

Só em Itabira, a estiagem começou com quatro ocorrências no mês de abril, com igual número em maio, registrando uma média de 1,5 atendimentos diários nos meses seguintes. Em julho foram feitas 48 saídas para apagar fogo em áreas próximas ao perímetro urbano de Itabira.

A partir daí os números dispararam, mas o Corpo de Bombeiros ainda não fechou os relatórios dos meses de agosto e setembro, o que só de deve ocorrer no início de outubro.

Causas e efeitos

Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados/ Dia seguinte./ O ranúnculo da esperança não brota./ No dia seguinte. /A vida harmoniosa não se restaura. /No dia seguinte./O vazio da noite, o vazio de tudo. /Será o dia seguinte.” – Carlos Drummond de Andrade, em Mata Atlântica, AC&M (Foto: Luiz Claudio Marigo)

“Existe estudo cientifico que demonstra que até uma guimba de cigarro pode provocar fogo em mato seco. Mas a maioria das queimadas e incêndios florestais é provocada pela ação antrópica”, diz o tenente Medeiros.

Ou seja, é causada pelo homem, seja deliberadamente ou por descuido ao promover uma queimada na roça, mesmo que seja autorizada pelo órgão ambiental.

O comandante do Corpo de Bombeiros avisa que a situação deve piorar nos próximos dias, na medida em que se aproxima o período chuvoso. É quando sitiantes e fazendeiros começam a fazer queimadas para preparar terreno para plantio e ou renovação de pastagens.

Esse procedimento arcaico e muito condenado na lavoura é aceito pela legislação, desde que tenha autorização concedida pelo órgão ambiental, no caso o Instituto Estadual de Florestas (IEF). A licença é concedida com as recomendações necessárias, como a abertura de faixa de terra limpa (aceiros), delimitando a área a ser queimada.

Mas a maioria das queimadas é feita sem essa autorização ambiental – e não raro se perde o controle e atinge até mesmo áreas ambientalmente protegidas, como parques, reservas legais e particulares (RPPNs).

Piromaníacos

Com baldes, morador tenta debelar o fogo que se aproxima das residências no Capim Cheiroso

Já no perímetro urbano as queimadas geralmente ocorrem em lotes vagos – e são também provocadas por quem deliberadamente, e criminosamente, atiça fogo no mato seco. “São os piromaníacos, aqueles que sentem prazer em ver o mato pegar fogo”, classifica o tenente Medeiros.

Foi o que ocorreu na sexta-feira (13), em uma área da Vale na região da barragem de Chacrinha, no bairro Pará. O fogo, segundo os moradores, foi provocado por jovens da própria região. Com o mato seco, as chamas rapidamente se aproximaram das residências.

O Corpo de Bombeiros foi chamado para combater o fogo, mas naquele momento estava com a equipe atendendo a um incêndio em residência no município de São Gonçalo do Rio Abaixo.

Além das fuligens e das labaredas que chegaram a ameaçar as residências, a fumaça invadiu o interior das casas vizinhas, obrigando os moradores saírem para a rua em busca de ar menos poluído – uma missão que se revelou quase impossível, pois toda a atmosfera estava carregada e rarefeita.

Doenças respiratórias

Tudo isso, somado com a poeira contendo partículas de minério em suspensão, tem prejudicado a qualidade ambiental e a saúde dos moradores, principalmente dos que sofrem com doenças respiratórias (rinite, faringite, sinusite, congestão nasal).

Além desses danos à saúde humana, as queimadas provocam mais estragos à natureza, pois matam os micro-organismos que vivem no solo, destroem florestas e matas ciliares.

Com a queima da vegetação, as micropartículas de fuligem levadas pelo vento se espalham pelo ar. E elas chegam à cidade, carregadas de elementos tóxicos (monóxido de carbono e o dióxido de enxofre).

Vale diz manter equipes de combate às queimadas e que faz controle da poeira

RPPN Mata de São José: floresta de preservação permanente

De acordo com a assessoria de imprensa da Vale, somente entre os dias 9 e 15 deste mês foram registradas oito ocorrências de incêndios florestais em áreas que são mantidas e preservadas pela mineradora em Itabira.

No total, a empresa dispõe de 14 mil hectares entre reservas legais, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), áreas de minas e barragens no município.

Para o controle de queimadas, a assessoria de imprensa diz que a empresa conta com equipe de profissionais capacitados, formada por nove brigadistas. Entre eles, estão seis guardas florestais que fazem o monitoramento diário, atentos aos sinais de fumaça em pontos estratégicos da cidade, “estando sempre de prontidão para atuação em caso de necessidade”.

“Quando necessário, o Corpo de Bombeiros Militar é acionado em caso de ocorrências de grandes proporções”, afirma a empresa por meio da nota enviada à redação deste site. Para isso, diz manter convênios com o Estado e também com organizações não governamentais (ONGs), no caso, a Associação Mineira de Defesa Ambiental (Amda), que comanda as operações das brigadas de incêndio na região do Quadrilátero Ferrífero.

Particulados

Poeira nas minas da Vale aumenta com o tempo seco e ventos fortes, invadindo a cidade e as vias respiratórias do itabirano (Foto: Sossó)

Quanto ao combate à poeira, a Vale informa que faz, permanentemente, a aspersão de água em suas áreas operacionais e nas vias de acesso às minas, por meio de caminhões-pipa.

Emprega também nebulizadores instalados em pontos estratégicos para diminuir a emissão de poeira sobre a cidade, além de garantir as condições de tráfego de veículos nas vias de acesso às minas e nas demais áreas operacionais.

Informa que é feita ainda a aspersão de polímeros nos taludes expostos. “Além disso, em áreas expostas sem previsão de operação são realizados plantios para a contenção de particulados (poeira).”

A mineradora mantém, em Itabira, a Rede Automática de Monitoramento da Qualidade do Ar, composta por cinco estações. “Quatro delas monitoram qualidade do ar e uma delas é meteorológica, sendo seus dados consolidados conforme estabelece a Resolução Conama 491/2018.”

Os dados são coletados a cada hora pelas estações de monitoramento. E são recebidos simultaneamente pela Vale, Secretaria de Meio Ambiente/Codema e Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

Entretanto, esses dados somente são divulgados nas reuniões mensais do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema). Para que sejam conhecidos em tempo real, a reivindicação é para que passem a ser divulgados por meio do recém-criado portal eletrônico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

 

 

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