Chorographia Mineira – Município e Comarca de Itabira

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Mauro Andrade Moura

Revisão – 7ª parte

A Chorographia Mineira, da parte de Itabira, foi-nos legada pelo Monsenhor Júlio Engrácia nos idos de 1897 como correspondente do “Archivo Mineiro”.

Cidade – Sua posição – História

Sequência

“A cidade tem, nominalmente, grande número de ruas fantasiadas pelas diversas edilidades, que, como em toda a parte, de quando em vez, divertem-se com essas variedades; mas o povo rotineiro vai continuando a chama-las por seus primitivos batismos, esquecendo-se facilmente das placas legais. O povo as denomina: de Santana, do Hospital, do Rosário, dos Padres, Direita, do Bongue, das Flores, de Baixo, do Corte, de S. José, de Sto. Antônio, d’água Santa, da Saúde, de Traz, do Pará, dos Monjolos, do Cascalho – dos Porcos – Bairros da Praia – do Campestre, do Areião, do Caminho Novo e Bom jardim.”

Deste costume do século XIX ainda mantemos firmes no século XXI, com os vereadores fazendo as suas homenagens. Veja alguns nomes populares de batismos para nossas vias públicas e as designações oficiais:

-do Hospital é a Rua Major Paulo, em homenagem a este grande cidadão, português de nascença, que adotou Itabira e foi o primeiro presidente da Câmara, atual prefeito municipal. Major Paulo foi o fundador das Forjas do Jirau, que iniciou as suas atividades em 1816 logo após sair a autorização de D. João VI, permitindo a exploração do minério de ferro nas colônias portuguesas em 1815. Constatando bem na esquina seu antigo Sobrado defronte à igrejinha do Rosário;

-do Rosário é a Praia do Rosário, passando pelo adro da igrejinha do Rosário e findando ao fundo dessa mesma rua. Nesse local existia um córrego que hoje foi coberto para facilitar a circulação das pessoas e veículos;

-dos Padres era assim chamada por ali viver os padres paroquianos. Posteriormente passou a ser chamada legalmente por Major Lage. Ilustre itabirano, o Major Joaquim da Costa Lage foi o primeiro juiz de órfãos e o segundo presidente da Câmara da Vila de Itabira do Mato Dentro. Foi o maior acionista da Sociedade Nova de Mineração (citada aqui em artigo anterior), que era proprietária das datas minerais que conhecemos hoje em dia por Camarinha/Minas do Meio/Borrachudo/Serra do Esmeril, Penha e Minas do Campestre, que passou a ser denominada como Pico do Cauê, já extinto. Major Lage tinha naquela rua o Sobrado onde vivia. Nesse mesmo sobrado hoje residem seus descendentes;

-Direita, como tradição no mundo português era a rua que estava à direita da igreja matriz. Essa Matriz, entretanto, é a igreja da Saúde. E temos a atual rua Tiradentes renomeando a antiga rua Direita em homenagem ao Mártir da Inconfidência Mineira;

-do Bongue, é a rua que tem início na rua Tiradentes/Paredão e finda-se no Castelinho. O nome é uma grata homenagem ao autor dessa obra de referência histórica, a Chorographia Itabirana. Sim, o nome legal da rua do Bongue é Monsenhor Júlio Engrácia;

Guarda-Mór Custódio Martins da Costa (Imagens extraídas do Livro Amador Bueno, o aclamado na família alagoana, de Pedro Maciel Vidigal, editado pela Imprensa Nacional, em 1945 (Acervo: Mauro Moura). No destaque, antiga rua Benjamin Constant, atual Alexandre Drumond (Foto: Miguel Bréscia) 

-das Flores, carrega em sua história a honra de ter nascido ali o nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade, em um belo Sobrado demolido pela especulação imobiliária e onde foi erguido um horrendo edifício que já nem me lembro o nome. A rua das Flores atualmente tem o nome de outro grande itabirano, Guarda-Mor Custódio Martins da Costa, dita resumidamente por “Guarda-Mor Custódio”, tendo vivido ali esse ilustre cidadão. O seu antigo Sobrado hoje leva o nome de “Casa do Brás”, em homenagem ao nosso primeiro e exímio fotógrafo Brás Martins da Costa, filho de Guarda-Mor Custódio;

-de Baixo ainda prossegue sendo assim chamada por itabiranos com um pouco mais de idade ou por outros que se acostumaram assim designá-la por herança paterna. A rua de Baixo atualmente tem o nome legal de rua Nove de Outubro em homenagem ao dia da elevação de Itabira a cidade em 1848;

-da Saúde atualmente tem o nome do bispo Dom Prudêncio Pereira, resumidamente Dom Prudêncio. O bispo viveu algum tempo em uma casa a meio da rua e acima da igreja da Saúde, tendo já sido demolida por partilha familiar de herdeiros de outro itabirano que ali viveu;

-do Pará, continuação da rua da Saúde/Dom Prudêncio, dividida em dois níveis por ruas Ipoema e Dr. Grisolia, sendo esta em homenagem ao antigo médico e prefeito Dr. José de Grisolia e aquela ao distrito de Ipoema que inicialmente era denominado por Aliança;

-dos Monjolos, antiga data mineral de Gonçalo Roiz (Bragança), local em que ele dotou com monjolos d’água para quebrar e moer as pedras cangas e com isso facilitar a extração do desejado mineral dourado. Atualmente esta rua tem o nome de avenida Cristina Gazire;

-do Cascalho, nome bem dado a uma rua tal é a cascalheira que nela existia. Apesar de já estar praticamente toda ocupada por residências e edifícios, dá para perceber a sua formação geológica. Atualmente é denominada Rua Padre Ângelo, em homenagem a antigo pároco da matriz da Saúde;

Dos antigos bairros que ainda são chamados pelo nome popular, temos:

-do Areião, do qual restou somente a rua Areião, legalmente tem o nome de Américo Gianneti e que por um tempo fora chamado de Major Lage de Cima, devido a ligação com o Bairro Major Lage;

-do Caminho Novo, inicialmente assim denominado devido ao caminho novo que ligava a cidade à fábrica de tecidos da Gabiroba. Conforme nos lembra o memorialista José Martins Cruz, havia muita dificuldade para subir o morro com a tropa de burros carregada de algodão em direção à fazenda da Gabiroba e, tendo sido aberto este novo caminho, nada mais prática que a denominação de Caminho Novo. Legalmente este bairro homenageia nosso ilustre Major Lage, com pequena citação referencial acima, considerando também que aquelas terras do Caminho Novo e da Gabiroba pertenceram ao ilustre itabirano.

Continuando com o Monsenhor Júlio Engrácia:

“Essas denominações têm origens ou de edifícios locais, ou de fatos tradicionais. A d’água Santa é assim chamada por ter uma água a que atribuem virtudes medicinais; é morna, parece conter soda e cal; é banho frequentado de todos e geralmente apreciado, não obstante faltarem-lhe as comodidades próprias. Tem bons edifícios, todos de madeira, mas sólidos e bem cuidados tanto no exterior como no interior.”

Vejam bem, o Monsenhor Engrácia citando existir no início da rua Água Santa o Poço com água termal, aquele mesmo que eu, primos, pai, tios e muitos vizinhos e outros que ali chegavam para aproveitar desta preciosidade e tomar um bom banho. Erroneamente, e sem respeitar a tradição do lugar que nunca foi santo, instalaram ali uma imagem de santa, apesar da contestação de alguns e a matéria jornalística deste site Vila de Utopia. Leia mais aqui e aqui.

Tenente-coronel Carlos Casemiro da Cunha Andrade e família

Das casas de madeira, o mais correto seria dizer pau-a-pique, taipa ou enxamel, quase nada restou. A maioria foi demolida em prol do “progresso”, outras estão com as suas fachadas totalmente desfiguradas, uma ou outra preservadas como antes e pelo menos duas que foram reconstruídas mantendo as suas fachadas e cores originais.

“Existem 2 cadeiras de ensino primário para o sexo masculino e 2 para o feminino. Possui somente um estabelecimento de ensino secundário, o Instituto Agrícola, dirigido pelo eminente sábio especialista Dr. Carlos Brunnemann.”

Essas duas cadeiras escolares posteriormente foram sendo substituídas por escolas primárias públicas e as colegiais. Por volta de 1920 o Gynásio Sul Americano, já extinto, e o Colégio das Irmãs das Dores, em plena atividade educacional.

Infelizmente e indevidamente por questiúnculas políticas, o Instituto Agronômico teve curta duração, apesar da capacidade dos professores que ali ministravam as aulas. Atualmente no local funciona a Fazenda Bethânia, que presta assistência social e educacional aos moradores do Bairro da Pedreira do Instituto (Agronômico).

“Existem duas oficinas tipográficas, uma de propriedade particular, denomina-se Cidade de Itabira e publica um semanário com o mesmo nome; outra da Câmara Municipal denomina-se, Correio de Itabira, também publica um semanário do mesmo nome.”

Interessante citar que em finais do século XIX em Itabira havia dois jornais semanários e em finais do século XX chegou a ter um diário e pelo menos quinze mensários. Estes antigos jornais estão guardados no Arquivo Histórico de Itabira e carecem urgentemente de serem digitalizados, devida à fragilidade do papel em que foram impressos, considerando ainda a história e os fatos relevantes que registraram.

“Ao presente existe um médico único, o bem conhecido Dr. Domingos Martins Guerra, cujo nome honra a Itabira. Tem quatro farmácias bem montadas, laboradas por farmacêuticos formados pela escola do Ouro Preto.”

Doutor Domingos Guerra

Dr. Domingos Guerra formou-se médico na Escola de Medicina do Rio de Janeiro em meados do século XIX. Na altura, ele prescreveu que deveriam remover o morro do Castelo a fim de eliminar os focos de mosquitos e assim diminuir a febre amarela que assolava a capital do império brasileiro. Esta receita prescrita por nosso conterrâneo posteriormente foi atendida e o morro removido após a campanha do glorioso Dr. Oswaldo Cruz.

Dr. Domingos Guerra foi grande empreendedor, tendo sido um dos fundadores da fábrica de tecidos da Gabiroba. Depois ele se associou à Maria Casemira Andrade Lage e o irmão mais novo dela, o Tenente-coronel Carlos Casemiro da Cunha Andrade, para abrirem a fábrica de tecidos da Pedreira.

Constatando ainda que essa terra da fábrica da Pedreira era uma subdivisão da Fazenda Bethânia citada acima e retirava a água para mover sua turbina hidrelétrica da Fazenda Palestina. Ambas fazendas eram uma subdivisão da sesmaria do avô paterno da Maria Casemira e Carlos Cassemiro, que pertenceu a Francisco Joaquim de Andrade.

Fábrica da Fábrica fundada pela empresária Maria Casemira

Maria Casemira Andrade Lage, bem conhecida como Tia Nicota, é figura central em matéria jornalística aqui no site Vila de Utopia.

As duas fábricas de tecidos de Itabira, Gabiroba e Pedreira, funcionaram por várias décadas promovendo o progresso e gerando milhares de empregos em Itabira, seja diretamente nas fábricas ou indiretamente na produção do algodão nas fazendas da região.

Ambas sucumbiram pelo atual drama de Itabira, pela disputa da água que atualmente volta a se acirrar frente à demanda para o uso humano ou pelo extremo uso da mineração de ferro.

Infelizmente a grande mineradora de ferro vem sobrepondo o seu interesse econômico, ganhando, mais uma vez, essa disputa pelo uso da água, bem natural e vital a nós humanos.

 

Segue…

 

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2 Comentários

  1. Margarida Castro em

    Mauro Moura,

    Muito interessante esta revisão da Chorographia Mineira de Itabira.e a referência aos antigos nomes das ruas. Viajamos e Itabira fica mais próxima. Parabéns!

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