Chacrinha, o Velho Guerreiro, é alvo de homenagens no seu centenário

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Lenin Novaes*

“Quem não se comunica se trumbica”

“Alô, d. Maria, seu dinheiro vai dar cria”

“Na TV nada se cria, tudo se copia”

 “Eu vim para confundir, não para explicar”

Creio que os leitores da Vila de Utopia, televisivos até a metade dos anos 1980, sabem que os bordões acima eram alternados durante o programa Cassino do Chacrinha, aos sábados, pelo apresentador José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, também chamado de Velho Guerreiro, a partir da homenagem a ele feita pelo cantor, compositor e músico baiano Gilberto Gil, no samba “Aquele abraço”.

Natural de Surubim, interior de Pernambuco, nascido em 30 de setembro de 1917, ele morreu no Rio de Janeiro em 30 de junho de 1988, aos 70 anos, devido a infarto e insuficiência respiratória, além de câncer no pulmão. Com a maneira peculiar de apresentar o programa, ele mudou o conceito estrutural e cênico da televisão, contando com jurados de apoio como Elke Maravilha, Pedro de Lara, Rogéria, Aracy de Almeida e Carlos Imperial e buzinando junto ao ouvido de calouros e jogando à plateia abacaxi e bacalhau.

Também no cenário do apresentador vestido de roupas coloridas e brilhosas dançavam as chacretes, trajando maiô e fazendo coreografias ensaiadas para animar ainda mais o programa. Algumas das dançarinas receberam apelidos marcantes, como Índia Amazonense, Suely Pingo de Ouro, Vera Furacão, Índia Potira, Fátima Boa Viagem, Fernanda Terremoto e Rita Cadillac agitando a imaginação de telespectadores. Rita Cadillac virou atriz de filmes pornô, atuando em “Puro desejo”, junto com Alexandre Frota; “Fogosas e furiosas”, “A vez de Cadillac” e “Sexo no salão”. É a favorita dos presídios por fazer shows sensuais para divertir os prisioneiros Brasil afora.

Atividades das mais variadas em homenagem a Chacrinha já começam e irão se estender até o próximo ano, quando se completará 30 anos de sua morte. Além do programa de TV, com o ator e deputado federal Stepan Nercessian (PPS) no papel de Chacrinha; a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio (agremiação da Baixada Fluminense que tem a atriz Juliana Paes como rainha de bateria) vai desfilar no Carnaval de 2018 com o tema “Vai para o torno ou não vai”. A imagem de Chacrinha estampará medalha da Casa da Moeda e o filho Leleco Barbosa anuncia a produção de filme sobre a vida do apresentador.

Cassino do Chacrinha

Chacrinha e as Chacretes, quem sabia realmente fazia história (Foto: acervo Lenin Novaes)

José Abelardo ganhou o apelido de Chacrinha devido à atividade numa rádio em uma chácara no Município de Niterói, então capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, no início da década de 1940. E foi por acidente de percurso que ele desembarcou no Rio de Janeiro, quando viajava do Recife para a Alemanha no navio Bagé, como integrante do conjunto Bando Acadêmico, e explodiu a Segunda Guerra Mundial. Ele foi aluno de Medicina, mas deixou os estudos depois de acometido por apendicite supurada e gangrenada.

Foi no programa Rancho Alegre que estreou em televisão, na TV Tupi, fazendo também o programa Discoteca do Chacrinha. Depois foi para a TV Rio, transferindo-se para a TV Globo, em seguida. Retornou à TV Tupi, alguns anos depois. Foi contratado pela TV Bandeirantes, em 1978 e, em 1982, voltou à TV Globo. No comando do Cassino do Chacrinha lançou sucessos como “Coração de luto”, de Teixeirinha (a música tocou tanto que ganhou a alcunha de “churrasquinho de mãe”); “Estúpido cupido”, da cantora Cely Campelo, entre dezenas de outras.

Na extensa relação de artistas que tiveram aparição no programa – o mais popular de todos os tempos – estão Fábio Júnior, Roberto Carlos, Grupo Fundo de Quintal, Titãs, Marina Lima, Gal Costa, Elis Regina, Jair Rodrigues, Ed Lincoln, Eliana Pittman, Vanusa, Roberto Leal, RPM, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Evandro Mesquita, Gretchen, Agepê e Simone, entre outros.

Aquele abraço

No samba “Aquele abraço”, Gilberto Gil homenageia Chacrinha, cunhando o apelido de Velho Guerreiro, entre outras referências ao Rio de Janeiro. Ele conta que “meses depois de solto, eu vim ao Rio tratar da questão da saída do Brasil, com o Exército. Na manhã do dia da minha volta para Salvador fui visitar a mãe de Gal; lá, na casa dela, eu idealizei e comecei a compor “Aquele abraço”. Finalmente eu ia poder ir embora do país e tinha que dizer ‘bye bye’; sumarizar o episódio todo que estava vivendo, e o que ele representava, numa catarse. Que outra coisa para um compositor fazer uma catarse senão numa canção? No avião eu terminei a música, escrevendo a letra num papel qualquer, um guardanapo, e mentalizando a melodia. Tanto que é uma melodia muito simples, quase de blues. Como eu não dispunha de instrumento, tive que recorrer a uma estrutura fácil para guardar na memória. Quando cheguei à Bahia, eu só peguei o violão e toquei; já estava comprometido afetivamente com a canção”.

O artista recorda da saudação ‘Aquele abraço, Gil!’, “que era assim que os soldados me saudavam no quartel, com a expressão usada no programa do Lilico, humorista em voga na época, que tinha esse bordão. Ele até ficou aborrecido com a música; achou que deveria ter direito à canção. Mas eu aprendi a saudação com os soldados. Eu não tinha televisão na prisão, evidentemente, mas eles assistiam ao programa. Só vim a ver depois, quando saí da prisão.”

Não foi no quartel de Realengo que Gil e Caetano ficaram presos, e, sim, no de Marechal Deodoro. “De todo modo, diz Gil, a ideia em “Aquele Abraço” era citar um local qualquer da Zona Norte do Rio (onde ficamos), um daqueles beira-estrada-de-ferro. E Realengo é um deles. Uma associação inexata, feita por aproximação; eu nem queria me referir ao lugar certo onde havia ficado preso”.

Segundo o artista “é uma canção de quarta-feira de cinzas, com o reencontrar da cidade do Rio na manhã em que nós saímos da prisão e revimos a Avenida Presidente Vargas ainda com a decoração de Carnaval foi o pano de fundo da canção. Na minha cabeça, “Aquele Abraço” se passa numa quarta-feira de cinzas; é quando o ‘filme’ da música é em mim mentalmente locado”.

Composta e lançada em 1969, “Aquele Abraço” é considerada um “hino de despedida” do cantor. Menciona bairros, clubes, escolas de samba e figuras cotidianas do Rio, além de uma referência velada ao lugar onde ficou preso na frase “alô, alô, Realengo”. Ele visava despedir-se do país elogiando suas belezas e criticando seu pior aspecto: o início dos anos de chumbo e a ditadura militar. Confira “Aquele abraço”:

“O Rio de Janeiro continua lindo/O Rio de Janeiro continua sendo/O Rio de Janeiro, fevereiro e março/Alô, alô, Realengo/Aquele abraço/Alô torcida do Flamengo/Aquele abraço/Chacrinha continua/Balançando a pança/E buzinando a moça/E comandando a massa/E continua dando/As ordens no terreiro/Alô, alô, seu Chacrinha/Velho guerreiro/Alô, alô, Terezinha/Rio de Janeiro/Alô, alô, seu Chacrinha/Velho palhaço/Alô, alô, Terezinha/Aquele abraço/Alô, moça da favela/Aquele abraço/Todo mundo da Portela/Aquele abraço/Todo mês de fevereiro/Aquele passo/Alô Banda de Ipanema/Aquele abraço/Meu caminho pelo mundo/Eu mesmo traço/A Bahia já me deu/Régua e compasso/Quem sabe de mim sou eu/Aquele abraço/Pra você que me esqueceu/Aquele abraço/Alô Rio de Janeiro/Aquele abraço/Todo o povo brasileiro/Aquele abraço.”

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É assessor de imprensa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

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