Café amargo

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Rafael Jasovich*

A maioria dos meus amigos tinha a mesma dúvida: por que ele gosta de tomar cafés sem açúcar? “Isso despertou a idéia de escrever sobre, e de como a bebida entrou na minha vida, até o momento que comecei a degustá-la pura, amarga.

Aprendi a gostar do cafezinho com os pais e avós, não pela bebida, mas pelo momento prazeroso que ela proporcionava. Minha avó descendente de romenos preparava seu café chamado “a La turca” com um pó ultrafino num jarrinho de cobre, sem açúcar com muita borra no final e amargo.

E, carrego isso em mim até hoje, mesmo no trabalho.  Jornalista atribui uma grande relação à profissão e o grão. O café proporciona todo um clima que favorece na concentração dos textos, podendo até ser como fonte de sensações inspiradoras.

O cheiro fumegante sempre me trouxe a sensação de bem estar. O aroma dos grãos torrados resgata sobre mim lembranças, em que o apreciar de um café era tratado como ritual da família.

Aquele momento em que todos degustavam, a cafeína me fascinava.

A balbúrdia de começo não passava agora de respirações, prevalecendo o silêncio. Poucos gestos se davam à mesa, apenas um simples sopro, a troca de olhares e um sorriso maroto. Tilintares das colheres soavam como partitura. Eles apreciavam o momento. Saboreavam o presente.

Contemplando deste momento várias vezes, aprendi aos poucos como apreciar uma boa caneca, e já pelos meus nove anos eu os acompanhava à mesa. Sentia-me um adulto prematuro, mas claro, era mais açúcar do que o próprio conteúdo do que eu bebia. Meu paladar ainda não era lá simpatizante do Senhor Amargo, este que só veio a ser tornar meu melhor amigo aos 15 anos.

Na adolescência não demorei muito para praticar o bullying. Afastar do pobre açúcar os meus goles diários. Motivo de ensinamento dado pelos meus pais, em que certa vez ao tomar café junto à mesa, percebi que sequer tocaram no açucareiro, causa de indagação.

No ato, fiz cara de reprovação com certo desgosto, mas antes mesmo que a xícara queimasse meus dedos, eles me responderam:
-O verdadeiro sabor não precisa ser adoçado.

Aquela frase ficou impregnada durante meses, era como um pó de café jamais coado e do qual eu bebia. Eu tomava algo falso, me questionava.

Preparei psicologicamente para o real sabor do café. A verdade estava prestes a vir à tona. A caneca se aproximava lentamente, meus olhos vidrados e eu pensava:

– Mente aberta, você consegue. É apenas um amargo. O que pode ser de tão ruim?

O café me venceu, e foram vários os nocautes ao ponto das cuspidas se tornarem um esporte. Só faltava a mira. Se ao menos as manchas sobre a toalha branca fossem arte, seria um renomeado artista conceitual.

Passado o esporte e da arte borrada sobre os panos, decidi que era a hora de ingressar na faculdade, e parar de apreciar somente o café dos outros. Recorri para a química, e logo me perguntei:
-Como fazer café? Tantos dilemas…

Era como coar no escuro. Mergulhei inúmeras colheres de pó, e só cessei quando meu instinto barista instigou algo. Pudera eu dizer que a minha primeira experiência fosse um sucesso. Estava longe disso. Rotular como veneno de rato seria o mais apropriado. Logo percebi que o processo artesanal não seria o mais adequado. Viva a cafeteira elétrica!

Grãos moídos passaram, e o conseguir saborear do amargo, esteja nas barras de chocolate ou acompanhado do bom cappuccino, se tornara um deleite. O adoçar tornou-se lenda.

O café aguçou das minhas percepções sobre aqueles que transitam sob meu olhar, mas não me refiro às xícaras, e sim às pessoas.

Café amargo, longas divagações com o olhar distante e começar a escrever é uma tarefa diária.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

Foto: Reprodução/Google

 

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. MOISES DAMIAO DE SOUZA on

    Muito boas lembranças me trazem esse texto, mas só consigo abrir mão, de leve, do açúcar, quando em viagem nas paradas das rodovias ou dentro do trem Minas a Vitória.

  2. Cristina Silveira on

    Que texto bão. Amo café. Meu bisavô plantava café. A mãe de minha mãe e as irmãs de minha mãe tradicionalmente mantinham no enxoval de noivas um jogo completo pra cozinha, bordado com ramos de café; eu tenho um conjunto, já modernizado com capinha pra bujão de gás feito pela mãe de minha que alimentava o meu casamento, mas felizmente nunca me casei, nenhum homem a não ser o meu pai pagou minhas contas de café e tabaco.
    Rafael, você escreve forte como um bom café…

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