Brincando com fogo. “E daí?”

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Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*

BDM

No dia em que o Brasil ultrapassa cinco mil mortos pela Covid-19, com 474 mortes confirmadas em 24 horas, sem contar a subnotificação dos casos, no dia em que Trump adverte para o “sério surto” no Brasil, que poderá levar os EUA a medidas de restrição aos brasileiros que voam para lá, o presidente Bolsonaro debocha e se irrita com os repórteres: “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”.

A condução da pandemia do coronavírus no País não tem paralelo no mundo Civilizado. Não é apenas trágico e triste e revoltante, é também o retrato de um governo que não merece a confiança do investidor.

Paulo Guedes pode ter engavetado o programa Pró-Brasil, ter derrotado a bomba-fiscal da Câmara, pode ter conseguido congelar o salário dos servidores, mas será muito difícil trazer “bilhões em investimentos”.

Toda a retórica do governo Bolsonaro está se provando de fachada.

O ministro Guedes fala para o mercado, que prefere ouvir isso a uma guinada populista da política econômica. Já Bolsonaro está pouco se importando com a imagem que tem fora dos 33% de sua base eleitoral.

Tudo o que faz e fala é para essa parcela da população, que garantirá a ele a vaga no segundo turno em 2022.

Por pura birra, trocou o ministro da Saúde bem no meio da pandemia, provocou a demissão do personagem anticorrupção, trocou cargos por apoio do Centrão e nomeou o amigo do filho para comandar a PF.

A sucessão de crises, porém, não teve consequências. Se o Datafolha estiver certo.

Sem clamor popular não há impeachment e os políticos, que adoraram ver Moro pelas costas, dão agora ao Planalto a sonhada “governabilidade” e os votos para barrar qualquer tentativa de afastar o presidente.

Mercado

O mercado festejou, ontem, o “alívio” da crise política, puxou a bolsa, derrubou o dólar e afundou os juros futuros (leia abaixo). Não dá para saber se a paz é passageira, mas, com certeza, não é firme.

Claque

Confiante, Bolsonaro continua esticando a corda, em um momento dramático, quando o coronavírus entra em sua fase mais crítica no Brasil.

Já brincou com a cloroquina, com a gripezinha, e a claque aplaudiu.

Se continuar “brincando”, vai acabar falando para algum dos seus que perdeu alguém para a covid-19.

E daí?

Os comentários do presidente Bolsonaro foram feitos na volta para casa, nos portões do Palácio da Alvorada. Ele não gostou quando foi perguntado sobre o recorde de mortes do coronavírus.

Durante a entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, uma jornalista disse ao presidente: “A gente ultrapassou o número de mortos da China por covid-19…” Foi quando Bolsonaro respondeu que não poderia fazer nada.

Nesta terça-feira, segundo o Ministério da Saúde, o número de mortes confirmadas em 24 horas atingiu 474, com o total ultrapassando a marca dos 5 mil (5.017) e o número oficial de mortes na China (4.643).

Há apenas três dias, no dia 25, o número de mortes confirmadas era de 4.016, o que significa que 1.000 mortes foram confirmadas em 72 horas. Na véspera, no dia 27, as mortes confirmadas em 24 horas foram de 388.

A curva indica que estamos entrando no período mais difícil da epidemia, como reconheceu o ministro Nelson Teich, na única informação que deu na entrevista concedida, ontem à noite, a pedido dos jornalistas.

A falta de orientação é constrangedora, Teich se mostra despreparado para estar à frente desse combate.

Enquanto médicos apelam para que as pessoas fiquem em casa, porque já não há mais leitos para atender os doentes, o Ministério da Saúde aboliu a palavra isolamento. Porque Bolsonaro não gosta.

Teich repassou as quatro perguntas “selecionadas” para os dois assessores; continua estudando a doença. Hoje (16h30), ele participa de videoconferência com os senadores para falar das estratégias de combate ao coronavírus.

Mais Bolsonaro 

Também na porta do Palácio da Alvorada, no início da noite, o presidente confirmou que “sempre cobrei dele [Sérgio Moro] relatórios de inteligência”. Essa é a acusação do ex-ministro.

Bolsonaro não vê problema nenhum nessa interferência na PF: “Eu tinha que saber (…) para me informar, e ele sempre negou isso daí, eu não quero saber de inquérito de ninguém, não estou sendo investigado”.

As denúncias de Moro geraram pedido da PGR para investigação, deferido pelo STF, que deu 60 dias de prazo para que a PF conclua as diligências e tome o depoimento do ex-ministro, que deverá apresentar provas.

Vale S.A

Ainda ontem à noite, a mineradora divulgou o seu balanço do 1TRI, que veio promissor, com forte caixa para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. O resultado será comentado em teleconferência esta manhã (10h).

Passado mais de um ano da tragédia na barragem de Brumadinho, a companhia reverteu prejuízo líquido de US$ 1,642 bilhão registrado no 1TRI de 2019 para um lucro (ainda modesto) de US$ 239 milhões.

Apontada como uma das empresas do País com maior liquidez em meio à crise do novo coronavírus, a Vale encerrou março com uma dívida líquida de US$ 4,808 bilhões, queda de 1,4% em relação ao visto no último trimestre.

A dívida é a mais baixa em 12 anos e 60% menor do que a registrada em igual intervalo do ano passado. O Ebitda ajustado foi de US$ 2,882 bilhões no 1TRI, revertendo Ebitda negativo no mesmo período de 2019.

Exportadora, a companhia tem a seu favor o dólar apreciado, a resistência dos preços do minério em patamares elevados e ainda a expectativa de que a China, seu principal mercado consumidor, seja o primeiro a se recuperar.

*Rosa Riscala e Mariana Ciscato são articulista do Bom Dia Mercado.

Foto: Reprodução/Facebook

 

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