Bolsonaro, Orwell e os fatos que interessam

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Cristina Amorim* 

Como no clássico 1984, discurso do presidente brasileiro na ONU abordou dados sobre queimadas do modo que convém ao governo 

piauí – “O mundo comporta diversos pontos de observação, e a verdade não tem dono, embora a mentira deliberada tenha. Um de nossos esforços aqui foi identificar narrativas que não têm apoio nos fatos.”

Assim o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, encerrava, no dia 22 de setembro, dois intensos dias de uma audiência pública para tratar do funcionamento do Fundo Clima.

Barroso é relator de uma ação movida por PSB, PSOL, PT e Rede Sustentabilidade acusando o Executivo de não colocar para funcionar, em um ano e meio de governo Bolsonaro, um dos principais mecanismos para financiar iniciativas que diminuam as emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

Pela audiência passaram representantes do governo, da sociedade civil, da academia e do empresariado.

A poucos metros dali, no Palácio do Planalto, e algumas horas antes, o presidente Jair Bolsonaro assistia, rodeado de asseclas, a seu discurso previamente gravado na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Nele, Bolsonaro minimizara as queimadas que assolaram mais de 3 milhões de hectares do Pantanal em 2020 e o fogo que ardia intensamente pelo segundo ano consecutivo na Amazônia.

O discurso fora recheado de narrativas sem apoio nos fatos, e de fatos sem apoio em qualquer verdade.

Em 2019, 30% dos focos de calor registrados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) na Amazônia ocorreram em terras públicas, sinal inequívoco de grilagem, e 31% em imóveis rurais com Cadastro Ambiental Rural.

Ainda assim, o presidente colocou a culpa do fogo no colo do caboclo e do índio.

No ano passado, somente 7% dos focos de calor foram registrados em terras indígenas. No Pantanal, o fogo teve origem em nove pontos, somente um deles dentro de território indígena.

Bolsonaro seguiu: “Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior” e “os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno Leste da floresta”.

É muito raro que ambientes úmidos, como a Floresta Amazônica e o Pantanal, peguem fogo naturalmente, mas não que ele não se propague. A mão humana comanda a ignição e o local, e isso foi convenientemente deixado de lado.

Igualmente conveniente é destacar que o Brasil responde por 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, usando a distorção percentual causada pelas contribuições chinesa e americana.

Ignora que os 3% nos colocam na sexta posição no ranking mundial e que são quase 2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (medida usada no cálculo do efeito estufa) jogados todos os anos na atmosfera; que 70% dessas emissões vêm do desmatamento, das queimadas e do setor agropecuário; e que, independentemente da sua contribuição, o país é signatário do Acordo de Paris da mesma ONU, que determina responsabilidades de cada nação em diminuir sua pegada de carbono.

O que importa, tanto para Bolsonaro quanto para seus ministros ouvidos na audiência do STF, é a narrativa, pois “se os fatos atestarem algo diferente, então é preciso alterar os fatos”, escreveu George Orwell no livro 1984, ao descrever o trabalho do fictício Ministério da Verdade.

Tal estratégia tem limitações que a ficção não coloca, e fatos são muito mais difíceis de serem customizados na vida real. O Pantanal bateu recorde de focos de calor neste ano desde o início dos registros pelo Inpe, em 1988. Na Amazônia, temos mais fogo em setembro de 2020 do que no mesmo período do ano passado.

Mercado, política externa e STF seguem satélites, não retuítes.

“Nós vamos vedar a concessão de crédito para aqueles que optarem por fomentar, tolerar ou, de qualquer forma, direta ou indireta, se beneficiar da prática do desmatamento ilegal”, disse o presidente do Itaú Unibanco, Candido Botelho Bracher, na audiência do Fundo Clima.

Somente 1% do desmatamento registrado no Brasil em 2019 tinha autorização, e não é índio que pega crédito para derrubar floresta.

No dia seguinte ao discurso, o governo da Noruega afirmou que vai disponibilizar gratuitamente imagens em alta resolução do satélite Planet para “qualquer um, em qualquer lugar, monitorar o desmatamento tropical”.

No mesmo momento, a JBS, maior produtor de carne do planeta, divulgou intenção, ainda que tardiamente, de monitorar 100% de sua cadeia de fornecedores diretos e indiretos para limpar o sistema de ilegalidades ambientais.

Já o governo brasileiro anunciou, no mesmo dia, o envio de 48 bombeiros e três policiais militares para Mato Grosso, a fim de combater chamas que a chuva começa paulatinamente a resolver.

A medida não apaga da memória meses sequenciais de inação, nem o fato de o Exército, comandado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, estar em campos há meses sem apresentar resultados concretos. Tampouco responde às críticas mundiais ao discurso do presidente.

“Para resolvermos os nossos problemas, nós precisamos fazer diagnósticos corretos, e não criar uma realidade imaginária paralela”, disse Barroso ao fim da audiência no STF.

Se o Palácio do Planalto ainda insiste em narrativas fantasiosas, tem muita gente por aí , a partir de seus diferentes pontos de observação, que escolheu se apoiar em fatos.

Cristina Amorim é coordenadora de comunicação do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Cobre temas de meio ambiente e ciência há quase duas décadas.

Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República

 

 

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