Beijo sem língua

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Páginas de um diário

Esta é a penúltima parte do diário da Marli C. Ela e Jordan são “coxinhas”bem cansativos. Ela, alienada, começou o diário em 22.5.59, três meses depois da vitória da Revolução Cubana, um mês depois da visita do Fidel Castro ao Brasil e não tocou no assunto.

Fidel Castro entre os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, no palácio das Laranjeiras, Rio, em 1959, poucos meses após a revolução cubana (Fotos: acervo O Globo)

E foi em Brasília que o comandante Fidel conheceu o arquiteto Oscar Niemayer e se tornaram amigos. E o Grande Líder falou que o Oscar Niemayer será o único brasileiro do século 20 a ser lembrado após 3 mil anos. (Cristina Silveira, do Rio)

– Parte II –

Rio, 24/5/59

VIII         Ontem sábado, Gilda ‘fêz’ uma festa de aniversário p/ os coleguinhas, as 7hs ‘êle’ me telefonou e as 8hs veio me apanhar…

Fomos ver o “Pequeno rincão de Deus”, no Astória.

‘Elê’ é muito carinhoso, me abraçou, me acariciou, mas não me beijou.

Na saída fomos andando até o Bob’s, comemos alguma coisa e conversamos, enquanto chovia muito, eu perguntei a ‘êle’ se tinha feito Bar-Mitzi, e ‘êle’ me disse que não, estranhei muito, pois ‘êle’ disse que sua mãe fazia questão que ‘êle’ fosse judeu.

Voltamos p/ casa com chuva e amanhã vamos ao teatro.

IX            Fomos ao teatro, foi a primeira vez que ‘êle’ se ‘atrazou’. Fui com uma saia justa cinza e blusão branco, ‘êle’ disse que eu estava bonitona.

Ao sair do teatro (Está lá fora um inspetor), ‘êle’ disse que ‘êle’ gostou da peça, mas ‘êle’ não queria ir, porque ‘êle’ já se concentra todos os dias indo ao teatro e ‘êle’ se concentra ao cinema também.

Então eu disse que ‘êle’ deveria ter dito que não queria ir, e ‘êle’ disse que foi p/ me agradar.

Não concordo com ‘êle’ que cinema e teatro precisa se concentrar.

Fomos ao Bob’s e depois até o Cid, ver “Responda se puder”, quase não assistimos ficamos mais lá fora conversando.

‘Êle’ disse que gosta de menina carinhosa e que eu não era carinhosa e eu disse que não sou carinhosa nem com minha mãe, ‘êle’ disse que na casa dêle todo mundo é carinhoso.

Disse que quando ‘êle’ nota q. uma garota não gosta ‘dêle’, ‘êle’ acaba (não sei se foi indireta).

Então eu disse a ‘êle’ que muitos garotos gostam de mim.

‘Êle’ contou-me que no dia seguinte que ‘êle’ me conheceu, telefonou p/ Mimi p/ perguntar quem eu era, etc.

E a Mimi falou muito bem de mim, senão ‘êle’ não me teria telefonado.

Voltamos p/ casa conversando.

Fizeram três semanas que eu estou namorando ‘êle’ e ainda não sei se gosto ‘dêle’, gosto de conversar com ‘êle’, sair com ‘êle’, mas amar eu não sei.

Rio, 28/5/59

X             Fomos 2ª. feira (27) a uma conferência de pintura no Cib, não foi de ‘tôda’ má, ‘êle’ falou que eu devia levantar as costas, e combinou cinema p/ o dia seguinte dizendo que não ia à praia.

XI            5ª. feira fui com a vovó ao Arpoador, fiquei lá até 11:30, depois chegou a Marcia e o Hélio e fui com ‘êles’ p/ o 2,5, dizendo que estava com pressentimento que o Jordan estava lá.

Chegando no 2,5, ‘êle’ estava mesmo conversando com 2 moças, fiquei com ‘êles’, e depois caí n’água sem ‘êle’, e ‘êle’ foi me apanhar na água com receio de que eu não voltasse p/ ‘êle’.

Passeio na praia, Rio, 1959

Da praia ‘êle’ levou-me p/ casa e disse que não iria sair de noite, ‘êle’ teria que voltar tarde, e ‘êle’ não queria, fiquei chateada, mas não disse, perguntei se eu podia ir ao cinema com mamãe e ‘êle’ disse que sim.

As 2hs resolvi ir à uma festa da Pro-Matre com a Ekel. As 2 e 15 ele me telefonou perguntando se eu teria ficado chateada com ele por não sair e eu disse que não e perguntei se podia ir à festa, ‘êle’ disse um sim que mais parecia um não.

Ele vai pensar que não gosto ‘dêle’, mas na realidade vai ser bom eu ir nessa festa p/ saber se eu estou sentindo falta ‘dêle’ e se gosto ‘dêle’.

Fui a festa e estava horrível, não sei se senti a falta ‘dêle’, mas não ‘dansei’, não tinha prazer, no meio da festa telefonei p/ ‘êle’ e perguntei se estava chateado, a Ekel também falou com ‘êle’ e disse que ela é que tinha insistido p/ que eu viesse.

Sexta-feira ‘êle’ ficou de me telefonar, só telefonou às 9 horas, eu chorei das 8 às 9, com ‘mêdo’ que ‘êle’ não telefonasse, e acho gosto ‘dêle’. Combinamos cinema p/ sábado.

XII          7,30h ‘êle’ veio me apanhar e fomos ao Roxy, ver “Delícia de um dilema”, ‘êle’ não gostou, eu gostei, ‘êle’ apesar de ser carinhoso tem umas maneiras bruscas. Foi muito carinhoso, abraçou-me e foi meu 2º. Beijo na ‘bôca’, e continuei não gostando de beijo, ‘êle’ me apertou a ‘bôca’ a sua, procurando minha língua, de um modo muito áspero. ‘Êle’ não devia abrir tanto a ‘bôca’.

Depois do cinema fomos andando pela av. Atlântica até o Leme numa festa, pelo caminho ‘êle’ disse que não gostava de quem mandava no namorado, isso porque eu não sei.

‘Êle’ queria que eu ‘fôsse’  com ‘êle’, só olhar uma boite (Cangaceiro) e sair, eu respondi categoricamente que não, ‘êle’ disse que eu não tinha confiança ‘nêle’.

Depois eu ia contar que de 8 às 9, chorei com ‘mêdo’ que ‘êle’ não telefonasse, mas ficou nas meias palavras e ‘êle’ não gostou.

Eu disse que quando o rapaz gosta mesmo da namorada, permite tudo até um certo ponto, ‘êle’ calou-se e disse que o mal ‘dêle’ é ser muito sensível.

A festa estava desanimada, ‘dansamos’ um pouco e fomos embora.

Cortei o cabelo e ‘êle’ disse que fiquei muito mais bonita e ‘tôda’ hora me elogiava, que eu estava bonita.

Rio, 1º. De junho de 1959.

XII          Ontem, domingo fizeram 4 semanas que estou namorando ‘êle’, fomos a Hebraica, ‘êle’ não queria ir porque o pai tinha ido aquele dia para o hospital, mas acabou indo.

‘Êle’ estava lindo, com um blusão de lã cinza, mas estava quente. Eu ontem me achei bonitinha, estava com um vestido de bolinha e bem armado. Todos os rapazes olhavam p/ mim e as moças p/ ‘êle’.

Voltamos p/ casa e ‘êle’ disse que a menina + bonita da turma era eu e a Cléia.

Quando saltamos da lotação ‘êle’ veio me abraçando e me deu uma porção de beijos no rosto. Eu falei que ‘êle’ devia ter gostado do filme do Roxy (pelo beijo) e ‘êle’ disse que achava que eu é que tinha gostado. Assim acabou + mais um dia e agora gosto muito ‘dêle’.

Rio, 5 de junho de 1959

Dia 3 de junho ‘fêz’ i mês que estou namorando ‘êle’, ‘êle’ me telefonou, mas não se lembrou, eu é que lembrei.

XIV         5ª. feira fomos ao cinema ver “General de imitação”, no Metro, ele disse que estava com vontade de ficar numa banheira com um copo de conhaque, e eu disse: e um bom livro p/ ler, e ‘êle’ disse que em minha companhia ele não necessita livro p/ ler.

O filme é + ou -, na hora que passou o jornal de propaganda, ‘êle’ disse-me: não estou com vontade de ver isso e beijou-me na ‘bôca’, e beijou-me mais 4 ‘vêzes’ e abraçou-se. O beijo que mais gostei foi o que nós não abrimos a ‘bôca’. ‘Êle’ disse que não gostava de mim e eu disse: eu também não gosto de você (isso quis dizer que ‘êle’ gostava muito de mim e eu também).

Voltamos para casa. O que mais anseio é que um dia, ‘dêle’ diga: Eu te amo! E eu dizer: eu também te amo!

Dia 12 de junho é o “Dia dos Namorados”, não sei o que, darei p/ ‘êle’.

No cinema ‘êle’ se acostumou comigo pondo a cabeça no seu ombro, assim ‘êle’ beija + facilmente, agora eu não quero ‘pôr’ mais a cabeça, mas ‘êle’ mesmo põe.

Rio, 8 de junho de 1959

XV          Sábado fomos ver “Noites de calúnia” (Flórida), filme ótimo depois fomos lanchar na Candinha.

XVI         Domingo ‘êle’ me telefonou dizendo que estava me prejudicando pois eu poderia ir mais as festas e etc., e eu disse que não, que eu não estava reclamando nada. Às 8 horas fomos ao Cib, ‘têve’ baile, fomos dar uma volta lá fora, nos sentamos e ‘êle’ disse encostando a cabeça no meu ombro: -Eu quero que minha namorada seja uma babá p/ mim e eu disse, então você vai ter que arranjar outra, pois eu não sirvo para babá, então ‘êle’ disse: -você confirmou o que eu pensava, então eu disse o que ‘êle’ sabe: -você me namora por uma razão e eu te namoro por outra, também eu não tenho muitas experiências com ‘garôtas’, mais, até hoje não gostei de uma. Eu disse: -você pensa que eu não gosto de você, ‘êle’ disse: -não, mas era isso que ‘êle’ deu a entender, eu disse que as 1as, ‘vêzes’ que sai com ‘êle’ não gostava, mas depois fiquei gostando, e ‘êle’ disse que as outras ‘vêzes’ ele não se entusiasmou comigo, pois eu era muito fria, minha atitude tanto em público como em particular é fria.

‘Êle’ disse que eu namorava ‘êle’ por uma razão e ‘êle’ a mim por outra, e não ‘quiz’ me dizer qual é.

Eu sou muita sincera com ele.

Entramos e ‘dansamos’ uma porção de ‘vêzes’, depois fomos embora, quando fomos embora ‘êle’ disse: você é uma namorada que nem fixa o namorado! Isso é verdade pois eu não fixo mesmo.

Depois eu disse a ‘êle’ que nunca tentei me modificar, talvez se tentasse eu consiga, ‘êle’ ficou satisfeito e disse que não quer modificar ninguém.

Nós nos despedimos friamente.

Fiquei com receio que ‘êle’ não me telefonasse mais.

Mas na 2ª. feira ‘êle’ me telefonou dizendo que o ‘sub-consciente’ é que tinha falado no domingo, estava quase se desculpando.

‘Êle’ disse que ‘êle’ gostava muito mais de mim do que eu ‘dêle’, isso é verdade, pensando bem cada dia as suas maneiras exigentes me decepcionam mais.

Nunca fui carinhosa na minha vida, tentarei ser e aqui vai meu juramento: Da próxima vez que sair com ‘êle’, vou fazer o possível p/ ser carinhosa. Beijarei ‘êle’ e olharei o tempo todo p/ os seus olhos.

‘Êle’ disse que eu era fria, mas exagerou muito, pois eu não sou tão fria assim. Talvez eu não goste ‘dêle’, se eu gostasse realmente, seria mais delicada e amorosa.

XVII       5ª.feira fomos ao cinema, a vovó nos levou de carro até o Metro, fomos ver “Chofer de Praça”, uma bomba nacional. Já reparei que ‘êle’ escolhe sempre os piores filmes. Eu fui bem carinhosa, beijei-o no rosto e na ‘bôca’ e afaguei seu rosto, acho que ‘êle’ gostou, mas insistiu em dizer que eu tiro a ‘bôca’ quando beijo ele, mas eu fico com falta de ar.

XVIII      Sábado papai nos levou à festa da Jacqueline e ‘êle’ conversaram bastante. Chegando lá dei o presente p/ ‘êle’, um livro de poesias de Paul Verlaine por causa do “Dia dos Namorados” e ‘êle’ me deu um perfume “Heure intime”. Escrevi assim no livro: Dar um livro não é um presente, é um elogio, ‘êle’ achou horrível, mas disse que eu deveria ter escrito uma dedicatória.

 

 

 

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