“Barragens em Itabira estão seguras”, diz a Vale. Mas moradores de áreas de risco seguem apreensivos com as chuvas

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Com o período chuvoso, cresce a preocupação em Itabira com as barragens de rejeitos de minério de ferro. A apreensão é ainda maior quando vem à memória a triste lembrança do rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, há cinco anos, em 5 de novembro de 2015.

A ruptura dessa barragem, tida até então como segura até por auditorias internacionais, matou 19 pessoas, tendo deixado um rastro de destruição na bacia do rio Doce, com mais de 500 pessoas desabrigadas pelo mar de lama.

Ruínas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana: cinco anos após a tragédia, moradores ainda aguardam por reparações e indenizações (Foto: Romerito Pontes),. No destaque, a barragem Itabiruçu, com obras de reforço (Fotos: Carlos Cruz)

E quando se imaginava que um crime dessa natureza não se repetiria, acontece o maior acidente de trabalho coletivo e ambiental do país, e um dos maiores do mundo, em 25 de janeiro do ano passado, com o rompimento de barragem na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Essa ruptura anunciada, mas negligenciada, aconteceu em 25 de janeiro, em plena luz de uma sexta-feira, por volta de 12h, provocando a morte de 259 pessoas, a maioria trabalhadores da mina da Vale, além de moradores e turistas. Soterrados pelo mar de lama ainda restam 11 desaparecidos.

O que chama atenção nas duas tragédias é que ambas barragens eram certificadas internacionalmente, classificadas como sendo de baixo risco de ruptura, mesmo tendo sido alteadas pelo método a montante, considerado menos segura. E ambas se romperam no período chuvoso.

Declaradas seguras são também as 15 barragens de Itabira, classificadas como sendo de baixo risco. Dessas, apenas as barragens de Santana, diques do Minervino e cordão Nova Vista, na barragem do Pontal, Itabiruçu e Rio de Peixe estão classificadas em nível de 1 de emergência. Por essa classificação, segundo o Plano de Ação de Emergência de Barragem de Mineração (PAEBM), “não há necessidade de remoção de moradores a jusante”.

Alteamento

Itabiruçu com as fissuras assinaladas no novo maciço, que estava sendo construído a jusante para o alteamento da barragem

Desde que a Vale paralisou as obras de alteamento da barragem Itabiruçu, em julho do ano passado, por recomendação do Ministério Público de Minas Gerais, com base em parecer da empresa Aecom, aumentou ainda mais a apreensão na cidade.

Descobriu-se, até mesmo por reconhecimento da empresa, que nenhuma barragem é 100% segura, mesmo as que foram alteadas com barramento construído a jusante, reforçando o maciço, como foram os sucessivos alteamento de Itabiruçu.

As obras de alteamento foram paralisadas depois de constatadas fissuras e rachaduras em sua estrutura, além de falhas geológicas no terreno onde está localizada.

Antes, o alteamento de Itabiruçu havia sido licenciado pelo Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), sem realizar audiência pública em Itabira. Na ocasião, o órgão ambiental licenciador desconheceu as advertências do engenheiro Antônio Carlos Lambertini, que foi responsável por uma das etapas do alteamento.

Lambertini renunciou da função em maio de 2015, depois de apontar falhas e imperfeições geotécnicas na barragem. E encaminhou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Conselho Regional de Engenharia (Crea), ambos no estado de São Paulo, onde reside o engenheiro. Leia também aqui.

A suspensão das obras de alteamento atende também aos compromissos assumidos com o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O TAC foi assinado com o MPMG no âmbito das ações civis públicas impetradas para apurar as condições de segurança das barragens dos complexos Cauê (Pontal e Santana), das Minas do Meio e Conceição (Zé Cabrito, Itabiruçu e Rio de Peixe), entre as principais.

Mais recentemente, em 3 de setembro deste ano, o MPF relacionou também problemas estruturais no maciço da barragem, além de falhas no monitoramento, constatados em vistorias. Leia aqui.

Obras

A promotora Giuliana Talamoni Fonoff, curadora do Meio Ambiente na Comarca de Itabira, assegura que, neste momento, as únicas atividades previstas para a barragem de Itabiruçu são as relacionadas com a preparação da estrutura para o período de chuva, além do monitoramento.

Entre as medidas estão as obras de reforço da barragem. “Não há, neste momento, nenhuma expectativa de retomada das obras de alteamento da estrutura”, assegura a representante do Ministério Público.

Também a Vale, por meio de sua assessoria de imprensa, informa que realiza atividades de manutenção na barragem desde o início de abril de 2020. “Essas atividades seguem as recomendações da ANM (Agência Nacional de Mineração) e da Aecom.”

De acordo com a mineradora, essas medidas não alteram as condições geotécnicas atuais da estrutura. E que, desde então, Itabiruçu já não recebe rejeitos de minério das usinas de Conceição. Os rejeitos estão sendo dispostos nas cavas exauridas das minas de Periquito e Onça, nas Minas do Meio.

 

 

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    “O que chama atenção nas duas tragédias é que ambas barragens eram certificadas internacionalmente, classificadas como sendo de baixo risco de ruptura, mesmo tendo sido alteadas pelo método a montante, considerado menos segura. E ambas se romperam no período chuvoso”.
    Basta este trecho do artigo pra que a desconfiança se mantenha.
    Só otário confia na Vale S/A – uma desgraçaria no Brasil…
    E quanto aos buracos – o do Cauê – é deprimente, a Vale S/A tem o dever de recompor a montanha…

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