B.Léza e o seu depoimento em “A DANÇA da MORNA”

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Veladimir Romano* 

Outro país qualquer com absoluto interesse na sua verdadeira evolução cultural, gente realista, dedicada a combater fraudes ao invés de cinicamente as fomentar, já deveria ter construído níveis de responsabilidade social, cultural e até propósito da Lei, para proteger seus valores como o fazem Estados civilizados onde se poderão retirar lições.
Na própria CPLP o Brasil soube construir em tempos exemplos na defesa das suas riquezas entre a Fundação Palmares, tribunais e a própria Polícia Federal pela defesa dos valores. Deste modo, a propósito deste debate, agora mais que nunca apreciado com a Morna distinguida pela UNESCO a Património Imaterial da Humanidade, passou a esse valor.
Nada melhor como aproveitar escritos do passado desenvolvidos por quem realmente foi a seu tempo oportunamente estudioso, compositor, músico, intérprete, mas igualmente investigador [se assim o quisermos considerar]ou inteiramente curioso por esse evoluir quase enigmático [ainda hoje há muita coisa que infelizmente os Caboverdianos não sabem sobre si próprios. Falta-nos gente evoluída, nobre como o nosso estimado e bem saudoso professor Mesquitela Lima]do processo cultural deste povo que foi multiplicando sua presença nas ilhas. 
 
Daqui, com defeitos e virtudes, a grande maioria sem conhecer verdadeiramente a vida nem a trajetória pessoal de Francisco Xavier da Cruz [Ambrósio] que, para si, em meados do ano 1923 se apelidou de B.Léza pelo efeito da sua perspicácia e criativa intuição, ao fazê-lo, desenvolveu a partir dessa relação amigável no campo musical quando brasileiros o procuravam, pedindo às crianças do cais para serem levados ao local onde “aquele belezinha do violão” tinha por hábito tocar.

 

Recordação oferecida pelo grupo musical Folclore de Cabo Verde. Sendo estes os verdadeiros diplomatas de CV c/ sucesso, trazidos pelo então prof e ministro Adriano Moreira, grande amigo de CV e do povo das ilhas. Para a história são Mité Costa, Titina, Arlinda Santos, Djosinha, Jacinto Estrela, Frank Cavaquim (faltou na foto), Taninho Évora e Luís Rendall. Esta exibição da cultura caboverdiana começou em 1962 e terminou em 1963 c/ 2 discos singles gravados e a  passagem de vários locais de norte a sul de Portugal. Todos amigos entre alguns, velhos companheiros de B.Léza como Luís Rendall.  

Crescendo em ambiente familiar de gente modesta mas decidida, destemida, solidária, sem medo a serem frontais, ao contrário dalguns tantos daquele tempo como os infelizes de hoje o desejarem “indigente”, procurando minar-lhe a obra, destruir-lhe a sua matriz cultural, aplicando adulterações, atentados à verdade e glorificarem mentiras que a independência trouxe através de certos abutres abusando da libertinagem quando se infiltraram nos partidos políticos, criando inclusivamente descrença que vigora no momento eleitoral com eleitores negando oferecer essa dádiva e assim desvalorizar o processo democrático. 
 
Pois, B.Léza, seguindo a profissão escolhida por obrigação da sua subsistência, soube melhor que ninguém ser e trabalhar como primeiro-oficial telegrafista e piloto de navegação marítima. Precoce em tudo com mérito, na cultura, em outro quadrante geográfico ou diferente contesto cultural, teria sido ainda maior, pudesse ele ao invés de ser vítima dos algozes, invejosos e narcisistas contra a sua personalidade, pelo seu carácter independente, indomável nas suas decisões, pronto na luta em servir seu povo desfavorecido, explorado, mormente sempre à deriva da fome.
Não foram poucas as vezes conduzido a tribunal onde sempre se confrontou e pautou pela razão, saindo vencedor desses combates. talvez por isso foi merecendo o tal reconhecimento das chefias que acabaram por nomeá-lo, ainda bastante jovem, para o cargo de diretor-geral dos serviços de correio e telegrafia do Fogo levando a sua vida a partir daqui uma extraordinária volta, aproveitando ele cada instante dessa experiência. 
 
Neste particular, ao longo de quase 7 anos, o Sotavento foi morada de B.Léza: viveu, aprendeu, estudou, analisou, observou, viajou pelas ilhas mais relevantes acumulando conhecimentos que sem dúvida são patrimônio do povo de Cabo Verde caso haja gente capaz, inteligente, suficientemente responsável e decidida na sua proteção.
A criação duma Casa da Música, Museu da Morna ou até mesmo uma Casa-Museu B.Léza, caso não exista gente capaz, irá trazer muita polêmica, conflitos, fora e dentro da Nação Crioula. Caso contrário não haverá patrimônio nenhum a ser celebrado perdendo-se para o restante das gerações futuras uma parte importante desta memória.
Da riqueza também se pode fazer a miséria e, com B.Léza espalhado pelo mundo levando a mensagem de Cabo Verde, será necessário enorme realismo cultural de valor nacional haver gente capacitada na defesa real dos valores ou eles morrerão, com isso se desvanecerá uma parte dessa vitória mundial oferecida pela Unesco. 
 
Assim como B.Léza nesta vivência privilegiada não deixou de apreciar certos pormenores na criação daquilo que bastante cedo na sua vida o apaixonou e nessa incessante criação, encontrou na Morna o exemplo mais digno para se fazer apresentar como gente, povo, local e civilização evoluída.
Sem discussão mas obedecendo a estudo, apreço, afinco, pesquisa, assim foi B.Léza construindo a sua bagagem cultural em torno deste conhecimento dando-lhe legitimidade para escrever um dos seus inéditos mais interessantes, hoje testemunho daquilo que a Morna efetivamente é e não aquilo que certos novatos aventureiros da comarca crioula querem que seja, adulterando essa realidade.
Os urubus oportunistas sedentos de vaidade e servilismo a interesses obscuros que sentaram rabo gordo num certo poder escondido atrás do biombo, por todos os meios, desde a independência à imagem dos fascistas do passado, procuraram reverter factos, inventar outros, conspurcar a cultura de todos os caboverdianos agora igualmente pertença da Humanidade [é urgente compreender o que isto quer dizer]. 
 

Como se atrevem uns quantos sem vergonha desnutridos de senso pátrio apenas vendidos ao materialismo capitalista, desenfreados pela gula fútil absorvida na falha intelectual ou quase demência apregoada no essencial arrogante de quem se autoriza na mentira ao querer descrever B.Léza sem conhecer a sua trajetória, família, escrita, obras ou até factos e contributo aos valores de Cabo Verde ?

Capa na primeira edição de livro poético de Nuno Rebocho, amigo das ilhas, desaparecido quando tinha apenas 18 anos. Por entre discussões, políticas e ordens ou critérios de escrita, ficou uma amizade escondida no final recompensada com esta oferta.  

O fanatismo absolutamente doentio que se instalou na sociedade das ilhas, provocações à democracia [duvidosa porque uma Democracia não falha seus compromissos com os Direitos Humanos]da qual o povo se vai distanciando em particular nas comunidades emigradas, como certos infiltrados oportunistas usando e abusando de poderes cozinhados na podridão, vão futuramente enterrar Cabo Verde por que a verdade de toda a esquemática desta podridão terá de saltar à realidade implodindo na consciência dos praticantes deste desencanto.

O Povo crioulo onde quer ele esteja por mais tempo a engolir em seco a roda da mentira como se andássemos todos pela fortuna, adulteração dos factos e todos aqueles que andam no aproveitamento das dádivas, enriquecer nas custas da faminta e do aumento da miséria, não valoriza a História.
B.Léza, a seu tempo, também lutou ele a bem lutar contra esta presença indigna de certos, quantos imbecis do alheio, criminosos da Nação Crioula, alimentadores do ego pessoal. Esta ausência de coragem jornalística e arautos da informação mediana, realmente manca num Cabo Verde injusto, com falha no progresso, nem sabendo combater seus males.
No seu escrito “A DANÇA da MORNA”, depois duma arruaça provocadora desenvolvida por uns quantos nativos de Santiago contra uma tocatina de mornas na Cidade Velha, B.Léza, que entretanto escrevia vários apontamentos, ao chegar a casa deitou mão no papel para iniciar o seu escrito, um dos mais genuínos descrevendo valores, princípios, autenticidade e realismo sobre a Morna que muitos falam mas poucos conhecem da sua matriz e raiz realidades que agora certos abutres enrolados com a cultura querem adulterar, aldrabar e deformar.
É com todas as letras no seu concluído texto com mais de cem páginas onde B.Léza oferece a sua explicação depois de pesquisa aturada, entrevistas, conversas, curtas mas repetidas viagens pelo Sotavento em particular por Santiago que se vai dando conta verdadeiramente como a ilha capital é uma outra coisa muito diferente das restantes.
Não oferece incerteza que, por razões históricas, o povo habitante da Boavista, ali se terem concentrado misturas que resultaram numa outra apreciação cultural da qual expressão nas melodias cantadas e tocadas por marinheiros vindos até Sal Rei ao negócio e comércio ativo daquela época, criaram-se instantes no meio pequeno, comunidade familiarizada, maior liberdade e entendimento, fatores interligantes de origem humana acabaram por construir clima propício a novos paradigmas culturais juntando entrada e aprendizagem dos instrumentos.
O salto deste formato musical para a Brava e Fogo, mas tarde introduzido no Maio, resultou nas variantes hoje e desde ontem no longínquo histórico concerne a estas ilhas onde realmente não se realiza algum idêntico parecer seja onde for queiramos procurar pela ilha de Santiago.
B.Léza é profundamente explicito, esclarecedor, testemunho de pouco àqueles fanáticos que no contemporâneo a toda a força procuram encontrar razões para colocar a ilha de Santiago como local de Morna. Desta ilha e quem dirige destinos da Cultura já deveriam ter criado tal projeto da sociedade caboverdiana para se evitarem equívocos perigosos e não dar oportunidade ao aparecimento de aproveitadores vendidos ao Diabo.
B.Léza e o seu “A DANÇA da MORNA”, apontamento claro, esclarecido, por terra deita todas as teorias dalguma vez a ilha de Santiago haver feito parte do aparecimento ou outro fator a ver com a evolução e aparecimento da Morna… antes fosse.
Nesta estrada onde todos nós caminhamos não deve haver lugar a complexos de monta, ilusões ao maldito bairrismo, reles vaidades ou presunção daquilo que possa existir agora mas que não faz parte do passado. Não será preciso adulterar-se a História pelo que a força e energia da Verdade, tarde ou cedo vencerá a Mentira.

Aqueles energúmenos escrevendo asneiras sobre a profissão de Maria Luiza, a eterna deusa Mica, aqui reprodução no dia do exame a meados de 1958, preparando a vida e organizando a casa p/ q´qdo B.Léza chegasse já livre da cadeira de rodas, iniciasse nova vida longe dos “bichacoma” q´em CV lhe faziam a existência negra, incapaz de trabalhar, compor e sobreviver. a miséria à qual esteve sujeito foi a causa de Maria Luiza haver tomado o convênio de se reorganizar a vida na metrópole. Para além de modista e criadora de roupas, o salão de beleza, a cosmética e os cabelos; foram a grande arma laboral e criativa de Mica, inclusivamente foi representante da L´Oreal de Paris, fiscal e juri na seleção das misses Portugal no Casino do Estoril.

Músicos influenciados pela Morna da ilha de Santiago, será outra contagem à qual o próprio Fernando Quejas, testemunha como foi deste processo, ao escutar na rádio e em serenatas, criou seu amor a este modelo musical ligando-se desde logo a Eugénio Tavares e B.Léza no seu destino artístico onde ocupa lugar prestigiante mas é preciso não confundir  árvore com floresta quando se fala do histórico desta riqueza até porque B.Léza tem avó-materna nascida na Cidade Velha com avô da Índia.

Logo, ele  é universalista tanto seu verdadeiro apelido deveria terminar em Ambrósio pelo ascendente  italo-lusitano… pois ele, do lado paterno, descende de avô conde, brazonado pela Monarquia. Portanto, desta tendência além fronteiras são os Caboverdianos feitos, tal como B.Léza na sua natural habilidade conseguiu ver como os limites da Morna são flexíveis criando o seu estágio duplicador nessa metamorfose que realmente só ele testemunharia ao compor melodias com epíteto de “Morna-Tango”, “Morna-Fado”, “Morna-Galope”, até nas suas “Sambadas” [muito mal divulgadas tal como os magníficos solos de violão], ele aplicou compassos da Morna original.
A Morna, na sua criação nada tendo a ver som com Santiago; porém, não deixa de ser ela também propriedade legítima desta ilha; contudo, não precisa de a monopolizar apenas pelo complexo bairrista de se sentir só, porque Santiago não está só, vive com criações magníficas, genuínas da sua tradição popular, herança dos tempos da escravatura justamente por ter sido ilha principal onde se concentrou a gema do nosso historial africano e disso outras ilhas não se podem legitimar, antes glorificar por assim ser.
É urgente portanto reformar-se esta política da estupidez, ignorância, maldade, fantasia contraditória desvalorizando quem a pratica, colocando vergonha no nosso processo cultural ao qual outras nações e povos vão conhecendo. Se amoralidade for a votos e o derrotismo ganhar, então todos ficaremos a perder.
*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano
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