Avessas de Natal

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Por Cristina Silveira, da Glória/Rio

“É a noite natural, e não encontrada, ao sopro das lendas. É algo irredutível, mas incorporado ao coração do mito. É um menino em nós recolhendo o mito.” (Carlos Drummond para o jornal Alterosa, BHz, de 15.12.1953)

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A despeito do Golpe de Estado 2016, da Milícia no Planalto/Alvorada, da desgraçaria da lama da CVRD/Vale, com “sucesso”, do Dia do Fogo na Amazônia, do vazamento de petróleo na costa do mar do Nordeste e que só a Marinha brasileira não viu, do programa, em curso, pra fazer do Brasil um País do Narcotráfico (a grande fonte de renda dos banqueiros), o sítio Vila de Utopia reuniu três obras de arte de três artistas de Itabira para oferecer, agradecida, às suas leitoras e leitores.

E por serem três de Itabira, são presenças delicadas na paisagem e no imaginário da cidade, tornando-a mais civil. Em Itabira, não se pode esquecer de cismar e para isso é prudente lembrar.

O Genin, Luiz Eugênio Quintão Guerra, desenhou um coração, essa forma simbólica de vida e de morte, coração vermelho de fogo e utopias. O coração do Genin pulsa amor pela arte o tempo todo, louvado seja.

A Juju, Maria Julieta Drummond de Andrade escreveu, Os Três reizinhos, crônica de um Natal pelo avesso, inspirada no poema Papai Noel às avessas.

O Carlito, Carlos Drummond de Andrade, referência intelectual dos outros dois de Itabira, escreveu Papai Noel às avessas em 1924. O poema foi publicado pela primeira vez em O Jornal (RJ) de 25.12.1927, entre outros poetas e cronistas, no alto da página com uma grandiosa ilustração de Cornélio Penna.

Inda assim, o poema de Drummond mereceu desenho especial de Di Cavalcanti. Em junho de 1929, a edição Especial Minas Gerais de O Jornal novamente publica Papai Noel às avessas, caído na boca do povo desde a sua primeira edição.

Na ausência de chaminés por aqui, Papai Noel às avessas ganhou o mundo em alemão, francês, espanhol, inglês. E já velhinho é presença, ano após ano, nas coletâneas clássicas de Natal, aliás sumidas das livrarias. Drummond, sempre Drummond na vida do Povo Brasileiro.

Para resistir a essa brutal conjuntura política a mensagem é essa: arte, arte, arte e o bom jornalismo, que é aquele que informa corretamente os fatos – e é o que a Vila de Utopia nos oferece diariamente. Axé!

Papai Noel às Avessas

Carlos Drummond de Andrade

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do  aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

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