Até então desconsiderados, os vices viram peças importantes na disputa presidencial

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Rafael Jasovich*

Marina Silva (Rede) com o vice Eduardo Jorge (PV) – Foto: Divulgação. Na foto em destaque, Manuela D’Ávila e Fernando Haddad (Foto:

Cálculo político por trás da escolha do candidato a vice em uma chapa presidencial costuma levar em conta a contribuição do nome para trazer recursos financeiros e midiáticos à campanha, o reforço ou complemento ideológico que significa e a amplitude do eleitorado que poderá ajudar a alcançar.

Em uma eleição atípica como a deste ano, no entanto, essa escolha foi feita pela maior parte das candidaturas em cima da hora e na base da falta de opção.

Muitos candidatos a vice foram confirmados apenas no limite do prazo legal estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Henrique Meirelles (PMDB) com o vice Germano Rigotto (PMDB): sem coligação (Foto: Galileu Oldenburg)

Sucessor do presidente caso o titular esteja provisória ou permanentemente afastado do Planalto, o vice tornou-se figura evidente nos últimos anos, depois que Michel Temer (MDB), eleito vice na chapa de Dilma Rousseff (PT), assumiu seu posto após processo de impeachment.

Para o eleitor, o vice tem menos peso do que se imagina. Mas ele é muito importante para as negociações de cargo entre as lideranças partidárias, para garantir capilaridade às campanhas.

Jair Bolsonanro (PSL0 com o vice general Hamilton Mourão (PRTB): apoio ao regime militar (Foto: Fábio Motta/Estadão)

E, até mesmo para afastar acusações sobre falta de representatividade que atribui ao último aspecto a presença de pelo menos 4 vices mulheres – e sem contar a possibilidade de Manuela D’Ávila (PCdoB) na vice do PT.

O vice deveria prolongar o alcance da candidatura de alguma maneira. Na configuração atual, no entanto, a maior parte dos vices não deve trazer nem votos, nem recursos financeiros ou tempo de TV para os titulares.

Afinal, quem são e o que agregam cada um dos nomes apontados pelas candidaturas para a vice?

Fernando Haddad (PT), vice de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o plano B

Com o nome de Fernando Haddad (PT-SP) na vice, o Partido dos Trabalhadores colocou em marcha o plano B eleitoral. Diante do muito provável indeferimento da candidatura de Lula – condenado e preso na operação Lava Jato – , Haddad deverá assumir a cabeça da chapa.

Até lá, no entanto, o partido fará um movimento duplo: o de fortalecer o nome do ex-presidente como titular na disputa e o de apresentar Haddad ao eleitorado como um substituto à altura para o projeto lulista.

Manuela D’Ávila (PCdoB), vice de Fernando Haddad (PT), vice de Lula (Foto: Paula Paiva)

O PT caiu na real de que, com o início da propaganda eleitoral, o eleitor pode perceber que Lula não será viável – e consolidar na cabeça uma escolha alternativa, que não seja do partido. Para não correr esse risco, vão trabalhar paralelamente ao Lula o seu plano B.

Prefeito de São Paulo entre 2013 e 2016, Haddad tem 55 anos – e é relativamente desconhecido do eleitor nacionalmente. Venceu o pleito municipal contra o tucano José Serra no segundo turno. E perdeu a reeleição, no primeiro turno, para João Doria (PSDB-SP), que é atualmente candidato a governador em São Paulo.

Com sólida trajetória acadêmica na Universidade de São Paulo (USP), é professor de Ciência Política. Chegou a Brasília em 2003, no primeiro ano do governo Lula, para atuar no Ministério do Planejamento sob a gestão de Guido Mantega.

Convidado pelo ex-presidente Lula, foi ministro da Educação entre 2005 e 2012. Nesse período, reformulou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Haddad foi o coordenador do recém-lançado programa de governo da candidatura petista. Seu nome vinha sendo aventado como uma das alternativas para se candidatar no lugar de Lula, ao lado do ex-governador da Bahia Jaques Wagner e da senadora Gleisi Hoffmann.

 Ciro Gomes e a vice Kátia Abreu, ambos do PDT (Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil)

A atual configuração da chapa petista, no entanto, não indica que ela chegará às urnas como puro sangue. A sui generis situação do PT criou ainda uma estranha figura: a vice do vice.

Se Lula for mesmo barrado da eleição pela lei da Ficha Limpa, que veda a participação de condenados em segunda instância na disputa, Haddad ascenderá ao cargo de titular. E deve deixar o posto de vice para Manuela D’Ávila (PCdoB), candidata à Presidência dos comunistas.

A candidatura de Manuela foi retirada depois que os comunistas decidiram se aliar ao PT, apesar da insegurança jurídica da candidatura de Lula.

Embora aliados de Manuela tenham considerado a situação de estepe da política como “constrangedora”, o cálculo do PC do B é pragmático: sem se coligar com o PT, o PC do B pode ter dificuldade de fazer uma boa bancada para o Legislativo.

Ou mesmo correr riscos em relação à cláusula de barreira, que pode barrar a representação política de partidos pequenos, que não atinjam um dado percentual de votos.

Com a coligação com o PT, o PC do B assegura desempenho eleitoral superior ao mínimo estabelecido pela última reforma eleitoral.

*Rafael Jasovich é jornalista, advogado, secretário e fundador da Associação Gremial de Advogados da Capital Federal, membro da Anistia Internacional

 

 

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