As elites se distanciam do governo e Bolsonaro só não é problema para os Estados Unidos

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Rafael Jasovich*

O maior problema da elite brasileira hoje se chama Jair Messias Bolsonaro. Sim, Bolsonaro não é um problema apenas para o povo brasileiro, que sofre com o maior desemprego da história e um governo que parece ser incapaz de apresentar qualquer proposta capaz de viabilizar a retomada do crescimento.

Bolsonaro é um problema, sobretudo para as forças que o colocaram no poder.

Os produtores rurais, que se animaram com a possibilidade de “fuzilar a petralhada”, acabar com a fiscalização ambiental e enquadrar como “terroristas” movimentos sociais como o MST, com os seus instintos selvagens já deram com os burros n’água.

Hoje, Bolsonaro é o maior inimigo do agronegócio brasileiro. E razões para isso tem de sobra.

A União Européia já avisou que não avançará em acordos comerciais com o Brasil, em razão da perplexidade que o bolsonarismo provoca no mundo civilizado.

Acossada pelos Estados Unidos, a China trocará a soja brasileira pela dos produtores americanos. E os países árabes já começaram a retaliar o Brasil em razão da nova política externa, que quebra a tradição do Itamaraty e chancela agressões do governo de Israel aos palestinos.

O apoio a Bolsonaro era unânime entre empresários: hoje, apoio irrestrito, só da indústria da morte (Fotos: Brasil 247 e IstoÉ)

O sistema financeiro. Toda a aposta em Bolsonaro estava ancorada numa premissa falsa: a de que ele comandaria a chamada ‘reforma da Previdência’, que transfere a poupança pública do INSS para os bancos privados.

Depois do embate deste fim de semana entre Bolsonaro e Rodrigo Maia, já está mais do que claro que o presidente não tem nenhum interesse em aprovar uma reforma que é extremamente impopular.

Bolsonaro já disse que não foi eleito para mexer nas aposentadorias e apenas mantém as aparências quando sinaliza apoiar o plano de Paulo Guedes. Também perdeu a base no Congresso (que já era volátil).

Os meios de comunicação conservadores também merecem um capítulo à parte. Todos endossaram a farsa, criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que o segundo turno da eleição seria disputado entre dois extremos, quando a realidade opunha um professor moderado, já testado na prefeitura de São Paulo, e um candidato de extrema-direita.

Em peso, a mídia fechou com Bolsonaro porque temia a ‘regulação dos meios de comunicação’ proposta pelo Partido dos Trabalhadores. O que faz Bolsonaro? Corta a publicidade, avança na comunicação direta com o público e elege grupos de comunicação e jornalistas como seus principais inimigos.

O Congresso Nacional também sai extremamente fragilizado da eleição de Bolsonaro. Hoje, todos aqueles que endossaram o atentado à democracia comandada por Eduardo Cunha, Aécio Neves e Michel Temer e deram “tiau, querida” devem estar arrependidos.

A política foi criminalizada, não existe mais o chamado presidencialismo de coalizão e quem quiser algum cargo terá que negociar com o general Santos Cruz. Cunha está preso, Temer solto por uma liminar. Aécio virou um zumbi no parlamento.

Chegamos então aos militares. Em tese, foram os grandes vencedores. Ocupam hoje os cargos abertos com a chamada “despetização” da máquina pública e estão praticamente fora da reforma da Previdência (que não passará), mas o Brasil nunca foi tão subalterno como agora.

Se antes do golpe os militares ainda desfrutavam de uma boa imagem na sociedade, o risco que correm hoje é gigantesco. Bolsonaro é o presidente pior avaliado em seus primeiros meses e a corrosão de seu capital político se dá numa velocidade inédita.

Diante desse quadro, o Brasil já voltou a funcionar em modo golpe. No sábado, Merval Pereira, principal colunista do Globo, disse que Bolsonaro é um “sem-noção” e avisou que placas tectônicas da política começaram a se mover – o que talvez signifique que a Globo esteja se movendo.

Nesta terça-feira (26), a Federação das Indústrias reunirá 500 empresários em torno do vice Hamilton Mourão. Aliás, os empresários industriais também sofrem com a estagnação econômica de um país que não cresce há mais de quadro anos – ou seja, desde quando começou a ser tramado o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

O fato é que a elite já busca um caminho para se livrar de Bolsonaro, que, por sua vez, tentará se segurar nas redes sociais – e também com o apoio que tem da administração de Donald Trump.

Hoje, Bolsonaro só não é um problema para os Estados Unidos.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

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