Aquilo que não roubam de Itabira

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Em Itabira uma certa ordem foi rasgada. Agora, no lugar da ordem, no Pico do Amor, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) construiu o Memorial Carlos Drummond de Andrade.

Então, no lugar da Ordem tem-se um conjunto harmonioso e o encantamento da arte. A nova paisagem no Campestre foi interferência de um “minino” do Cometa, Altamir Barros, que também é um José.

Leia a seguir mais um trecho de Maria Julieta entrevista Carlos Drummond de Andrade – gravação disponível no sítio do Instituto Moreira Sales/Rio. A entrevista foi gravada no verão carioca de 22 de janeiro de 1984. (MCS)

Ordem Desordem – Eu já perdi na minha mesa um relógio

CDA por CDA (Paquim21). No destaque, fachada do Memorial Drummond (Acervo: Cristina Silveira)

Eu sou metódico realmente. Mas é um método sujeito a furos, a falhas. Por exemplo, a minha mesa é uma mesa simples. Eu coloco aqui apenas os elementos necessários para eu escrever: uma máquina de escrever, papéis, lápis, caneta, o papel que me interessa no momento para eu basear nele informações, dados, um recorte de jornal etc.

Sucede que quando eu vou procurar esse papel eu não encontro. Eu já perdi na minha mesa um relógio, ninguém entrou aqui para roubar. Perdi o relógio. Um relógio de ouro, elegante, moderno. O meu relógio é um relógio velho, antiquado. Outro dia eu fui a um escritório comercial, o sujeito não me conhecia, ele olhou para mim assim:

– Quer vender este relógio? É um relógio antigo. Eu sou um colecionador. Eu dou um bom preço.

– Não quero vender o relógio.

Tenho esse relógio até hoje, atrasa um pouco, mas que é antigo, ele presta serviço ao passo que um relógio novo que você me deu, era premium, desapareceu na minha mesa, eu não sei o que é que eu fiz com ele.

Lição das coisas – A noite o papel copula, nascem filhotes de papel

Papel é uma coisa muito caprichosa, muito traiçoeira. A minha teoria é que à noite o papel copula, então nascem filhotes de papel, nasce as vezes até resma de papel, datilografado, manuscrito ou em branco. Eu rasgo o máximo que eu posso. Toda noite eu rasgo uma porção de papéis, eu rasgo sempre, mas não obstante ele prolifera.

Roupa velha – Eu detesto aproveitar roupas velhas

Os objetos de serventia que já não se prestam ao uso, devem ser destruídos ferozmente. Eu detesto aproveitar roupas velhas.

Marcenaria – Um lambri enorme na minha sala de jantar

De vez em quando a mesa vai escurecendo e eu vou raspando. Como eu raspei, numa ocasião quando moço, um lambri enorme na minha sala de jantar, porque o tom do lambri não me agradava, era muito escuro, eu já sou inclinado a pensamentos sombrios, para que eu ia escurecer ainda mais o ambiente?

É um certo prazer manual de fazer as coisas, porque eu não sou de fazer, eu não sei consertar uma instalação elétrica. Eu não sabendo fazer essas coisas tenho que usar o mínimo de habilidade manual e as pequenas tarefas eu faço.

Raiva – Eu queria rasgar as pessoas, eu queria rasgar a vida

Eu acredito, sim, que o meu hábito de rasgar papel resulta também do fato seguinte de que antes eu não queria rasgar papel, eu queria rasgar as pessoas, eu queria rasgar a vida.

Nunca cometi nenhum assassinato, nem tentativa de assassinato, nem de agressão, nem nada. As poucas vezes que briguei de mão foi reagindo contra uma agressão e eu não me lembro disso com alegria, não foi bom.

Em suma, eu então precisava destruir e não há nada mais agradável do que destruir um objeto de que você não precisa. E não me limito aos papéis, eu vou até boneco, eu vou até a caneta esferográfica que funciona mal eu arrebento até abrir em duas. E com isso eu dou vazão ao meu sentimento, meu impulso agressivo, eu acho que é legitimo, sabe.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

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