Aos 90 anos, marceneiro e luthier itabirano volta a fabricar violas

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Carlos Cruz

Depois de ter parado de fabricar violas de dez cordas há cerca de dez anos, segundo ele, para não fazer “concorrência” com o filho Luiz Cássio Martins, fabricante de violas e violões, o marceneiro e luthier José Martins Cruz retorna agora ao ofício, aos 90 anos, completados nessa terça-feira (3/10).

Zé Cruz, em sua lutheria, acerta o “corpo” da viola na forma: de volta ao ofício aos 90 anos

“Como o Cássio não mora mais aqui (o seu filho luthier está residindo em Cabo Frio – RJ), voltei a fabricar as minhas violinhas, mais por diversão do que para ganhar dinheiro”, assim ele explica a decisão de retornar ao ofício de luthier, que é como se designa a arte de confeccionar instrumentos musicais de cordas.

“Nós nunca fomos concorrentes. Aprendi muito com ele, como ensinei também. Fico feliz vendo o meu pai na ativa, voltando a fazer as suas violas, um desafio que ele aceitou com prazer”, alegra o filho luthier, feliz com a volta do pai ao ofício.

Da esquerda para a direita: Ismael Cabral, Joaquim Cruz, Renato Andrade (violeiro) e Zé Cruz (Foto: Eduardo Cruz)

Foi na década de 1980 que Zé Cruz se tornou um luthier, ofício que aprendeu sozinho, fabricando violas e violões, sucessos de venda e de crítica entre músicos e instrumentistas de Itabira e da região.

“Hoje, faço violas para passar o tempo. Se vender, é lucro”, diz ele, que está concluindo os primeiros instrumentos depois do retorno ao ofício.

Antes, no início da década de 1970, ele fabricou guitarras e contrabaixos sob encomenda de “uns cabeludos que tinham uma banda de rock”.

Com certeza, Zé Cruz foi um dos pioneiros na fabricação de guitarras no país. “A parte eletrônica era montada por um estudante de Itabira que fazia curso técnico em Belo Horizonte”, relembra.

Luiz Cássio, Paulinho da Viola e Zé Cruz: Festival de Inverno de 2013

Mas logo depois, com o sucesso da onda roqueira com a Jovem Guarda e o Tropicalismo, surgiram as guitarras importadas, mais baratas e com qualidade melhor.

Como as encomendas diminuíram, Zé Cruz abandonou precocemente o novo ofício. “Era mais uma diversão”, reafirma o que disse antes, em relação às violas que voltou a fabricar artesanalmente.

Algumas obras

Com a filha Anna Beatriz em visita a Ipoema, na igreja matriz

Na arte de talhar a madeira, Zé Cruz fabricou móveis sob encomenda, armários embutidos, portas e janelas para a maioria das casas construídas nos bairros Pará e Campestre. O mobiliário de muitas famílias itabiranas tem a sua assinatura, com a marca de móveis de qualidade.

O marceneiro itabirano é também autor de algumas obras de arte em Itabira. É de sua autoria, por exemplo, a confecção do altar da Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Ipoema, fabricado sob encomenda do padre João e inaugurado em 1957.

Outra obra religiosa importante foi a reconstrução do altar da igreja da Saúde, em 1979. Antes, ainda como empregado da Vale, em 1944, ele participou da primeira reforma de seu altar. “Como não foi imunizado, os cupins tomaram conta e comeram a madeira. A pedido do padre César, refiz todo o altar. Só aproveitei algumas peças”, recorda.

Na igreja da Saúde, em frente ao altar que reconstruiu, em 1979

Foi ele também quem fabricou os marcos, portas e janelas do segundo prédio construído pelo Colégio Nossa Senhora das Dores, em Itabira. “Fabriquei também portas e janelas para o colégio das irmãs no Rio de Janeiro”, conta, com orgulho.

Zé Cruz se dedicou ainda à construção civil, tendo construído vários imóveis nos bairros Pará, Panorama e Amazonas.

Trajetória

Nascido na fazenda Barbosa, em Itabira, em 3 de outubro de 1927, José Martins Cruz aprendeu com a vida que nada se consegue sem esforço, disciplina, dedicação e trabalho.

É o que explica também a sua longevidade, com a disposição de quem quer sempre seguir em frente. “Eu só paro de trabalhar quando não mais aguentar ficar em pé.”

Com o filho Luiz Cássio, tocando viola. Os móveis de jacarandá foram por ele fabricados

Foi ainda vivendo na roça que ele frequenta por pouco tempo uma escola, na fazenda do Peão. Com a professora Adir Lage Linhares, a Dirote, falecida aos 103 anos, aprende a ler e escrever, somar e subtrair.

Do aprendizado inicial, ainda na fazenda paterna, fez-se o profissional autodidata e múlti ofícios: foi vaqueiro, queijeiro, marceneiro, carpinteiro, construtor de casas, de móveis sob encomenda e altares de igreja. E de violões e violas também.

Aprende sozinho, ainda na adolescência, a desenhar, projetar e construir móveis e varandas com precárias ferramentas, todas fabricadas por ele. Na roça, constrói porteiras, engenhos d’água e móveis para os fazendeiros vizinhos. Cuida também da ordenha das vacas leiteiras. Fabrica queijo e rapadura, entre outras tarefas.

Ao completar 18 anos, Zé Cruz sai pela primeira vez da roça para trabalhar na Vale, como marceneiro. Fica empregado por pouco tempo: um ano e dois meses. “Ajudei a montar a primeira correia transportadora de minério na mina Cauê.”

Cristaleira e réplica do altar de Ipoema: obras de Zé Cruz

Pouco depois, convidado pelo primo José Menezes, oficial do Exército Brasileiro, em 1949 foi trabalhar em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

Ficou um ano e dois meses. “Fiz muitos móveis por lá, inclusive fabriquei um mobiliário completo para uma família que morava em Buenos Aires, na Argentina”, conta.

O seu regresso a Minas Gerais ocorre em 1951, quando foi contratado por uma fábrica de móveis de Timóteo (Acesita), no nascente Vale do Aço. Fica por lá pouco tempo.

Retorna a Itabira em 1952 para trabalhar na fábrica de móveis de Virgílio Andrade. Deixa o emprego em 1954 para abrir a sua marcenaria e carpintaria, incentivado pela esposa Maria de Alvarenga Bretas, recentemente falecida.

Dá um orgulho enorme escrever sobre Zé Cruz, meu pai. Por isso compartilho um pouco de sua história aqui neste site, uma pequena homenagem a esse ser humano sem igual, exemplo de vida para os filhos, irmãos, netos, sobrinhos e para todos que o conhece.

 

 

 

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Sobre o Autor

9 Comentários

  1. José Garcia Coelhi on

    Bela reportagem Carlos! Bom conhecer a história de vida do seu pai. É uma alegria imensa saber que ele esta bem, esbanjando saúde e disposição … Muito legal.. Meus parabéns a ele é a todos vocês.. Abs.. Zé Garcia!!!

  2. Carlos Cruz,
    Gostaria de dimensionar o nível de orgulho que você tem de ser continuidade da linha de Zé Cruz. Mas, isso não tem medida, né? É um privilégio! Transmita a ele minha saudação de que se existe algo maior que a felicidade é o que desejo no seu aniversário. E me coloca na fila ‘preferencial’ para adquirir uma viola. É eterna lembrança para recordar.
    Abs
    Lenin Novaes

  3. A viola e o violeiro

    Cada qual no seu tempo e espaço dependem do compasso do artista luthier
    O sr Carlos cruz no seu ofício dedicado faz por merecer
    A viola depende dele para poder existir e ser um instrumento qualificado
    O violeiro depende da viola para poder exercer com maestria o rasqueado
    E MESTRE Zé Cruz com carinho e com cuidado faz nascer a viola, executa e nos consola com habilidade o ponteado

  4. Muito boa a breve retrospectiva do Zé Cruz, grande e longevo artesão das madeiras. Muito antes da onda da bonita palavra “sustentabilidade”, ja o ouvia falar em defensa do uso da madeira de reflorestamento ao invés do aço, “produto esgotável”.
    Zé Cruz é também um grande memorialista de casos, causos e ocorrências de Itabira, como origens de nomes: do beco do caixão, beco do calvário e outros mais. Vale uma sequência destes pitorescos relatos. Sem falar que é crítico da ingrata sina mineradora de Itabira e é dado a vaticinar.

    • cristinica de cervantes on

      Que notícia boa a presença do Zé Cruz, de d. Mariinha no Vila de Utopia.
      Eduardo, te dô fiança ao acrescentar à matéria do Carlos, a ausência de temas que se pode abrir na roda do luthier José Cruz Martins. Porque tá na cabeça, grafados na pele, novent’anos de vida de Itabira, de sua gente e de suas árvores.
      /A história da arte mobiliária data de 4 a 5 mil anos A.C., com a fundação da cidade de Mênfis, a margem ocidental do rio Nilo (anotei do manual de marcenaria, de Domingos Marcellini).
      Zé Cruz é patrimônio artístico e é também uma pessoa Moderna. Tomei conhecimento de Zé Cruz pelo jornal O Cometa. Ele, na coluna de cartas criticou os erros de editoria na entrevista do bispo d. Mário ao jornal. Eu achei a entrevista um porre, chatíssima, caretíssima, e por esta razão imaginei zécruz, um jovem como eu. Quando o conheci pessoalmente tomei um susto: não era jovem, era coroa, mas Moderno. E tempos depois, tive a glória de ser defendida, no público, pelo Moderno pai de amigos meus.
      Não Vá a Academia, Faça Marcenaria e Experimente Viver 90 anos. “No exercício da marcenaria nenhuma das posições de trabalho força o artífice a ficar em atitude prejudicial ao seu físico. Pelo contrário, todas desenvolvem e robustecem o indivíduo. O pó inalado das madeiras é tido por muitos médicos como medicinal. Efetivamente, nunca se soube que um marceneiro viesse a sofrer dos pulmões. ” (DM)
      Longa vida ao mestre!

  5. Muito legal saber que sr Zé Cruz está firme e fala que ” só para de trabalhar quando não conseguir mais ficar de pé”. Exemplo para todos. Muita saúde para o senhor.

  6. Pingback: Toda história que se conta merece registro, se possível em livro para celebrar os 150 do Cartório de Imóveis de Itabira - Vila de Utopia

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