Ainda sobre a cocaína no avião da comitiva de Bolsonaro

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Rafael Jasovich*

​​Bolsonaro pode usar a desculpa que quiser, mas um fato é inafastável: no seu governo, um avião presidencial foi usado para traficar 39 quilos de cocaína.

Segundo a polícia espanhola, a droga foi encontrada em 37 pacotes na mala de um segundo sargento da Aeronáutica, de 38 anos, no aeroporto de Sevilha, na Espanha.

Quem compra 39 kg. Normalmente as apreensões revelam números redondos 40 kg, 100 kg e por aí vai. Acho que faltou um quilo, onde será que foi parar, quem era o comprador? Como uma pessoa carrega esse peso sozinho? São perguntas  sem respostas até agora.

Cocaína apreendida no aeroporto de Sevilha, na Espanha, encontrada no avião presidencial (Foto: El País)

Chama atenção a manifestação de Bolsonaro no Twitter. O texto sobre o episódio é evasivo e, ao contrário das demais postagens, está em uma imagem. É a fotografia de um texto previamente escrito. Provavelmente, não foi ele quem escreveu.

No texto que assina, Bolsonaro fala sobre a formação militar dentro dos “mais íntegros princípios da ética e moralidade” – e não cobra explicações sobre como houve essa falha na segurança.

Na hipótese de que tenha havido mesmo falha, essa deve ser debitada na conta do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

Imagine-se se um evento desse tipo tivesse ocorrido no governo da Dilma Rousseff ou do Lula? Como a imprensa estaria tratando o caso?

No texto, Bolsonaro também coloca em dúvida se o militar preso era mesmo o portador da droga, ao dizer:

“Caso seja comprovado o envolvimento do militar nesse crime, o mesmo será julgado e condenado na forma da lei”.

Sim, poderá ser. Mas não pelo Brasil, que não tem jurisdição sobre o que acontece em território espanhol.

Segundo-sargento da Aeronáutica, Manoel Silva Rodrigues

O caso será julgado pela Justiça espanhola. Se o flagrante tivesse ocorrido na Indonésia, o militar seria condenado à morte. Foi o que desejou o presidente em uma entrevista, numa defesa subjacente da pena de morte.

Também chama a atenção que, depois desse flagrante, o governo tenha alterado a rota do voo que levaria Bolsonaro. A aeronave faria o reabastecimento no aeroporto de Sevilha, o mesmo onde a cocaína foi apreendida, mas mudou a escala para Lisboa.

Não houve explicação para essa mudança, o que só faz aumentar o vexame.

O avião com cocaína é o da frota presidencial usado na missão precedente. No caso de defeito no avião principal, é usado para transportar o próprio presidente.

Saudades da época em que a aeronave presidencial carregava cachaça.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

 

 

 

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