Ainda pode chover ouro no Pontal? A Agência Nacional de Mineração quer saber. E Itabira também

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Carlos Cruz

Quando estourou o garimpo de ouro na grota do Minervino, no mais famoso braço da barragem do Pontal, em Itabira (MG), no início da década de 1980, em um primeiro momento, a então estatal Companhia Vale do Rio Doce negou que a sua ocorrência fosse significativa.

“Menos de 50 miligramas de ouro por tonelada de rejeito”, declarou, peremptoriamente ao jornal O Cometa o então superintendente Mário Pierry, que pediu ajuda ao prefeito e à Polícia Militar para retirar os “invasores” do Minervino.

Para a Vale, mesmo com o grande número de desempregados naquela época, como também agora, não importava se o garimpo havia se transformado em uma frente emergencial de trabalho.

Naquela mesmo período histórico, de profunda recessão no país, a própria Vale havia sido obrigada a abrir uma frente de trabalho no porto de Tubarão, em Vitória (ES). Nessa frente, os desempregados retornavam com o minério que caia fora para a área de carregamento dos navios.

Foi com esse argumento que o então prefeito José Mauricio Silva (1983-88) não concordou com a retirada dos improvisados garimpeiros itabiranos da grota do Minervino.

Foi assim que o garimpo permaneceu. E a notícia de que havia ouro no “lixo” da Vale se espalhou feito vento – e vieram para Itabira garimpeiros de todas as partes do país.

Como não havia organização para restringir a entrada no local, a Vale apostou no caos para jogar garimpeiros locais e adventícios contra moradores vizinhos – e assim obter apoio para retirar os “invasores” de sua área de rejeitos. Não conseguiu e o garimpo permaneceu por muitos anos.

Formigueiro

No início, o garimpo de ouro na grota do Minervino atraiu os desempregados de Itabira. Depois vieram garimpeiros de outras paragens (Fotos: Eduardo Cruz)

A grota do Minervino virou um formigueiro humano, à semelhança do que acontecia em Serra Pelada, no estado do Pará, que pouco antes, no final da década de 1970, se transformou no maior garimpo de ouro do país – uma história mal contada de exploração e repressão que ainda não terminou.

Em represália por não conseguir esvaziar o garimpo, a Vale também não permitiu que a Prefeitura criasse uma infraestrutura mínima, com banheiros e outras obras de saneamento, para dar aos garimpeiros condições mínimas de trabalho.

A maioria pouco lucrou, apenas assegurou a subsistência enquanto durou o garimpo. Poucos bamburraram e fizeram fortuna com o ouro do Minervino.

Com o passar do tempo, e com a Vale alterando as descargas do rejeito, o que causou muitas mortes de garimpeiros, o precioso metal ficou escasso na grota, mas sem nunca deixar de existir.

Homens, mulheres e crianças aguardam a descarga do rejeito da usina Cauê na grota do Minervino, na barragem do Pontal

Projeto Ouro

A Vale, que antes dizia ser insignificante o teor de ouro incrustado no itabirito, acabou por instalar uma usina só processar a sua separação do minério de ferro.

Por mais de uma década explorou o ouro de Itabira, chegando a produzir 750 quilos em 1994. Depois a produção caiu para 500 quilos anuais, chegando a produzir 20 quilos nos últimos anos até o abandono do projeto Ouro.

Agora, depois de mais de duas décadas, a Agência Nacional de Mineração (ANM) quer que a Vale apresente um histórico da lavra do minério de ouro no complexo, antes de aprovar o novo plano de aproveitamento econômico do que ainda restam das minas de Itabira, .

O objetivo da agência reguladora é discutir a situação atual dos recursos e das reservas minerais existentes na área da poligonal do chamado Grupamento Mineiro de Itabira.

“Caso seja de interesse da Vale manter esta substância no processo, providenciar a aprovação de uma reavaliação de reserva e de um plano de aproveitamento econômico para minério de ouro”, diz o requerimento da ANM, que a Vale tem até o dia 14 setembro para responder. E que Itabira também precisa saber.

Leia mais aqui ANM pede informações à Vale sobre o complexo de Itabira antes de aprovar novo plano de aproveitamento econômico de suas reservas

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1 comentário

  1. Cristina, A Velha on

    Ter a Vale S/A no território significa que o genocídio está por vir. Eles expropriam terras, secam as águas, expalham doenças, matam as pessoas. E os escravizados dizem amém à um tiquinho de nada que lhes sobra. A Vale S/A, não tem o sentido de HUMANIDADE. É horrível! para sempre horrível! É nojento! E a cidade se submete comemorando a sua tristeza profunda, o silêncio cúmplice. E o poeta Drummond foi um dos criadores da Sociedade dos Inimigos do Progresso porque tinha a certeza profunda da desgraçaria.

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