Adote uma praça antes que a cidade acabe junto com ela

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Mauro Andrade Moura

“Adote uma praça” é o nome de uma lei municipal praticamente nunca aplicada em nossa cidade. Em agosto próximo essa lei completa dez anos e nada, ou quase nada, foi feito pela administração municipal ou pelos munícipes, principalmente empresas que poderiam contribuir para melhorar a paisagem urbana.

Parque da pracinha do Pará já está precisando de reforma e ser redimensionado (Fotos: Mauro Moura)

Uma boa exceção foi a reforma da pracinha do Pará (oficialmente praça Dr. Nelson Lima de Guimarães), revigorada como medida compensatória de licença ambiental de um loteamento. Devia servir de exemplo. No entanto, pouco tempo após a reforma já necessita de cuidados urgentes: falta parte dos brinquedos e na parte baixa não há escoamento de água de chuva.

Infelizmente o panorama na cidade nos leva ao sentido da visão de uma quase tragédia, tanto são os estragos e descuidos com as praças criadas para a população usufruir.

Área verde com escultura de Zumbi: abandono e desleixo

Um exemplo negativo da falta de visão empresarial – e de compromisso com a comunidade, é a área verde anexa à praça Acrísio de Alvarenga, no centro. O local teve o seu traçado alterado em benefício de um supermercado localizado em frente, serviço executado pela administração municipal exclusivamente para facilitar o acesso de seus clientes.

Em contrapartida, a empresa dona do supermercado devia ter sido responsabilizada, como medida compensatória, por cuidar da área, adotando-a e melhorando a paisagem local, com uma bonita jardinagem. Nada ocorreu e nem foi cobrado. A escultura de Zumbi continua maneta, praticamente desde o dia que foi inaugurada. Foi pichada e fica por isso mesmo, ninguém cuida.

Matagal na estrada Cento e Cinco, na divisa com a mina: responsabilidade da Prefeitura ou da Vale?

Na estrada Cento e Cinco, que já foi área de lazer nos fins de semana, o mato toma conta e invade a pista, com risco de provocar acidentes.

Situação semelhante pode ser observada ao longo da estrada de ferro, com o mato ainda verde prestes a secar e virar foco de queimadas. Os trevos da Vale também já foram bem cuidados, com jardins e floreiras. Hoje, mal são roçados.

Mato verde na ferrovia vira tição assim que secar: capina química não vale

E mais um exemplo de cidadania, temos os moradores do Bairro Pará que se uniram para limpar a Praça João de Oliveira Torres – o Lolão, ex-prefeito de Itabira (leia aqui).

Pracinha do Paredão, no bairro Pará, pede reparo do corrimão, limpeza e pintura

Passados poucos dias, o local já está sujo com embalagens jogadas ao chão pelos transeuntes. Isso sem contar que as escadas de acesso à rua Dr. Grisolia e o corrimão estão danificados. O paredão está encoberto de lodo, necessitando de limpeza profunda e de pintura, e de outras melhorias.

Matagal na central telefônica da Oi, no bairro Pará: abandono

No mesmo bairro Pará, outro exemplo de cidadania empresarial era o bonito jardim da Telemig. Era, porque hoje virou um imenso capinzal da operadora Oi.

No Distrito Industrial a ausência do poder público é evidente, mas os empresários bem que podiam cuidar dos trevos e cortar o matagal. Quando secar, o risco de queimada é iminente, com ameaça inclusive ao patrimônio empresarial.

Água nada benta

A Prefeitura prometeu revitalizar o parque da Água Santa, mas ficou até aqui só na promessa e no corte do matagal: o esgoto continua lançado no poço. E o pior é que falam em colocar uma santa no lugar para atrair turismo religioso. Um absurdo. Se isso ocorrer, será um atentado à história.

Poço da Água Santa continua com esgoto: vergonha municipal

O milagre da água santa era por curar feridas dos garimpeiros e moradores que ali banhavam até pouco mais de meados do século passado.

Curava pelas suas qualidades termais, medicinais e de assepsia. E não por um suposto milagre de uma santa que nunca existiu por lá. Se colocarem uma santa, Itabira mais uma vez será objeto de escárnio nacional.

Outro fator preponderante para o mau cuidado das praças é a falta do artífice de calceteiro nos quadros de funcionários da prefeitura municipal.

Desapareceram com o ofício, mas a necessidade do cargo e do oficial em si permanece face às calçadas em pedras portuguesas das praças da cidade estarem se soltando, necessitando de urgente reposição. Não há uma única calçada portuguesa que esteja em bom estado, inclusive ocasionando alguns acidentes com os pedestres.

Em todas praças onde existem calcadas portuguesas, as pedras estão se soltando: faltam calceteiros

Das várias esculturas e placas indicativas dos nomes das praças, quase todas estão sujas de tinta por pichadores, com palavras ilegíveis e a costumeira falta de remoção dessa sujeira. E o que dizer do abandono dos Caminhos Drummondianos? Uma vergonha.

Flores praticamente não existem nas praças, pois a figura do jardineiro também foi excluída dos quadros funcionais da Prefeitura de Itabira. Uma pena, pois com tanta mão de obra disponível, e espaço para desenvolver essa função, todas as praças deveriam estar sempre coloridas pelas flores e jardineiras.

Como cuidar bem das praças, jardins e dos cemitérios não precisa ser ensinado. Afinal, a mesma equipe que hoje comanda o setor de urbanismo na Prefeitura soube cuidar bem das praças e dos jardins no governo do ex-prefeito Li Guerra (1993-96). E não esqueçamos do cemitério da Paz, outro horror. O do Cruzeiro foi revitalizado e está bem cuidado pelo Knor.

Na praça João Cândido Moura, vizinhos fizeram a reforma e um bonito trabalho paisagístico

Para não dizer que tudo são espinhos, temos ainda as flores cultivadas pelos moradores vizinhos da praça João Cândido Moura, que fizeram por conta própria a sua reforma e um bonito trabalho paisagístico.

É outro raro exemplo a ser seguido, observado também no mutirão realizado no parque Belacamp, na divisa dos bairros Campestre e Bela Vista.

São esforços de parte da população, que, infelizmente, não são seguidos por todos na comunidade. Com certeza existem outras boas iniciativas na cidade. Mas são poucas – deviam ocorrer muito mais, ao invés de só ficar cobrando da Prefeitura, que já não dava conta do recado, agora muito menos.

Já a Prefeitura precisa assumir com urgência as suas obrigações com o paisagismo nas praças públicas e áreas verdes na cidade. Se é que deseja uma cidade melhor para se viver e também atrair turistas pelo legado drummondiano. De nada vale ficar só na intenção, é como bola que bate no travessão. Mas o que se observa é o cuidado de menos, deixando a cidade cada dia mais feia, esburacada e empoeirada. Um horror!

Com a palavra a responsável pelo departamento de parques e jardins, que chama Itabira de “minha Paris”. Um devaneio que bem podia ser transformado em gestos práticos de bem cuidar e querer bem à cidade e à sua população.

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