A mulher nossa de cada dia

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Barba Azul*

Afinal, a razão estava mesmo com aquele senhor tenebroso, que sete vezes amou para sete vezes matar. Não que tivesse razão em matar, mas em amar sete vezes. Estou convencido – e a humanidade também o estará, sem o dizer – que é realmente impossível amar menos de sete vezes na vida. Que digo? É impossível amar menos de sete vezes na semana, e cada vez de um amor diferente.

Cada dia traz o seu desejo e a sua necessidade. Transferir esse desejo para o dia seguinte, ou emendá-lo com o do dia anterior, não parece boa política. O melhor é – com a folhinha diante dos olhos – fazer com que o amor de segunda-feira seja diferente.

Que necessidade há de repetir? Não se assiste um filme duas vezes, não se repete um sorvete de morango. Os jornais de três dias atrás perderam todo o interesse e o rei do Sião quando morre, morre uma vez só.

De resto, a semana é tão comprida e a vida tão curta! Há pessoas que, chegando à quinta-feira, já não se lembram do que fizeram na segunda e olham para o domingo como para a Ásia longínqua. Outras, quando se despedem, dizem “até amanhã”, como se embarcassem para Manaus, e o seu abraço afetuosíssimo vigora apenas por 24 horas.

E depois, os sete dias da semana são tão diferentes uns dos outros. Mulheres há que talvez não convenham à calma bonancheirona dos domingos, que foi feito para as senhoras gordas. São nervosas, finas, rápidas: precisamente mulheres próprias paras as quartas-feiras. E outras, diretas e exatas, são ótimas para se começar a semana, uma semana de trabalho, de lutas e de entusiasmo: mulheres das segundas-feiras.

Há também (e é o lado difícil dessa divisão sentimental da semana) as mulheres das sextas-feiras. São mulheres fatais ou cacete. Sempre terríveis. Vestem-se de marrom e passam por sobre a gente como um Studebaker.

Pensando melhor, eu proporia seis mulheres para a semana; e em vez de descansarmos no domingo, descansaríamos na sexta, com leituras piedosas e um aviso na porta: “Fechado para balanço”.

 

*Barba Azul é pseudônimo de Carlos Drummond de Andrade. Crônica originalmente publicada na década de 1930 no suplemento “Minas Gerais”, do qual o poeta itabirano foi redator. E foi republicada na coletânea Crônicas (1930-1934), editada pela Secretaria de Estado da Cultura, em 1987.

 

 

 

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