“A minha filha teve papel muito importante na minha vida”, diz Carlos Drummond de Andrade

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Papo reto entre mãe e filho “desvendando um claro enigma”:

– O teu avô não é um gênio, é um grande homem.

Neste sábado (31), Itabira e o país celebram os 118 anos de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902/87).

Desde o dia 1º, a Vila de Utopia vem publicando crônicas sobre o poeta, sua vida e grandiosíssima obra literária e jornalística, assim como trechos da série Maria Julieta entrevista Carlos Drummond de Andrade.

Confira os últimos trechos da gravação dessa entrevista, que está disponível no sítio do Instituto Moreira Sales/Rio. A entrevista foi gravada no verão carioca de 22 de janeiro de 1984.

Viva Drummond, viva a poesia que nos tornam mais leves, soltos e livres para entender os enigmas dessa vida. (MCS)

Claro enigma

Você se negou um pouquinho a dizer sobre sua filha. A sua filha às vezes te provoca, nem sempre te agrada. Não é? Você sabe que temos conflitos…

A minha filha teve um papel muito importante na minha vida. Sendo filha única, ela evidentemente deve me interessar profundamente como filha. Eu sinto nela um espírito, uma formação, não digo uma formação interior, porque ela sabe mais coisas do que eu, ela é mais culta, ela fala línguas que eu não falo.

Mas eu sinto nela uma camaradagem de espírito comigo que é muito agradável. Eu tenho com minha filha conversas que eu não teria com uma amiga comum ou com um amigo comum, porque ela entende bem os meus lados, os débeis e também me estimula, me anima criticando.

Ela faz um bem muito grande a mim, porque ela diz as coisas que eu gostaria de ouvir das pessoas francas e que a pessoa não diz.

Os defeitos de sua filha?

Eu não julgo minha filha. Ela é uma pessoa adulta, com que direito eu vou julgar a minha filha? Não, eu não tenho. Ela não me julga, nós somos amigos, um amigo não julga o outro amigo. Temos uma boa camaradagem, uma fraternidade muito grande.

Isso eu acho muito importante porque não tendo outros filhos para dividir, para eu multiplicar em carinho. Eu tenho que concentrar nela todo o amor que eu podia ter.

Então eu acho que é uma relação muito boa, saudável neste sentido. Outra coisa, ela escreve, eu também escrevo e nenhum de nós faz concorrência ao outro. Nós dois somos muito livres.

Só faltava…

Podia ser. Há o caso complicado do filho ou da filha que tendo um pai ou mãe conhecida, escritora etc, etc…, se sinta um pouco ilhada. Ela, não. Segue o seu caminho com a maior naturalidade. Eu também não me sinto afetado, ela vai conquistando um nome, vai se tornando mais conhecida, mais admirada.

Hoje, nós acabamos de almoçar e duas senhoras se apresentaram como admiradoras dela. Uma mais recatada ficou na mesa isolada e a outra veio nos procurar para dizer coisas amáveis a ela.

Então eu acho que realmente ela está seguindo uma carreira bastante interessante. E é pelo esforço próprio, porque ela não tira nenhum partido. Isso é uma convenção tácita entre nós, por ser minha filha tirar proveito disso, de forma de notoriedade. Eu acho isso muito bom.

Não está contra ela, não está triste com ela? Está satisfeito?

Porque eu haveria de estar triste? Ora vá te catar, vai!

É uma pergunta absurda, talvez, mas os seus arquivos, os seus papeis. Que destino você gostaria que isso tivesse?

Foi muito bom você perguntar isso porque você antecipou uma conversa que pretendo ter com você. Eu desejo que você seja minha testamenteira intelectual. Vou deixar todas as minhas coisas à sua disposição, para você fazer delas o uso que quiser.

No momento tenho que entregar alguns livros à Record. Vamos admitir que amanhã eu não possa mais entregar todos, porque a doença me iniba disso ou mesmo que eu desapareça.

Então eu pediria a você para tomar conta desses papéis e caso você ache que eles sejam publicáveis, você os organize da maneira que lhe parecer mais adequada ao meu modo de ser e os publique com toda liberdade de conservar ou de jogar fora aquilo que te pareça menos interessante.

Isso para mim é muito importante porque não é todo escritor que tem o privilégio de ter uma filha ou um filho escritor e com bastante sensibilidade para avaliar o que o pai fez. E acho que você é a herdeira natural.

 Ouça #VillaLobos Poema de Itabira • Villa-Lobos • National Symphony Orchestra

No destaque, Maria Julieta, Dolores e Carlos Drummond de Andrade (Foto: acervo Instituto Moreira Salles)

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

 

 

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    Finalmente, caro editor, mantivemos a tradição, iniciada pelo Cometa, de louvar o poeta Drummond. E foi muito bom os 31 dias com Drummond. Beijo você querido Carlos pela oportunidade de participar da festa. E ontem o Genin lançou um novo livro e isso significa elevar a Itabira o gosto pelos livros, pela arte…
    Mas amanha ainda faremos uma homenagem para fechar o mês…

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