A ideologia do progresso pulveriza a mais profunda referência da Cidadezinha, o Pico do Caué, que brilha em Paris  

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Por Cristina Silveira

 Tutu Caramujo cismou. Ao poeta Drummond foi dado o tempo de presenciar a derrota incomparável. Mas não viu a atrocidade, o genocídio em Mariana e Brumadinho. Em 1975 o cidadão Carlos Drummond de Andrade aderiu a causa e foi o diretor da Sociedade dos Inimigos do Progresso, presidida pela escritora Raquel de Queiroz; tiveram visão, viram o Brasil na contramão do desenvolvimento.

Afinal, o mundo vira e eu me lembro daquela frase grafitada no viaduto do VEC Campestre, em 1989 – Meu pai 30 anos, e Eu? Foi um protesto político, instigante e marcante. Agora e na perspectiva do anti progresso, torna-se ícone da derrota, evocação da servidão de pai pra filho.

Para esta edição, a Vila de Utopia traz notícias publicadas em periódicos, entre o fim do império e início da república, uma representação da identidade cultural da Cidadezinha oitocentista.

De século em século, cá estamos no 21, pensando em pandemia, pandemônios, “biossegurança” e “feudalismo digital”.

Afinal… Fique em casa. E boa Leitura

O inglês que perdeu o rumo no Espinhaço e foi parar na Itabira

O inglês John Kenwerthy que se perdeu em Minas Gerais e veio parar em Itabira para colocar para funcionar os teares da fábrica da Gabiroba (Fotos: acervo BN. Pesq. MCS)

A edição de 1/3/1911, da revista A Ilustração Brasileira anuncia a volta para a Inglaterra de John e Mary Kenworthy com breve relato de sua vida no Brasil: “O Sr. John Kenworthy conta atualmente com 72 anos de idade. Chegou no Brasil em 3 de janeiro de 1878, indo logo depois para Itabira de Matto Dentro, em Minas Gerais, onde instalou a Fábrica de Tecidos Itabirense”.

A Fábrica de Tecidos Itabirense é, na verdade, a Cia União Itabirana – Fábrica da Gabiroba –, esclarecido no relato da neta de Kenworthy, Zuleika Sucupira Kenworthy (1912-1917). Viveu 105 anos, alguns deles na escola de Direito da Faculdade do Largo de S. Francisco, graduando-se 1942.

Zuleika foi combatente voluntária na Revolução Constitucionalista de 1932 e a primeira mulher Promotora de Justiça do Estado de SP, do Brasil e da América Latina. O relato abaixo é de sua autoria para Marco Antonio Leite Massari, na dissertação Arquitetura industrial em Sorocaba: o caso das fábricas têxteis:

Vindo de uma família de industriais ingleses, John nasceu em Oldham, Lancashire em 12/7/1839. Formou-se engenheiro mecânico, especializado em máquinas de algodão, técnico industrial, no Owens College (hoje é a UMIST, da Victoria University of Manchester).

Casou-se aos 21 anos com Mary Jane Boothby Pownnall, de uma família de intelectuais de Lancashire. Industrial em seu país, veio em 1878 ao Brasil, em busca de um clima que o ajudasse a curar-se de algum problema respiratório.

A constitucionalista Zuleika Sucupira Kenworthy, neta de Kenworthy,

Segundo Zuleika, o seu avô teria um amigo que falava um pouco de português e queria muito conhecer o Brasil. Com isso, John e seu amigo vieram para o Brasil, mais precisamente para o Rio de Janeiro.

Como naquela época o Rio de Janeiro estava sob um grande surto de febre amarela, Kenworthy e seu amigo rumaram para Minas Gerais, de trem, percorrendo inúmeras cidades durante alguns meses. Não estando muito confortável com toda a aventura, o amigo de Kenworthy decide voltar para a Inglaterra.

Kenworthy por sua vez, arrumou um guia (que não falava uma única palavra em inglês) com o intuito de ir para Ouro Preto, local onde teria ouvido falar da presença de ingleses trabalhando nas minas de Morro Velho. Perdidos, ambos foram parar em Itabira do Mato Dentro.

Através de um padre local, que sabia inglês (mas não compreendia o idioma falado), soube de um problema enfrentado pela Cia. União que ele poderia auxilia-los: o conjunto de máquinas têxteis que a empresa havia adquirido, provindas da Inglaterra e ainda encaixotadas, nunca foram instaladas e colocadas em funcionamento, pois, em duas ocasiões distintas, os técnicos ingleses que foram contratados para a função adoeceram e vieram a falecer assim que chegaram ao Rio de Janeiro, vítimas da febre amarela. Desde então nenhum outro técnico aceitou o convite para o trabalho.

Domingos Guerra, proprietário da Cia, e o coronel Cristiano, seu cunhado, com a ajuda do padre que lia, mas não falava inglês, conseguiram negociar e convencer Kenworthy a assumir o trabalho.

Em pouco tempo, Kenworthy não só montou as máquinas, como também alterou todo o sistema de funcionamento previsto, modificou a planta do local, supervisionou a maneira como seriam feitas as novas construções, recolocou as máquinas, deu treinamento a todos os gerentes e operários, e, em aproximadamente um ano, pode deixar a fábrica em ótimo estado e em perfeito funcionamento. Já falando um português, ruim, mas compreensível, retorna ao Rio de Janeiro.

O acaso

A coincidência de datas, a de chegada de Kenworthy ao Brasil em 1878, e o comunicado da fábrica da Gabiroba, na revista A Atualidade, edição do dia 9/5/1878, assinado por Francisco Martins Guerra: “Por parte da companhia – União Itabirana – faço constar que foi adiada a inauguração da fábrica de tecidos, por faltarem alguns objetos, que se esperam brevemente da corte; porém, terá lugar a reunião dos sócios para os fins constantes de outro anuncio”.

Domingos Martins Guerra, o industrial municipalista

Domingos Martins Guerra foi um dos fundadores da fábrica da Gabiroba e presidente da Câmara Municipal de Itabira (1865/66) – Acervo: galeria CMI

Na sessão do conselho da Sociedade Auxiliar da Indústria Nacional, de 15/3/1852, entre condes, viscondes, padres, marechais, um príncipe e o imperador D. Pedro II, o itabirano “Domingos Martins Guerra, estudante do 6⁰. ano da escola de medicina, morador na rua do Conde n.122”, é aceito membro da Sociedade.

Na mesma sessão também era aceito sócio Francisco de Paula Brito (1809-1861), editor, tradutor, escritor e ativista político. Paula Brito era proprietário de duas tipografias no Rio, Fluminense e Dois de Dezembro. Em 1861 publicou o primeiro livro de Machado de Assis, Queda que as mulheres tem para os tolos.

Homem preto, intelectual elegante, Paula Brito, introduziu a questão racial nos debates políticos do império; editou, O Homem de Cor, primeiro jornal de luta contra o racismo. E botou na rua o primeiro periódico feminista no país, a revista A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada.

Outra criação de Paula Brito, relevante na história da literatura, a Sociedade Petalógica (peta + lógica) (1840), grupo lítero-filosófico de escritores, artistas, músicos, políticos, empresários e pessoas de diversas classes sociais e cores de pele.

A Petalógica reunia diariamente na ‘cozinha’ da tipografia Fluminense. Entre as máquinas criou um ambiente de debates, de idéias e de convívio tolerante com a diversidade de opiniões política, uma celebração entre pessoas de espirito.

Talvez, quem sabe, Domingos M. Guerra frequentasse as reuniões anárquicas da Sociedade Petalógica, afinal eram vizinhos.

Mas, o que se pode confirmar é de que era assíduo na Sociedade da Industria Nacional, a solicitar pesquisas de fibras vegetais, da tecelagem dos povos indígenas, para uso na indústria têxtil.

Na sessão de 1/10/1863 a Sociedade apresenta ao governo imperial parecer favorável ao uso da fibra:

Sede da fábrica de tecidos da Gabiroba, em 1876 (Foto: Brás Martins da Costa/Retratos na Parede)

Foi remetida à seção de agricultura, com o oficio do sr. Secretário geral, datado de 23 do mês próximo passado, uma carta do sr. Domingos Martins Guerra, de Itabira, província de Minas Gerais, na qual o mesmo senhor comunica a descoberta feita por um indivíduo, cujo nome não menciona, nos sertões do Rio Doce, de vegetais que alí existem em grande abundância, e dos quais se pode extrair fibras iguais às que acompanhavam a sua carta, e foram recebidas pela seção. Acha a seção, que a respeito da qualidade dessas fibras, as quais o mesmo sr. Doutor compara com as do mais fino linho, não há nenhuma exageração dizendo-se que elas são excelentes; porquanto, em verdade, são finíssimas, fortes, e suscetíveis do mais perfeito embranquecimento. Nada mais a dizer, a seção sobre este objeto, senão que concorda completamente com o sr. Domingos Martins Guerra acerca da importância dessa descoberta. Animado pelo mais louvável zelo, o mesmo sr. doutor pretende ir em pessoa aos lugares afim de examinar conscienciosamente as coisas, e promete, na sua volta, de apresentar ao conselho da sociedade um memorial acompanhado de amostras em ponto grande. O conselho deve, portanto, esperar pelo cumprimento dessa promessa, e então ouvirá à sua seção de indústria fabril, mais própria do que a de agricultura, para reconhecer as aplicações industriais das novas fibras vegetais”.

Na sessão do conselho em junho de 1864, “… o sr. dr. Domingos Martins Guerra, comunicou ao conselho que a descoberta dessas fibras era devida a um indivíduo residente na dita província, o qual supõe ele que nenhuma dúvida terá em declarar, mediante algum donativo pecuniário, quais os vegetais que as produzem; que ele as trazia à sociedade para que esta as mandasse examinar ou as enviasse para a Europa, afim de lá se proceder a um exame mais completo; e ao mesmo tempo pedia que a sociedade procurasse indagar quais os instrumentos e processo empregados na Europa para extrair com mais facilidade as referidas fibras”.

O sr. dr. Domingos M. Guerra suou a camisa, venceu a parada e enviou para as feiras de Berlim e Paris o “cipó do Rio Doce”, e quem sabe até viajaram no porão do Vapor Itabira, navio da frota do industrial Henrique Lage.

Outras vozes da Gabiroba

Tecelãs da fábrica de tecidos da Gabiroba: predominância de mão de obra feminina (Foto: Brás Martins da Costa/Retratos na Parede)

Do jornal A Província de Minas, 17/7/1884, lê-se a nota de protesto dos trabalhadores da fábrica da Gabiroba, texto baba-ovo, mas com uma nominata de almas mortas a ser identificadas pelos seus ainda vivos.

Os abaixo assinados surpreendidos e assaz penalizados com a inesperada retirada deste estabelecimento, do digno cavalheiro o Ilmo. Sr. Affonso F. Chaves, que por cinco anos tão zelosamente o dirigira, faltariam ao mais sagrado dos deveres, se deixassem de vir livre e espontaneamente depositar nas mãos de S.S. os mais sinceros votos de gratidão pelas maneiras atenciosas e delicadas com que sempre se houve para com os abaixo assinados. E à sua digna e virtuosa consorte a Exma. Sra. D. Jachintha A. Martins d’Oliveira pedindo vênia para, beijarem a caridosa mão, que por tanto tempo foi qual da mais amante e carinhosa mãe para os queridos filhos, rogam se digne aceitar os protestos de seu eterno respeito e dedicação. Christiano Martins da Costa (machinista), João Gomes Thomaz, Antonio Carlos Xavier, Jacintho José d’Araujo, João Ignacio Sabará, Hilário Josino d’Oliveira, José Maximiano da Silva, Joaquim José de Godoy, Augusto Pinto Moreira, José Cancio da Silva, José Luiz Martins, Jacintho de Menezes, Alfredo Tristão Leopoldo, João Teixeira de Leão, José Ignacio Pacini, Agostinho E.S. Garcia. Gabiroba, 5 de julho de 1884”.

Segundo Anais da Câmara dos Deputados, de 3/11/1915, a fábrica da Gabiroba, com capital de 103:607$000, empregava 64 homens e 27 mulheres, movia 50 teares e em 1912 produziu 550.000 de tecidos diversos.

Agricultura e Engenho Central, uma utopia

Seção Livre. Itabira de Matto Dentro. A notícia que nos trouxe o Jornal do Comércio, de ter sido inaugurada a Estação do Coimbra, aquém da Serra de S. Geraldo, que se julgava invencível, e que se inaugurará a de Ponte Nova, dentro em 2 meses, e toda a linha em 2 anos, veio encher do maior contentamento este bom povo, que já ia se desanimando de ver-se realizar seus ardentes desejos de possuir uma via férrea para transportar seus variados produtos, alargar seu comércio e abrir mil fontes de riqueza que só esperam este impulso do progresso para jorrarem!

Com efeito, quem conhece o município de Itabira não poderá negar que é ele um dos melhores da província de Minas, por quem em todos os seus portos principais – Rio Doce, Santo Antonio, Tanque, Piracicaba, se encontra os mais férteis terrenos que se conhece para toda produção de cereais, fumo, cana, e café, bem tratados conta com 100 arrobas, e já temos fazendas com 150 mil pés.

É a lavoura deste município que abastece de toucinho e café os de Santa Barbara, Caeté, Sabará, Mariana e Ouro Preto, que não consomem toda a produção, ainda alguma vai para a corte. A criação de gado vacum, sobra do nosso consumo e é exportada para os povoados da mata e para a capital.

As nossas lavras de ouro são conhecidas como riquíssimas: foram elas que criaram esta cidade, e fizeram a fortuna de muitos. O ferro existe aqui em toda abundancia, que pode abastecer o mundo inteiro por séculos e já explorado em grande escala.

Este povo é empreendedor, e laborioso; em toda parte se encontra algum itabirano comerciando; várias casas de negócios têm sido por eles estabelecidas na corte. De três escolas agrícolas pela província, só a de Itabira foi levada a efeito, e está produzindo a transformação do trabalho, com o que muito tem ganho este município e vizinhos.

Pode-se dizer que se segue aqui o sistema dos norte-americanos, tanto que apenas teve-se certeza da chegada próxima da estrada de ferro Leopoldina, já estão tratando de criar um Engenho Central, e à testa desta empresa estão os srs. Dr. Domingos Martins Guerra, José Baptista Martins Guerra, tenente coronel Francisco de Paula Andrade, tenente Antonio Camillo de Oliveira e Henrique Carlos Horta.

A Itabira já possui uma fábrica de tecidos de algodão que produz 300,000 metros anualmente, e vai ser em breve aumentada.

Em breve os acionista da Leopoldina conhecerão o traçado abrangido por sua via férrea, e tocado que seja à Itabira de Matto Dentro, sem receio de errar, pode-se-há considera-la como a mais importante do império.

Nós que somos entusiastas do progresso, não podemos deixar de felicitar à poderosa companhia por estar levando a efeito, com admirável rapidez seus projetos; à ilustrada diretoria que tem sabido romper tantas dificuldades ao simpático corpo de engenheiros pelo bem que tem servido, e finalmente à empresa construtora que tem cumprido com lealdade a sua árdua e difícil tarefa”. [A Província de Minas, 27/9/1885]

A Escola Agrícola do Vale do Paraíba

A Assembléia Provincial na sessão de 25/9/1887, em discurso o deputado Silvestre Ferraz com apoio de seus pares faz um elogio a direção de Domingos Martins Guerra na Escola Agrícola do Vale da Paraíba, em Itabira. Com a palavra o deputado nomina os 87 alunos, os 78 fazendeiros, de 15 municípios, que “iniciaram nas suas lavouras o sistema empregado na Escola Agrícola de Itabira”.

Para Martins Guerra havia um facilitador na hora do jogo político, na Assembléia Legislativa Provincial e no Senado, podia contar com o apoio de representantes de Itabira, os deputados José Antonio da Silveira Drummond, Arthur Itabirano de Menezes (1866-1899) e do “conspirador golpista”, senador Carvalho de Brito.

A Estrada de Ferro Leopoldina – Ramal Ouro Preto-Itabira

Na 30ª sessão ordinária da Assembléia Provincial de 16/6/1886 encaminha ofício assinado por Domingos Martins Guerra e pelo tenente coronel Francisco de Paula Andrade, “pedem privilégio para uma estrada de ferro entre Ouro Preto e Itabira de Matto Dentro”.

Na 31a sessão, de 18/6/1886, publica representação da câmara de Itabira a favor da pretensão de Domingos Martins Guerra, e do tenente coronel Francisco de Paula Andrade, “relativa à concessão de uma estrada de ferro daquela cidade a esta capital”.

A Exposição industrial de Berlim, 1886

Minas Gerais é um grande coração de ouro engastado em peito de ferro, H. Gorceix.

O império do Brasil já havia participado de quatro Feiras Universais, e chega em 1886 com a tarefa de escolher entre a Exposição de Nova Orleans ou a Industrial de Berlim. Escolhe a Exposição Sul-Americana em Berlim, “onde temos a auferir mais lucros com referência à corrente migratória que convém atrair à província”, justifica o relatório da comissão preparatória.

Essa comissão, nomeada por D. Pedro II, é formada pelos engenheiros da Escola de Minas de Ouro Preto-EMOP (1876), responsáveis por preparar os mostruários dos recursos minerais e fornecer informações minuciosas sobre eles.

A EMOP era dirigida por Claude Henri Gorceix, mineralogista francês radicado no Brasil. É assinado por H. Gorceix o folheto, Notice sur les Séction Brésiliense: notice sur les échantillions de minéraux envoyés pae L’École de Mines d’Ouro Preto, primeira publicação sobre minérios para uma exposição universal.

Das 27 páginas do folheto, 24 delas são dedicadas a fornecer dados sobre os depósitos de ferro, manganês e ouro da província de Minas Gerais. Na página 6 do folheto, Gorceix revela ao ‘universo’ o mapa das minas:

“Para os depósitos em torno do massivo de montanhas do Caraça e Ouro Preto, depois de cálculos infelizmente aproximativos, a importância dos depósitos destes minerais poderia ser de 8,000,000,000 de toneladas e penso eu que esta cifra representa apenas um décimo das jazidas de toda a província”.

O relatório da comissão da província de Minas, assinado por H. Gorceix em 4/2/1886, enumera os produtos de Itabira aprovados para viajar a Berlim: Minério de ferro – Oligisto granulado da Serra do Corcunda (vizinhança de Itabira); Minério de ouro – Jacutinga aurífera das minas de Sant’Anna e Itabira; Matérias primas – Fibras têxtil (cipó do Rio Doce) e algodão; Matérias pra curtume – Barbatimão.

Os tecidos brasileiros “ainda não estavam à altura da exposição”, entretanto as cores solares da tinturaria mereceram uma nota de estimulo, “Sobre as materias de tinturaria devem fornecer bons esclarecimentos a fábricas de Curvelo, Diamantina e Itabira”.

Itabira vai a Paris!

Imagem do Pavilhão do Brasil na Exposicion Universalle de Paris, em 1889

A segunda metade do século 19 caracteriza-se pela expansão imperialista do capitalismo, centrada na Europa. Essa nova ordem encontra na Feira de Paris a plataforma ideal para a espetacularização de produtos de consumo, pela primeira vez produzidos em grande escala.

A Torre Eiffel, construída para a Exposição Universal, de 1889, e comemorativa do centenário da Revolução Francesa (1789), é o símbolo monumental da ideologia do progresso.

Na Rua dos Países do Sol, o pavilhão brasileiro dispunha de um terraço aos pés da Torre Eiffel e visão panorâmica da exposição; no entorno dele o jardim tropical provocou entusiasmos delirantes, o maior espetáculo visual da feira junto com a eletricidade, a divina Vitória Régia, a amazonense em sua primeira viagem à Europa e não estava à venda.

No interior do pavilhão, 838 expositores exibiam um mundo tropical, promissor, um país com as maiores reservas em minério de ferro e manganês, do mundo.

As vitrines expunham admiráveis coleções de minérios e materiais têxteis (algodão, fibras vegetais do Vale do Rio Doce), mármores, carvão de ferro, produtos siderúrgicos, borracha, toda sorte de madeira de lei, peles finas e sedosas de anta/lontra/onça, óleos essenciais copaíba/andiroba/Tucumán, tabaco, café, arte e mapas geológicos e geográficos (5x2m).

Ilustração do pavilhão em selo

Com esse catálogo grandioso o Brasil oferecia vantagens à imigração, as parcerias na área de ciência e tecnologia. O Brasil expôs o Brasil da Era Mauá, do tempo de otimismo, esperança, aberto a industrialização do padrão de vida.

A Exposição Universal de Paris 1889 foi a segunda exposição sob os cuidados da EMOP e dirigida pelo comissário H. Gorceix, autor de todas as publicações promocionais editadas, para a feira.

Le Brésil foi a publicação mais importante, do grupo francês no Comitê Franco-Brasileiro, organizada por Émile Levasseur. Le Brésil possui 94 páginas ilustradas e maior parte delas escritas por E. Levasseur, seguido do Barão do Rio Branco. No capítulo IV, com o título Le Géologie, H. Gorceix apresenta um arcabouço detalhado dos recursos minerais de Minas Gerais.

Gorceix era um grande articulador entre os franceses do meio cientifico e empresarial. Teve apoio de E. Levasseur na formação do Comitê Franco-Brasileiro para a exposição. Inspirado na da Sociéte de Geografie Comerciale de Paris, H. Gorceix criou em 29/12/1889 a Sociedade de Geografia Econômica para o Desenvolvimento da Industria, do Comércio e Imigração de MG.

Essa sociedade pretendia criar um Museu Comercial em Paris com produtos de Minas Gerais “mirando nos produtos naturais e minerais do Vale do Rio Doce”. E apresenta as vantagens que a legislação brasileira do setor de mineração oferecia aos estrangeiros interessados investir no país.

“Sob as chuvas de outono, mais de 307,000 pessoas (curiosos e estudiosos) entravam no recinto da exposição, para a cerimônia de entrega dos prêmios. Só o Brasil obteve 566 recompensas, sendo 22 grandes prêmios e 78 medalhas de ouro.

A província que mais recompensas teve foi Minas Gerais, que, além de numerosas medalhas de ouro, prata, bronze e de algumas menções honrosas, obteve dois grandes prêmios, a suprema recompensa: um deles foi conferido à Escola de Minas, e outro à comissão central da mesma província pela sua bela coleção de minerais.

Um único particular obteve grande prêmio na nossa seção, e esse particular foi o sr. Francisco José Lepage, de Barbacena, o qual apresentou aqui uma rica e variada coleção de madeiras daquela província. Aí estão, portanto, três grandes prêmios concedidos a Minas, e não há quem ache exageradas essas distinções.

Da coleção de Minas

Compõem se elas de 50 amostras das rochas auríferas da província, divididas em 4 sessões abrangendo: amostras de quartzo e quartzitos auríferos com minerais sulfurados raros e, por vezes com turmalinas; minérios de ouro em que predominam os sulfuretos, por vezes alterados e transformados em limonite; minérios de ouro com ferro oligisto, quartzo, oxido de manganês, rochas conhecidas pelo nome de jacutinga ou itabiritos; e conglomerados ferruginosos auríferos, a chamada canga.

Numerosas amostras de minérios extraídos das diversas minas da província acompanham a exibição: há alí amostras da mina na Passagem, da mina do Carrapato, da de S. Luiz do Encanto, da de Canela de Ema, da de Pary; há ferro das jazidas de Pitanguy, de Antonio Pereira, de Itabira do Matto Dentro, de Gandarela; há variadas amostras de rochas diamantíferas e dos minerais que acompanham o diamante, além de outros que dão ideia adequada das riquezas mineralógicas da província”. [Jornal do Comércio, 5/10/1889]

Na lista das recompensas concedidas aos expositores brasileiros, a Cidadezinha foi classificada na categoria grandes prêmios: Penna Irmãos & C., sediada em Santa Barbara apresentou argila, limonite e minérios de ouro e, Domingos Martins Guerra expôs grafite e fibras têxteis. [O Auxiliar Industrial Nacional, 1889]

A rota da seda

Em 1904 o Correio de Minas, de Juiz de Fora, prestigia a seda fabricada pelo empreendedor Casimiro Jorge, industrial, negociante de pedras preciosas, associado às corporações a Sociedade Industrial Nacional e, em conexão direta e constante com o congresso Nacional, onde reivindicava apoio aos seus programas agrícolas para o Vale do Rio Doce.

Acham-se expostas na vitrine da Casa Sucena, a rua Direita, esquina da rua Halfeld (segundo Pedro Nava, era “um divisor geográfico dos grupos econômicos da cidade”), belíssimas amostras de sedas de várias cores, fabricadas em Itabira de Matto Dentro, neste Estado, pelo adiantado sericultor sr. Casimiro Jorge. É verdadeiramente notável o grande incremento que tem tomado essa importante indústria em nosso Estado nestes últimos anos. Vale a pena ver-se a exposição feita em casa dos srs.  Luiz Barbosa & Comp.”.

Os casulos de Casimiro

Tem grande quantidade de sementes de bicho de seda, das melhores raças e já aclimatadas, e distribui gratuitamente, sujeitando-se apenas a quem fizer encomenda à despesa de 1$000 para acondicionamento e parte do correio. Para este município inteiramente grátis”. [Correio de Itabira, 18/6/1904]

A Fábrica da Pedreira

Fábrica de tecidos da Pedreira, fundada pela empreendedora itabirana Maria Casemira Andrade Lage (1828/1929)

Em 1941 a Fábrica de Tecidos de Pedreira (de Andrade Guerra & C.), fundada em 1888, capital inicial, 131:000$000, contava com 75 teares, produzindo algodões grossos e artefatos de tecidos brancos e de cores.

As arapongas da Cidadezinha

“Metalurgia. Industria dos metais. Foram em número de 34 os estabelecimentos do município da Corte, em que se laboram metais, que concorrerão ao inquérito industrial. Conforme as informações que pode colher a comissão, na província de Minas Gerais existem pelo menos 16 oficinas que fabricam o ferro minerado, a saber:

No município de Itabira de Matto Dentro existem as seguintes fábricas: a do Giráo, que emprega cerca de 60 operários; a de Gabriel Quintino, que emprega cerca de 40 operários; a de João Bicudo de Alvarenga, que emprega 40 operários; a de José Anchieta Teixeira de Miranda, que emprega 30 operários; as de Marcellino Domingues, Antônio Pereira Leão, Joaquim Carlos da Cunha Andrade, Joaquim Zeferino de Magalhães, José da Silva Torres e de Joaquim Luciano Martins da Costa, que empregam cada um, cerca de 20 operários.” [O Auxiliar da Industria Nacional, 1883]

A Cidadezinha na Feira da cidade de “grandes olhos brilhantes”, Sabará

A Província de Minas, 5/12/1885, publica resultado da Feira Sabarense, em que se lista o nome dos vencedores, os prêmios recebidos, mas não menciona os produtos exibidos, entretanto alguns prêmios são entregues ao autor do produto, portanto….

“Município de Itabira de Matto Dentro: Classe I – Medalha de prata, com menção honrosa ao dr. João Joaquim Fonseca de Albuquerque, que recebeu ainda um chapéu de lã de carneiro, um dito fino de lebre, fabricado por Bernardo Francisco Martins, um dito de palha de indayá, fabricado por d. Josepha. Classe II – Medalha de cobre ao dr. João Joaquim Fonseca de Albuquerque, agraciado com uma garrafa de vinho de uvas, fabricado por João Correa Barros Junior”.

Os vinhateiros da Cidadezinha

Do sr. João Alves de Castilho, viticultor em Itabira de Matto Dentro, recebemos cinco garrafas de vinho nacional fabricado pelo nosso ofertante. O vinho é dos chamados de “pasto”; tem uma belíssima cor de rubi e sabor agradabilíssimo. Agradecemos ao sr. Castilho o presente magnifico e desejamos que não lhe faltem fregueses para a pinga, que nada tem de ofensivo ao estomago.” [Diário de Minas, 27/7/1899]

Lê-se no Almanak Laemmert , de 1901, que além do famoso Vinho Castilho havia outros vinhateiros na Cidadezinha: Carlos Andrade, Casemiro Sipolis, Cel. Francisco Candido, R. de Caux Nuno Lage (40 mil pés).

No Colégio do Caraça também se fabricava e comercializa o vinho e até mesmo o médico e deputado, sempre atento as causas da Cidadezinha, Matta Machado era vinhateiro em Ouro Branco. [Almanak Laemmert, 1901]

Finalmente, cismo que o retrato na parede vai despencar. Arriar da parede da memória, virar Retrato Pulverizado. Mas se o destino interferir, se partículas rebeldes do retrato decantarem no cemitério de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pode ser que o retrato permaneça vivo e a Itabira terá a oportunidade de recuperar a dignidade humana violentada e a expropriação de sua riqueza.

[Hemeroteca da BN-Rio. pesq/mcs 1357]

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