A história de Zé-quem-dera, por Wolber Alvarenga

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Pela primeira vez o 9 de outubro itabirano passou despercebido em minha vida de ausente de Itabira. É certo que foi por causa da militância neste segundo turno das eleições 2018, Quem Dera fosse apenas um pesadelo o Coisa Ruim nesta disputa insana. Por isso reproduzo pra Vila de Utopia a história de Zé-quem-dera, escrita por um itabirano autêntico pro jornal O Cometa, que não é o Itabirano. (Cristina Silveira)

Velha cantinela

Wolber Alvarenga

Existia um caminho, caminho estreito que dava no ribeirão. Mal acabava de escorrer a última pancada da chuva forte, a gente corria, arrancava minhoca, pegava anzol e passava por aquele caminho. Zé-quem-dera ia na frente limpando o caminho e a gente atrás com medo de cobra. Iscava o anzol, ajeitava, e jogava debaixo da toca, onde dava mandi.

Wolber Alvarenga, Paulo Bretas e Arp Lage

– Panhei um Quem-dera, é dos grandes.

– Até agora eu não apanhei nada. Quem dera!

Parecia que ele só sabia falar aquilo, bastava a gente dizer uma coisa qualquer para ouvir àquela lamentação. Quem dera!

Até o seu nome levou um acréscimo, que mais tarde veio ser sobrenome. Zé-quem-dera. Ele era alto, esmirrado, uma figura esquálida no arrozal da fazenda da Mata. Foi num tempo muito longe que eu conheci aquela criatura.

Era filho de Sinhana, que se dizia descendente da tribo dos Aimorés, e morava perto do deposito de café. Uma casa grande que ficava do lado de cima da fazenda. A vida de Zé-quem-dera era espantar passarinhos. Não sabia fazer mais nada a não ser aquilo. Vivia lamentando a sorte de não ter nem saber fazer nada. Falava pouco, mas nunca faltando um “quem dera”. Era uma boa alma, todos gostavam dele. O tempo passou e Zé-quem-dera sumiu de vista.

Agora estou grande, homem feito. Marmanjo. Veio outro caminho, caminho largo que que dá lá no alto de uma montanha. Sem dar chuva, sem nada, vai gente na frente limpando o caminho, vem gente atrás com medo de cobra. Vai apanha, tira, fala com a gente que tirou e a gente vira e fala assim: – Quem dera! Pronto Zé-quem-dera virou símbolo. Imagem de nossa gente na minha imaginação de itabirano autêntico.

Sim, sou parte desse povo, talvez o braço ou mesmo o pé de Zé-quem-dera. Se eu fosse a cabeça talvez eu espantaria passarinhos. Talvez eu gritaria, talvez. Aqueles mansinhos que voam em volta da montanha, cantam pra gente, enchem o papo e depois vão cantar em outras terras. Mas o nosso povo é de boa alma, fica satisfeito em apenas ouvir o cantar dos pássaros.

Vêm políticos cantam pra gente, falam e prometem quando aparece oportunidade. Depois vão embora. A gente bate palmas. Palmas e mais palmas para eles. Depois ganham nossos votos e a gente espera. E eles voltam outra vez quando podem “aparecer”.

Há sempre um político na história de Itabira.

Há sempre um “quem dera” latente em nosso povo. Povo bom, o melhor do mundo.

(Publicado originalmente no jornal O Cometa, janeiro de 1962).

 

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