A gripe espanhola em Santa Maria de Itabira

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Dinorah de Alvarenga*

A gripe espanhola veio logo depois que terminou a Primeira Guerra Mundial. Quase todos os países sofreram com essa enfermidade, que parecia se espalhar com o vento.

Em Santa Maria morreu muita gente, principalmente na classe mais pobre. Uns falavam que era “influenza”; outros, que era uma peste mesmo. Ficou conhecida mesmo como gripe espanhola.

Nota do jornal A Noite critica a prefeitura do Rio por forçar cidadãos comuns a enterrar cadáveres durante a epidemia de 1918 (imagem: Biblioteca Nacional)Biblioteca Nacional Digital / Biblioteca Nacional Digital/El País. No destaque, enfermos em um hospital do Rio de Janeiro (RJ).

O arraial ficou morto: as casas fechadas, as escolas, as ruas sem uma viva alma, as lojas fechadas, nem mesmo a igreja se abria mais.

Os caixões saíam dois ou três da mesma casa, e para subir o morro do cemitério, os homens iam cambaleando com os caixões.

Santa Maria adoeceu em peso. Lá em casa, só havia a mãe, Benedita e eu sem a doença. Oswaldo quase morreu. O pai esteve muito mal. Alayde chorava o dia inteiro olhando da janela os caixões subirem para o cemitério.

Os meninos pequenos ficaram abobados na cama, queimando de febre, e o tio cuidando de todos, ainda sem conhecer a medicação certa.

Mas o meu padrinho, que era médico no Rio de Janeiro e presidente da Cruz Vermelha, apareceu no arraial e cuidou de todos.

Veio para prestar serviço aos pais e irmãos que moravam em Ferros e socorrer os parentes e amigos naquela hora de grande agonia. Trouxe medicação e ensinou a mãe como tratar dos enfermos.

O padrinho, Agenor Mafra deixou tudo no Rio: clínica, família, hospital e veio dar assistência à população de Santa Maria e Ferros, sem alarme, sem ostentação. Ninguém nunca lhe agradeceu.

A mãe cuidava dos doentes sem recursos, e todas as manhãs eu ia com ela ver os doentes do Conselho, levando-lhes o chá de assapeixe pronto, remédios, alimentos.

Conselhos que continuam válidos: fique em casa e evite aglomerações

A Benedita se desdobrava e enchia caldeirões e mais caldeirões de comida que a gente levava e distribuía para eles.

Fizemos isto por uns quinze dias, até que o mal se debelasse. Eu não ligava para aquilo, também não entendia nada. Era apenas a companheira da mãe porque os outros estavam doentes.

Em algumas casas, todos estavam de cama: a mãe chegava e arranjava tudo, dava os remédios, os chás e mandava a gente jogar a urina dos urinóis fora.

Eu ficava danada de raiva com aquilo. A mãe levou muito a sério a sua missão de enfermeira improvisada.

Mas eu, eu gostava mesmo era de ler os muros e paredes com letras novas:

VIVA 1920. MORRA 1919. – MORRA O ANO VELHO! VIVA O NOVO.

A mãe ficava alegre de me ver ler.

Depois de serenado o arraial e todos já bons, fizeram uma festa para a mãe. A banda de Juca Teixeira tocou muito na nossa porta. Fizeram discursos e deram muitas vivas a ela.

Ela ganhou muitas flores e ficou contente com aquilo. Ninguém me deu nada. Nem falaram em mim, que lavei tanto pinico fedorento.

A epidemia da gripe espanhola testemunhada por uma menina de Santa Maria

A primeira página da ‘Gazeta de Notícias’ mostra o caos no Rio de Janeiro dominado pela gripe espanhola (imagem: Biblioteca Nacional/El País

Um verdadeiro filme de terror ocorreu em 1918, quando a gripe espanhola invadiu o Brasil. A violenta mutação do vírus da gripe veio a bordo do navio Demerara, procedente da Europa.

Em setembro daquele ano, sem saber que trazia o vírus, o transatlântico desembarcou passageiros infectados no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro, registra reportagem do El País (https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-03-16/em-1918-gripe-espanhola-espalhou-morte-e-panico-e-gerou-a-semente-do-sus.html).

No mês seguinte, o país inteiro já estava submerso naquela que até hoje é a mais devastadora epidemia da sua história.

Dinorah de Alvarenga

Dinorah de Alvarenga testemunhou a devastação da gripe espanhola em Santa Maria. E nos deixa o testemunho: com epidemias não se brinca (Foto: álbum de família)

O texto publicado na abertura desta postagem é um retrato da epidemia da gripe espanhola na memória da então menina Dinorah de Alvarenga, escrito pouco antes de sua morte, aos 72 anos, em 27 de dezembro de 1983, em Itabira.

Natural de Santa Maria de Itabira, filha de Álvaro de Alvarenga e Haydée Bonaparte de Alvarenga, Dinorah nasceu em 25 de dezembro de 1911, na fazenda Morro Escuro, numa família de 11 irmãos.

Depois, a família se mudou para Santa Maria – e alguns anos após veio para Itabira, onde ela se formou professora. Foi nesta cidade que Dinorah desenvolveu a sua profissão, destacando-se como professora de Geografia.

Durante alguns anos colaborou com jornais de Itabira. Escreveu crônicas divertidas com o pseudônimo de Madame X.

É autora do livro, Nas Serras do Morro Escuro, que ainda está para ir a prelo, do qual o capítulo A gripe espanhola em Santa Maria de Itabira, publicado neste site Vila de Utopia, faz parte. Dinorah começou a escrever o livro em 1981 – e concluiu em 1983, pouco antes de sua morte.

Testemunho

A publicação desse capítulo, neste momento em que o país e o mundo se assustam com a pandemia da nova coronavírus (Covid-19), serve como testemunho de uma epidemia para a qual o país não estava preparado.

Como ainda não está, mas agora já tendo experiências passadas, para saber que com epidemias não se brinca. E nem se tergiversa, como fez o presidente, desdenhando da pandemia desse perigoso e mutante vírus, como se fosse uma gripezinha.

Não é – e o mundo inteiro já sabe disso. Sábio é o povo que aprende com a história, como essa registrada pela ótica da então menina Dinorah de Alvarenga.

Que sirva de lição para que a história não se repita, nem mesmo como farsa. E, também, para que não vire uma tragédia anunciada, que pode ocorrer se todos não ficarem em casa até que passe a onda de pico viral da pandemia.

 

 

 

 

 

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5 Comentários

  1. Cristina Silveira on

    Carlos, que bela memória. E viva Dinorah!, que nos deixou este relato histórico. Dinorah é uma garrucheira integral saúdo e louvo.

  2. Solange Duarte Alvarenga on

    Carlinhos, a memória sempre nos traz descobertas.
    Um povo que tem preservado seus conhecimentos sempre encontra salvação. Grande Dinorah!
    Ao conversar com o meu pai de 86 anos, me contou que sua mãe, Mariinha, já falecida, falava sempre sobre a gripe espanhola , na cidade de Itabira. Ela perdeu um irmão, primos e etc. O interessante, é que, sempre dizia: quem tomava chá de assapeixe, São Caetano e alvejadeira sobrevivia .
    E como pai não gosta muito de chá, está a questionar se estes não ajudariam a minimizar os efeitos do Coronavirus.

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