A dobradinha e a Covid-19

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Rafael Jasovich*

Cansado de ficar isolado há mais de três meses, só ouvindo e lendo as notícias sobre o avanço da pandemia no Brasil, como é ruim, saber da existência de um presidente genocida (vosso presidente, não meu).

O leitor mais atento, mesmo fazendo tempo que não escrevo aqui na Vila de Utopia, sabem que eu avisei.

Mas ontem decidi não trabalhar, ter um feriado de verdade. Como costuma ser o caso de muitos dos meus grandes propósitos, este também falhou levemente.

Como as dietas mágicas que prometem que, depois de duas semanas de fome, vou perder 7 quilos e, depois de 15 dias de olhos de pidão atrás de um chocolate, só consigo três quilos a menos.

A decisão foi acompanhada pela intenção de fazer um ensopado de bucho (dobradinha). E antes que os detratores apareçam, aponto, quando garoto, odiava ensopado de dobradinha.

Demoro quase um dia inteiro para fazê-lo.

O primeiro obstáculo à minha decisão de tirar o feriado começou no dia anterior, quando cheio de energia descongelei um  que estava limpo no freezer e o levei a ferver.

O telefone tocou e eu estava envolvido em uma conversa exaustiva que durou muito tempo. Quando voltei minha atenção, a água onde o bucho fervia havia sido consumida e parte dela havia sido queimada. Tudo tinha gosto de uma panela queimada e eu não tinha escolha a não ser jogá-la fora.

Então eu comecei a rastrear os lugares perto da minha casa. Eu estava começando a me resignar a fazer omelete ou algo assim, quando meu amigo Mauro me ligou e me disse que ele sairia por causa de um problema no emprego e que, se eu precisasse de algo, ele o compraria e traria para mim.

Sem vergonha, eu disse a ele: “Mauro, se você for a um açougue, você comprará bucho?” Ele riu um pouco e disse para parar de me preocupar.

Várias horas depois, ele tocou a campainha, trazendo não apenas a bucho, mas também ossos de porco e um pedaço real de bacon.

Agradeci, fumei um cigarro com ele na porta e, várias horas atrasado no meu plano, mas com os elementos necessários, recomecei.

O primeiro truque para uma boa dobradinha  é limpá-la completamente antes de ferver. Se não for gorduroso, gomoso.

Entrei no tedioso trabalho de cortar cebola, alho-poró, alho, tomate, aipo, pimentão, cenoura e carne, chouriço e bacon enquanto a dobradinha fervia.

E, como toda vez que corto carne, agradeci mentalmente a Mauro por insistir em comprar uma faca de carne decente. Resisti com base na minha proverbial mesquinhez por coisas que considero luxos desnecessários. Mas devo admitir que uma boa faca é definitivamente um antes e um depois na vida de quem cozinha.

Ela fervida agreguei as verduras, o feijão branco e o grão de bico, devidamente deixados de molho e o bacon já frito.

Ficou de comer rezando.

Para terminar vou pedir uma coisa a você, caro leitor: FIQUE EM CASA E SE SAIR USE MÁSCARA.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

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