A Cidade de Ferro

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Elisa Castelo Branco de Moraes

Revista da Semana, 21-01-1950 – A vila, primitivamente denominada Itabira do Mato Dentro, foi fundada por dois irmãos, um deles chamado Francisco de Faria Albernaz, durante o ano de 1720. Eram paulistas e procuravam ouro em Minas Gerais.

Achavam-se estabelecidos em Itambé, a dez léguas ao norte, e, sem bússola, dirigiram-se a esse lugar, e viram muito ouro de cor argentífera. Construíram uma casa e uma capela e esta foi a origem da vila.

Outros colonos lá chegaram também e igualmente acharam ouro. Os irmãos Albernaz, no entanto, tendo explorado o mineral mais fácil, voltaram a São Paulo. Seus companheiros continuaram a lavrá-lo e descobriram três minas maiores: a de Conceição, no vale; a de Itabira, na cidade; e a de Santa Ana, na parte ocidental da mesma.

Itabira, na etimologia tupi, quer dizer “pedra que brilha”. Todavia, desconhece-se a causa exata que originou a palavra, se do ouro ali existente, se do minério de ferro, que, esparso pelo solo, faísca ao sol…

Até 1740, o ouro era em tal quantidade que os próprios faiscadores – escravos na sua totalidade – enriqueciam e compravam sua liberdade. Porém, com a corrida do ouro, vieram também os bandidos e ladrões, verificando-se, então, grande onda de crimes arduamente combatida pelo comandante da região.

A matriz do Rosário e o Cauê ainda quase todo de Ferro (Foto: Folha Capixaba, 1955)

Foi então que o governador da província consentiu que, ao lado da exploração do ouro, se fizesse a do ferro, sendo Domingos Barbosa o pioneiro no beneficiamento desse minério.

Aproveitando o impulso de progresso, Manoel Fernandes Nunes ali estabeleceu uma fábrica de fuzis. Com ele, vários moradores abastados do local puseram-se nessa indústria.

Por todo um século, Itabira cresceu e se desenvolveu. Em 1848, foi a vila elevada à categoria de cidade e seu progresso estava no apogeu.

No dizer de Saint Hilaire, que a visitou por volta de 1830, “Cependant ces mines actuellement si riches, s’equiseront probablement si riches, s’equiseront probablement comme celles de Vila Rica, de Catas Altas, etc.”.

De fato, lá por 1899, o ouro diminuiu e a cidade começou a decair sensivelmente. Foi então que, em 1908, quando do Congresso de Geologia, realizado em Estocolmo, o Brasil, tendo enviado trabalho sobre suas reservas ferríferas, capitais estrangeiros se interessaram pelo ferro de Itabira.

A companhia inglesa The Itabira Iron Ore Company Ltda adquiriu as reservas do Cauê e Conceição, enquanto que americanos passaram à posse das jazidas de Esmeril, Periquito, Pombal e Paredão, com a Brazilian Iron and Steel Corporation. De então para cá, a cidade tem vivido quase exclusivamente da extração de seu rico minério de ferro.

É interessante notar que, durante a época do apogeu, isto é, entre 1840 e 1860, havia até espetáculos de ópera em Itabira e a vida social, por essa época, era intensa.

Aos poucos, as fábricas de fuzis foram substituídas por outras de enxadas, foices, ferraduras, freios, etc., porquanto havia melhor mercado para essas ferramentas, pois que as fazendas de gado e de agricultura locais são muito numerosas.

Sobre Itabira, disse o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade:

Cada um tem seu pedaço no Pico do Cauê

Na cidade toda de ferro

as ferraduras batem como sinos.

Os meninos seguem para a escola.

Os homens olham para o chão.

Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo

Cisma na derrota incomparável.

Ponto comercial, loja de Said Jabour, no bairro Pará, na atual rua doutor José de Grisolia

Itabira está situada, mais ou menos, no centro do estado de Minas Gerais, mais para o oeste, ainda na zona da mata, donde tirou seu primitivo nome.

Ao sopé da escarpa do Cauê, fica uma parte da cidade, num planalto, na direção nordeste. Para o oriente, estabeleceu-se a parte baixa da cidade, na direção do Pico da Conceição.

Como toda cidade antiga estabelecida em zona montanhosa, Itabira tem a totalidade de suas ruas em subidas e descidas, sinuosas, encontrando-se, apenas, em seus bairros novos, Pará e Campestre, ruas retas e planas.

A pavimentação das ruas é interessantíssima, por ser toda feita de minério riquíssimo em teor de ferro, que reluz ao sol, e as ferraduras dos animais tiram fagulhas e “batem como sinos”.

É o tipo de cidade antiga e conservadora, embora a chegada da estrada de ferro e da era da aviação tenham modificado um tanto os hábitos de seus moradores.

Itabira vista das instalações da Cia. Vale do Rio Doce – uma cidade cujo sub-solo tem sido constantemente trabalhado: dese seu início, na época da extração do ouro até os dias que correm, com a extração do minério de ferro. Segundo opinião dos geólogos, ainda por muitos séculos esse minério será dele retirado sem que se esgote, daí seu apreciável surto de progresso (Foto: Revista da Semana, 1950)

Itabira comunica-se com o exterior pela Estrado de Ferro Vitória a Minas, para Vitória, e também com Belo Horizonte, pela Estrada de Ferro Central do Brasil, no entroncamento dessa estrada com aquela em Nova Era, ainda por avião*, existindo um campo regular no Campestre. Boas estradas de rodagem cruzam a cidade.

Duas são as companhias que atualmente exploram a indústria do ferro. O embarque do minério é feito no porto de Vitória, tendo atingido o total de 300 mil toneladas a exportação, que tende aumentar.

O Pico do Cauê, com a exportação do minério, já diminuiu mais de 20 metros na sua altura, tendo atualmente 1.040 m.

Por ser tão extraordinariamente rico em ferro com hematita de 68%, o solo de Itabira é menos fértil, porém as fazendas de seus arredores são mistas, produzindo bastante milho, arroz, feijão, gado, zebu na maioria. São propriedades muito grandes, geralmente com belas sedes assobradadas.

Dentro da cidade, há uma fonte de água potável, chamada “água santa”, que dizem ser milagrosa, e tem, além dessa particularidade, a de ter sua temperatura um pouco mais elevada que a comum.

Aspecto da grande devastação da mata nativa na encosta da serra para virar carvão para a indústria do ferro (Foto: Revista da Semana, 1950)

Distante meio quilômetro da cidade, na estrada para Santa Barbara, foi descoberta recentemente uma possante jazida de manganês, e desses terrenos brota uma água cristalina, contendo manganês, que é reputada medicinal, para as afecções do pâncreas.

Antigamente, eram abundantes as matas em volta da cidade: hoje fabrica-se carvão de madeira para consumo das usinas siderúrgicas nos municípios vizinhos, e começa-se a fazer o reflorestamento.

Além da indústria do ferro, há duas fábricas de tecidos, ambas de iniciativa particular, de filhos do lugar.

Itabira que, nos seus tempos áureos, teve cerca de 25 mil habitantes, viu sua população diminuída para 12.000 no começo deste século. Atualmente são 23.000 os seus habitantes, com tendência a aumentar, devido ao novo surto de progresso que agora ali se verifica, e também à iniciativa do atual ministro da Agricultura, que ali estabeleceu um centro agropecuário, por ocasião do centenário da cidade em 1948 (centenário da elevação de vila da cidade), e dos governos federal e estadual, que estão construindo duas novas estradas para a zona de Itabira: uma estrada de rodagem de primeira ordem, parte da estrada Belo Horizonte-Vitória, e a outra, estrada de ferro, bitola larga, quase reta da capital do estado para Itabira, seguindo para Peçanha e Teófilo Otoni.

Cidade tipicamente de nosso interior, verdadeiramente mineira, simples, num clima salubérrimo, numa altitude de 850 metros, Itabira procura esconder sua riqueza.

Ela tem ouro, platina, prata e paládio; este, muito raro e precioso, se encontra misturado com o ouro.

*Avião da CVRD e se chamava Cauê.

[Publicado originalmente na Revista da Semana, de 21 de janeiro de 1950 – Hemeroteca da BN-Rio, pesq. MCS]

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    Chamar o majestoso Pico do Caué de Morro, não é ofensivo porque hoje é Montanha Pulverizada. O Caué era uma grande Serra ou Pico do Espinhaço.

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