A bandeira Wiphala e a luta dos povos andinos

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Rafael Jasovich*

A capital boliviana recebeu uma grande marcha contra o golpe de Estado e o autoproclamado governo interino. Milhares de indígenas e camponeses de várias províncias marcharam na cidade de La Paz, com pedidos de respeito aos povos originários, renúncia da autoproclamada presidente, a senadora de direita Jeanine Áñez, e a volta do ex-presidente Evo Morales – exilado no México após o golpe de Estado consumado no último domingo (10).

Os manifestantes carregavam a bandeira Whiphala, símbolo dos povos originários e do Estado Plurinacional boliviano. Os trabalhadores do campo e membros das comunidades indígenas ainda declararam como persona non grata o ex-presidente Carlos Mesa, segundo colocado nas últimas eleições presidenciais. Ele não reconheceu os resultados do pleito e foi um dos articuladores do golpe que forçou Evo a renunciar.

Os protestos ocorrem a mais de 10 dias seguidos, mesmo com a repressão das forças policiais.

“Forças Armadas, unam-se à luta!” expressam os milhares de manifestantes, enquanto os soldados respondem “Que viva a Bolívia, que viva a Wiphala!”. Wiphala é a bandeira símbolo dos povos originários do país e por isso os fascistas e racistas lhe devotam ódio descontrolado.

Também foram divulgadas imagens de veículos do Exército enfeitados com estas bandeiras Wiphala que golpistas tentam – em vão – banir do país.

Origem

Wiphala é muito mais do que a bandeira e o emblema da nação andina (Fotos: Diário da Causa Operária)

Um pouco de conhecimento não faz mal a ninguém. Decidi então contar aos meus leitores deste site Vila de Utopia a , decidi então contar o origem dessa bandeira que une os povos originários e o seu significado.

A origem da wiphala desperta forte controvérsia. Alguns a colocam como um símbolo dos povos mais antigos, como a cultura Tiwuanaku. Outros já indicam uma origem mais recente. Os primeiros achados arqueológicos sustentam que foram encontrados tecidos, pinturas rupestres e cerâmica com esta base em xadrez. O símbolo também aparece em desenhos e histórias de cronistas antigos.

As suspeitas de origem moderna da wiphala referem-se, sobretudo, devido ao fato de que era tradicional e simbólico no velho mundo o aceno de bandeiras. Por outro lado, a grande explosão iconográfica da wiphala é recente, entre os ayamarás. E aconteceu com as mobilizações do sindicalismo camponês na década de 1970 na Bolívia.

Foi em 1987, por iniciativa de um grupo de pesquisadores entusiastas do Instituto Nacional de Arqueologia da Bolívia (INAR) que trabalharam recuperando informações existentes sobre os símbolos tradicionais da cultura andina.

Eles projetaram um símbolo com 7 colunas e 7 linhas (49 quadrados), formando um emblema quadrado, onde o branco ocupa a diagonal e o centro, e os outros quadros constituem uma combinação de verde, azul, violeta, vermelho, laranja e amarelo.

Wiphala é muito mais do que a bandeira e o emblema da nação andina. E Aymará é a representação da filosofia andina, simbolizando a doutrina da Pachakama (início, fim Universal) e da Pachamama (mãe, cosmos), que constituem o espaço, o tempo, a energia e o nosso planeta, de modo que o sentido da Wiphala é ser um todo.

Há uma faixa de sete quadrados brancos que simbolizam as Markas (condados) e Suyus (regiões), ou seja, a comunidade e unidade na diversidade geográfica e étnica dos Andes.

Também representa o princípio da dualidade e de complementaridade dos opostos, juntando-se, assim, espaços; e por isso a oposição complementar ou força da dualidade.

Ou seja, a fertilidade, a união dos seres. E, portanto, a transformação da natureza e dos seres humanos que implica no caminho vital, na busca que nos move.

Os quatro lados da wiphala comemoram quatro personagens míticos da cultura antiga e os quatro festivais que representam as quatro estações do calendário Aymará.

O topo da wiphala é identificado com o sol, com o dia; a parte de baixo com a lua, com a noite.

Sobre as cores

As cores se originam no arco-íris, tomado como referência pelos antepassados andinos, para mostrar a composição e estrutura dos emblemas e organizar a sociedade comunitária e harmônica dos Andes.

Vermelho: Representa o Planeta Terra (aka-pacha), é a expressão do homem andino, no aspecto intelectual, é a filosofia cósmica no pensamento e conhecimento dos Amawatas.

Laranja: Representa a sociedade e a cultura, é a expressão da cultura, também expressa a preservação e procriação da espécie humana, considerada a mais apreciada riqueza patrimonial da nação, a saúde e medicina, a formação e educação, a prática cultural da juventude dinâmica.

Amarelo: Representa a energia e força (ch’ama-pacha), é a expressão dos princípios morais do homem andino, é a doutrina de Pacha-Kama e Pacha-Mama: a Dualidade (chacha-warmi) são as leis e normas, a prática coletiva da irmandade e solidariedade humana.

Branco: Representa o tempo (jaya-pacha), é a expressão do desenvolver e a transformação permanente do Quallana Marka sobre os Andes, e o desenvolver da ciência e a tecnologia, e arte, e trabalho intelectual e manual que gera a reciprocidade e harmonia dentro da estrutura comunitária.

Verde: Representa a economia e produção andina, é o símbolo das riquezas naturais, da superfície e subsolo, representa terra e território, e assim mesmo a produção agropecuária, a Flora e Fauna, as reservas hidrológicas e minerais.

Azul: Representa o espaço cósmico, o infinito (araxa-pacha), é a expressão dos sistemas estrelares do universo e os efeitos naturais que estão sobre a terra, é a astronomia e a física, a organização socioeconômica, política e cultural. É a lei da gravidade, as dimensões e fenômenos naturais.

Violeta: Representa a política e ideologia andina. É a expressão de poder comunitário e harmônico dos Andes, o instrumento do estado, como uma estância superior, que é a estrutura do poder, as organizações, sociais, econômicas e culturais e a administração do povo do país.

Tudo isso é muito lindo e de uma profundidade que nos deixa emocionados com a sabedoria dos povos originários.

MEU PROFUNDO RESPEITO E APOIO A ELES

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

Sobre o Autor

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