O destino de José

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O poema José estreou no livro Poesias em 1942, mas é pela voz da rádio Inconfidência BHz que José ganha a popularidade que se mantém.

Era 27 de abril de 1954, julgamento de Décio Escobar acusado de assassinar Luiz Delgado, no Recanto das Delícias, ponto para os romances homoeróticos, no Parque Municipal de Belo Horizonte.

O julgamento no Fórum Lafaiete foi palco do espetaculoso. No púlpito da sala de júri os juristas, Pimenta da Veiga e Pedro Aleixo exibiam a oratória positivista. Do lado de fora a multidão babava pelo Dorian Grey das Alterosas.

“Acusado pela estranha morte do engenheiro Luiz Gonçalves Delgado, o poeta e diplomata foi absolvido por 5×2 – Lágrimas de Décio e de seu patrono – Tristeza da acusação – “Estou livre!” – Depois de liberto, declamando ao microfone, sob aplausos da multidão – “E agora José?”.

Finda a declamação, grandes palmas. O poema era o famoso José, de autoria de Carlos Drummond de Andrade.

Mas, entenderam de anunciar que Décio havia declamado poema de sua autoria. E, para todos os efeitos, o José do consagrado poeta mineiro ficou sendo, naquele instante, um poema do poeta gaúcho, o herói da manhã. [A Noite, 27/4/1954]

Segue abaixo trechos da entrevista que a escritora e jornalista Maria Julieta fez com o pai poeta, e também jornalista, Carlos Drummond de Andrade. (MCS)

Poesia

Eu era muito complicado. Eu acho que a poesia me deu esse benefício, ela, de certo modo, me clareou o espírito. Hoje a poesia que eu faço, embora ainda amarga, porque meu fundo é amargo, não posso negar, ela é muito menos grave, muito menos agressiva do que ela foi quando eu comecei.

Porque eu precisava realmente me livrar de uma tensão interior que não tinha derivativa, não encontrava caminhos para se escoar, então, como que instintivamente, me valendo da liberdade literária que o modernismo instituiu em livros.

José

Eu não tinha nada, não tinha Minas Gerais, não tinha um apoio, nenhum cavalo para fugir…

O que é, José? É um poema de explosão, um poema de suicida que não se suicidou e que conseguiu através de José. E foi reprovado, Afonso Arinos achou o José um poema errado porque eu falava que Minas não havia mais.

Minas não havia mais para mim, naquele momento. Minas há em mim de uma maneira imponderável, porque eu sou mineiro. Se há uma coisa na vida que eu sou, eu não sou brasileiro, eu sou mineiro.

Aquilo era um momento de desespero em que eu não tinha nada, não tinha Minas Gerais, não tinha um apoio, nenhum cavalo para fugir…

 Ouça José aqui na voz de Drummond. 

E aqui o poema musicado e cantado por Paulo Diniz.

 José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

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