Nelson Mandela: em memória aos cem anos

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Veladimir Romano*

Com a chegada do século XXI, a cimeira mundial do Ambiente só se realizou em Joanesburgo, graças à estratégia política deixada pela governação Nelson Mandela, recuperação das infraestruturas, economia e respeito pelo próximo. A nossa experiência desses dias, recordados agora pela comemoração do século Madiba, muita saudade ficou.

Entretanto, desde a morte de Nelson Mandela, muitas atmosferas do colorido e famoso arco-íris que atravessa o céu sul-africano, já se desfizeram; longe vão dias de genuína esperança, alegria, tolerância, suficiente crença de como Nelson Mandela, depois da sua grande lição conciliadora para com a comunidade branca, na relação ingrata do passado racista, ela ter saído ilesa sem quaisquer confrontos de ódios antigos calcados na alma do genuíno povo negro.

Essa nota de amor e humanidade feita manifesto maior da fase mais altruísta, foi a demonstração absoluta de como a alma do grande líder africano [ANC], era ainda maior pelo exemplo, único pragmatismo revelador das formas inspiradoras capazes de fornecer imortalidade aos ditames espirituais.

Logo após ter assumido liderança política em meados de 1990, Nelson Mandela desenvolveu ideia inovadora na qual chamou: Reconstruction and Development Programme [Programa para a Reconstrução e o Desenvolvimento]; período de dois anos e, logo não lhe faltaram críticos, leia-se nesta margem… “inimigos encapotados” que, ao considerarem a ideia projeto «inviável», apenas porque o mesmo era construído numa base de boa blindagem para a não dispersão de verbas e assim evitar-se o habitual festim de corrupção tão fértil, neste tanto quanto reconhecido desnorte das loucas orgias do continente africano.

Óleo de Adenie Adewale, comemorando a Presidência de Mandela

Orçado em 2.5 mil milhões de rands [na época, 1994, mais de 600 milhões de dólares], autêntica expedição governamental à qual esteve ligada a ideia reformadora de base sobre reconciliação nacional, puxando a economia a níveis mais altos, até ser atingida autossuficiência, na época, a frase circulante em Pretória, Durban, Cabo ou em qualquer outra localidade do país; era a coincidente filosofia local quando se dizia: «Qual será a próxima parada para a nossa África do Sul…?». A ironia sempre ocupa lugar perante certas realidades pela ressurreição aos vestígios de mudança no pensamento nativo consumado a todas as cores… na diferença do que realmente se conhece ao esforço avivado por uns, sempre reaparecem outros prontos a roer a corda justificando meios destruidores para nada andar à frente.

Igualmente, dividendos de boa vontade são adulterados pelo quanto que, em qualquer sociedade, grupos possuídos de inveja caduca não faltam, perseguição política montada nas estratégias prontas em atraiçoar a qualquer preço só pelo prazer destrutivo de uns quantos nada interessados em dar respostas às exigências e responsabilidades, preferirem assistir ao lado pior da história.

A equipe escolhida por Nelson Mandela, multirracial, não desdenhou o valor assumido, reconhecido de gente antiga como o então colocado a ministro das Finanças Derek Keys e, para o Banco Central, Chris Stals, como governador; assim foi inteligente demonstração de Nelson Mandela como entendia governar o seu país [a ideia de um marxista sem medo do inimigo, convencido a governar no pleno do equilíbrio, convida este a governar]depois de haver passado por tudo aquilo que já foi descrito do seu histórico político e combatente da liberdade; Mandela, pensou de como ter bons profissionais, sem olhar a cores, puxando velhos adversários que não devem ser “abatidos”, mas antes aproveitados a bem da nação e da sociedade… foi quando a clarividência superou a ignorância de muitos.

Não tardou que os mercados internacionais e bolsas principais de Hong Kong a Nova York, passando por Londres, Paris ou Frankfurt, provocaram alívio, certezas, acima de tudo uma forte mensagem aos investidores internacionais que iniciaram seu caminho ao mercado sul-africano sem receios nem complexos. Imediatamente foram levantadas longas sanções dos organismos multinacionais também subjugados aos limites; assim, rápida recuperação da seca financeira da década de 1990, ao rápido crescimento relevante na primeira época agrícola com especial destaque a enorme produção de milho. Novos recordes na extração e coincidente exportação do ouro fazendo crescer o produto interno aos dois por cento, dando sinais convictos de que presidente Nelson Mandela estava certo do seu caminho e projeto, enquanto detratores roíam unhas, perdidos na incerteza cinzenta das suas poses negativas.

Mais: pela primeira vez nos vinte anos passados a inflação mantinha níveis de baixa aceleração, apenas alguma existente acompanhando o crescimento econômico como veio em pouco tempo este panorama emergente atrair duzentas empresas internacionais de uma só acentuada de dois anos, investir no mercado das terras do feliz arco-íris, virou moda. A chegada destas, atraiu agências sobre estudos de mercado, bancos, empresários, novas embaixadas até então sem comunicação diplomática com o “regime branco”, sentaram praça na capital. Daqui, foi um salto para nova abertura também com países restantes do continente, contagiados pelo rebento de novos ventos na África do Sul… pois, ia-se ao país de Nelson Mandela, não seria qualquer coisa; antes tudo, do bom que possa existir acreditando quando um homem manifesta seu carisma, extensivo humanismo como arma simples, sincera, direta, majestoso, plenamente afável, resoluto de realismo social-político como econômico; conquistou muita confiança de primeira ordem.

Nelson Mandela soube transformar qualquer ódio e recalcamento racial no paradigma social, dentro de uma infalível aposta nos valores humanos, coletiva vontade não para esquecer mas para perdoar, dizendo não(!) àqueles que possivelmente gostariam de olhar e, ou talvez apostar num banho sanguinário destruindo vidas, assaltos violentos às propriedades alheias, rapinação de bens, vingança, atrás de simultâneos promovidos a causar dor e pânico no povo; não! O mais importante, era mesmo transformar a terra limitada pelo egoísmo dalguns infelizes numa outra livre e proveitosa para todos.

“Quando eu sai em direção ao portão que me levou à liberdade, eu sabia que, se eu não deixasse minha amargura e meu ódio para trás, eu ainda estaria preso.” (Nelson Mandela)

A confidência engenhosa do mestre da bondade, do optimismo, da determinação e da coragem sem fim; mostrou como se governa, seja na África do Sul ou em outra parte do planeta, intrínseca forma natural baseada na verdade pensando no país e no povo, fizeram de Nelson Mandela a figura admirada mas infelizmente nunca imitada por todos aqueles que se banham nos discursos ocasionais mas não desejam de maneira nenhuma ser grande como Madiba. Depois de tudo sendo o continente africano, um dos mais saturados de conflitos, forte desigualdade, xenofobia étnica, imensurável e doentia corrupção, crônico desemprego, quase aniquilação total da esperança futurista que nunca chega mas que se promete a cada corrida eleitoral; líderes que verdadeiramente nunca quiseram seguir conselhos, exemplos e métodos aplicados por Nelson Mandela, preferem ainda agora quando se comemoram cem anos do nascimento deste enorme personagem, fantasias elevadas à semântica fácil e brejeira.

Esta aplicação reformista iniciada pela inteligência e mote estratégico do grande Madiba, podendo servir inspiradora maré aos demais líderes, na altura e durante os seguintes quatro anos, retirou da miséria absoluta perto de vinte por cento desta população desfavorecida, discriminada, entregue à sua sorte nas periferias mais urbanas, locais onde foram construídos dois milhões e meio de novas habitações [com energia elétrica, água, telefone dentro de um plano social para cinco anos; tudo acompanhado com criação de dois milhões e meio de empregos, cursos, treino técnico], debelando-se assim uma desigualdade terrível provocada pelo capitalismo nascido nas ideias financeiras do “apartheid”; como dizia na altura um dos executivos mais credenciados de origem inglesa: Grant Thomas do grupo industrial “Malback”, «…Ainda somente 20% do caminho foi feito!». Inclusivamente, deu para modernizar a corporação militar que também Nelson Mandela deixou nas mãos do general Joe Modise, homem-forte do regime branco, reconduzido ao efeito.

Naturalmente, a economia nacional foi colocada sob enorme esforço, mas igualmente sem ambição não há nenhuma reforma que dê jeito à destruição do próprio misticismo original que sempre ocupa lugar oportunista no poder. Com isso, Nelson Mandela procurou manobrar equilibradamente o mais possível sempre atento aos desvios e ausências fugindo à concepção transparente por qualquer motivo, ainda assim o maior desafio ao presidente foi o gigantesco fosso de bem-estar, distribuição de riqueza, apoio social às populações desfavorecidas ao longo do país. Esta pirâmide brutalmente desfavorável arrasou noites de sono intranquilo ao homem que resistiu a tudo e a longos anos de confinamento prisional na “Ilha do Diabo”.

Saúde, educação, transportes, energia, água, empregos; foram iniquidade declarada sem muito esforço e latente na sociedade sul-africana… terá sido de facto o epíteto total dos desafios ao primeiro governo de origem negra depois do enterro das ideias racistas terem dominado o país ao longo de 46 anos, a dor escondida atrás do eterno e sereno sorriso de Madiba… assim mesmo serviu para combater qualquer resquício da supremacia branca e da sua repressão contra a raça negra, mas a mensagem humana para atrair ajudas ao país, fez-se escutar e, desde o Canadá, Inglaterra e dos EUA; enviando milhões como reforço a quantos esforços do governo de Nelson Mandela, representou a confiança depositada na honestidade e determinação aplicada aos problemas sem fim deixados pelo “apartheid”. Só assim se pôde realizar um dos sonhos do presidente Nelson Mandela, ao construir-se o primeiro centro médico-hospitalar pediátrico para a população mais jovem de raça negra; algo inexistente no período da segregação racial.

Mesmo assim, nos primeiros cinco anos de administração negra, foram gastos na reforma do país o equivalente a 7% do orçamento anual da África do Sul; o desafio de ter oito milhões de pessoas de raça negra sem condições condignas [onde quatro em cada cinco não tem o mínimo]e mais dois milhões de crianças sem assistência hospitalar ou pediatra em má nutrição, foram alvos atingidos com precisão. Nos anos noventa, no Soweto, anualmente morriam oitenta crianças em cada mil, enquanto noutros países do continente morriam vinte, pelos mesmos mil; no sistema educativo faltavam trinta e três mil aulas para crianças negras, com resultados na ordem dos quase 70% de iliteracia entre os mesmos jovens negros. Uma velha e dura realidade.

Assim, árdua trajetória, longa batalha esta conduzida mais uma vez por Madiba contra injustiças praticadas pelo endémico segregacionismo do regime branco ao longo de várias [longas]décadas; uma pesada herança levada com determinação mas, ao contrário de tantos políticos, em vez de força bruta, aplicou simplicidade tão natural e genuína que só um personagem muito particular como Nelson Mandela pudesse ser.

Quando se cumpre agora [18 de Julho] o primeiro século do nascimento desta figura tão inspiradora quanto inesquecível, vivendo o continente africano a sua contínua desagregação social e vergonhosa saga de líderes corruptos, processos eleitorais marcados pela violência, conflitos, imensa molde humana fugindo em busca desesperada de paraísos inexistentes, descanso impossível de encontrar, justiça difícil de crédito, dignidade perdida e a fome matando milhões, ceifando vidas de povos indefesos à mercê da maldade infinita dos seus políticos ou líderes absolutamente perdidos de bom-senso à desumanidade em escala desordenada, reencontrar Nelson Mandela, é novamente reavivar memórias daquilo que de melhor se pode fazer da fonte mágica, indicadora dos caminhos que realmente podia este mundo tomar, em particular [com alarmante urgência], rumo às reformas sérias, mais ainda à tão necessária transparência.

A vida e o legado de Nelson Mandela hoje pertence à humanidade

Depois das lições e atitude exemplar do grande chefe xhosa com exemplos, heroísmo, tamanha dimensão do estadista dentro do nível universal, seria esse trilho aberto inspirador numa sociedade nova, possível referência para toda a região africana na esperança de se encontrar a tal dimensão libertadora, criativa, finalmente modelo futurista evoluindo pela existência dos povos irmãos do continente “matter” da humanidade deterem exemplos do homem que deixou esclarecimento, clareza e bondade.

A pesada herança assumida pelo presidente seguinte: Thabo Mbeki [1999-2008], caiu com estrondo acossado pelos mesmos inimigos que já haviam anteriormente desejado confundir forças boas com as más e, Thabo Mbeki, não aguentou, cedendo lugar ao ansioso e desesperado poder, Jacob Zuma; terrível rival já na altura acusado de fortes ações corruptas, coisa agora super confirmada, ainda assim, amarrou-se ao poder desde 2009, arruinando até 2018 a herança otimista deixada por Nelson Mandela. Ora, se a felicidade de uns é a desgraça de outros, esse dilema caiu logo seguidamente com a desgraça inútil de Jacob Zuma.

Alegadas, audíveis e carregadas acusações sobre má conduta de Jacob Zuma, pouco caso fizeram os membros da chamada “Conferência” [grupo do ANC equivalente a conselho administrativo da Presidência Nacional], pelo que movimentados corredores descontrolados, repleto de intrigas, já tinham estabelecido panoramas pouco favoráveis desde a derrota precipitada com a qual sacudiram a idêntica transparência, humildade e total ausência de ambição ou jeito para governar no espírito do velho herói Thabo Mbeki, desde 2007, perseguido pelo efetivo grupinho da dita cuja “Conferência”, optando pela força desleal em favor de Jacob Zuma; hoje, finalmente, julgado dos casos de corrupção bem conhecidos, deixando lastro de vergonha ao histórico ANC.

Da sepultura, chega-nos a memória dos derradeiros instantes sobre a maior jornada de Nelson Mandela em relação a tudo aquilo de bom que nos deixou, da sua alma imortal, melhor de tudo, ressalva o idêntico som de um certo “Soweto Blues” na longínqua voz da inesquecível Miriam Makeba… a rainha Pata Pata abrindo em flor como a famosa “protea”, planta nacional elevando a coroa ao céu, ilumina-se pedindo ao eterno arco-íris da terra, transporte até ao lado imortal por onde anda o nosso impagável e sempre lembrado Nelson Mandela.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

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POESIA:

O Arco-Íris de Madiba

Olá, Madiba, bom dia!

O cinzento obscuro dos dias mandados da raça apartheid;

tal sátira sem intervalo, já se dissipou.

 

Agora o sol brilha como nunca, muito melhor se pode escutar

o solto silvar alegre e doce das aves que fizeram ninho no Soweto.

Cantam em uníssono hinos jamais escutados! 

 

Nos jardins:

rubricam manhãs únicas e nunca mais solitárias, como são belas

as africantas, ixias, ericas e kumaras… verdejantes; 

brilham hoje mais que nunca no esplendor das suas cores vivas,

reluzentes, sedutoras; coisa igual ao sincero sorriso do teu povo Xhosa,

Zulu, Vende ou Suázi… reclama hoje e todos os dias sincera e duradoira paz!

 

Qual aurora pronta e aberta a novas jornadas chegam optimistas…

 

Ao longe, depois da majestosa Durban e mais além, voltou-se a reviver

o velho arco-íris no meio da região austral.

São vidas à espera da voz continental do líder… por Madiba, podemos todos

ficar aqui sentados cem anos… 

 

Inkosi yam ephawulekayo, tata Madiba, (*)

anunciaram ontem teres ganho o Prémio Nobel da Paz!

Que bom; isso é justiça junto com amor e respeito!

Honra seja feita a tanta luta pela conquista da verdade,

sentado na ilha do Diabo onde ainda tiveste energia ao criares 

e ensinares o que são valores, dignidade suprema na Terra

conduzida por homens, onde alguns… até se julgam deuses.

 

Deuses que não sabem viver sem fama, quando a fama é esperança

forrada com timidez… antes adormecer na escuma do mar

profundo feito vagabundo sem crença ou pátria para chorar.

 

Cega e esfria o coração abandonado na aurora roxa sorvendo gotas

desse orvalho derramado que se perde nas terras altas do Cabo.

Levemente, por outro lado, sentindo brisas que te convidam a sonhar,

eleva-se de novo o arco completo das cores preferidas anunciando

mais chuva perfumada.   

 

Mordendo os lábios e confundido pelo mistério dos homens;

ajusta a tua inspiração divina, mantém energias ativas nos altiplanos

astrais porque as luzes do teu arco-íris dão novamente sinais de tristeza.

Sombras estranhas habitam vales, mas o grato arvoredo estica ramadas

ao encontro do teu Arco-Íris rescendente, qual lençol noturno… 

A tua alma já não dorme e menos enfraquece à mercê da miséria dos mesmos infelizes que nunca juraram respeitar o teu legado, a tua coragem, defender o povo e vencer o mal porque permanece uma imagem voluptuosa de encher a brisa madrugadora à espera do teu Arco-Íris rompendo as nuvens… 

V.R.

(*) Língua xhosa = Meu ilustre mestre, pai Madiba

 

 

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